outras colunas
Pop Lesbian
Mães (orgulhosamente) lésbicas
Por Cristine Sliz15.02.08
Arte sobre foto: Caio X
|
Conheci, recentemente, duas mulheres com histórias bem diferentes. A primeira era casada, teve dois filhos, e após 15 anos descobriu o seu desejo por mulheres. A segunda lésbica, assumidíssima, fez um "acordo" com um amigo para engravidar e, acreditem, o processo todo foi dos mais tranqüilos, pelo que conta.
A primeira, que vou chamar aqui de Helena, tem 43 anos e casou-se bem nova, aos 19. Desse relacionamento teve dois filhos. Ficou anos sem trabalhar a pedido do marido, que tinha ótimas condições financeiras. Quando a filha mais velha completou 15 anos, voltou a exercer sua profissão: enfermeira. Arrumou um emprego em um hospital e tinha bons relacionamentos com seus colegas, inclusive com a chefe, Raquel, que é homossexual.
A chefe, por sua vez, a chamava para participar de festas da empresa e passeios particulares. Helena não aceitava. Ao mesmo tempo sentia uma vontade louca em aceitar os convites dela, mas na cabeça, talvez, fosse algo fulgaz. “Raquel, além de chefe, era uma grande pessoa. Amiga, conselheira, excelente profissional, generosa e com um coração enorme”, relembra. Até que aceitou o convite e então deixou ser beijada por Raquel no banheiro do restaurante em que jantavam com outras amigas. “Senti algo diferente e descobri que a minha vontade era de estar ao lado de uma mulher. O desejo é grande, intenso”, conta emocionada.
Helena separou-se do marido e investiu na relação, pois estava cada vez mais atraída. “Raquel é o meu porto seguro. Moramos juntas há nove anos e meus filhos também. Ela me ajudou muito na educação deles. Raquel sempre soube orientá-los, principalmente na escolha das profissões. Minha filha é publicitária e meu filho está no 2º ano de fisioterapia”, ressalta.
Segundo Helena, na época da separação houve um tempo para adaptação. Tanto para seus filhos quanto para ela mesma. “Meus filhos estavam na adolescência. Foi muito complicado para eles entender que me separei do pai deles para ficar com uma mulher. A cabeça de ambos virou um turbilhão. Mas tive que ter paciência e evitar qualquer cobrança. Penso que eles foram maduros em aceitar a minha vontade e principalmente a Raquel”, salienta.
Filho com o melhor amigo
O segundo caso é de uma securitária, que tem um filho de 10 anos, “lésbica desde quando nasceu”, como costuma dizer. Essa mãe, que prefere que nos refiramos a ela apenas como Isabela, pediu ao seu melhor amigo para que a engravidasse. “Sempre fui muito bem resolvida com a minha orientação sexual. Eu só tinha o desejo de ser mãe. Não encontrei outra alternativa senão pedir para meu melhor amigo. A princípio ele não curtiu muito a idéia, mas aceitou. Afinal era uma vida que estava em jogo. A proposta era séria. Pensamos em muitas questões do tipo família, namorada, e principalmente no bem-estar do bebê”, afirma.
Muitas pessoas foram contra a decisão, mas ela não desistiu. “Tudo foi muito bem planejado. Desde a concepção até o nascimento: nome, maternidade, a escolha do plano de saúde”. Inclusive, quando o filho nasceu, o pai ficou por um tempo instalado na casa de Isabela, porque ambos quiseram que a criança mantivesse contato com o pai desde muito cedo.
Hoje a criança está com 10 anos, cursa a 5ª série em um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, fala bem dois idiomas e pratica judô. Segundo Isabela, ele é uma criança pró-ativa, inteligente e muito amorosa. Ele divide seus finais de semana ora na casa do pai – que mora sozinho -, ora na casa dos avós maternos ou paternos. “É uma criança muito querida. Nunca escondi minha preferência sexual para meu filho, mesmo porque tenho uma namorada e ele sabe respeitar. Não me arrependo de nada e faria tudo de novo se necessário fosse”, finaliza Isabela.
Famílias diferentes? Sim, como todas no mundo são. E para Helena, Isabela e as muitas e muitas mães lésbicas do nosso país, a vida flui tranqüila, em muitos casos até mais “normal” e serena do que muitas famílias que vivem por aí... no mundo.
Ficam aqui os exemplos, caso você tenha o objetivo ou sonho de ser mãe e ainda sinta temor da reação dos que a cercam, da sociedade ou da ala conservadora da Lei, no caso de quem pretende adotar. O resto é com você.
Cristine Sliz é jornalista


Assine já a revista 