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Papo Cabeça
Minha anima é a Marília Gabriela
Por Klecius Borges23.04.09
Foto: Digital Vision
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Sonho sempre, de forma recorrente e regular com a Marília Gabriela. Sonho mesmo, quase sempre em situações nas quais compartilhamos certa intimidade, como se fossemos amigos de longa data. Estamos geralmente na casa dela ou na minha e nossas conversas, nesses sonhos, giram sempre sobre temas banais do dia a dia. No último, por exemplo, eu apresentava a ela o meu namorado. (Informação importante: não tenho com a Marília Gabriela real nenhuma relação pessoal. Tivemos apenas um contato profissional quando fui por ela entrevistado há alguns anos.)
Como os sonhos são para nós terapeutas de orientação junguiana a mais importante porta para o inconsciente e uma fonte inesgotável de autoconhecimento, uma vez que são um produto espontâneo e involuntário da psique, meus sonhos com ela me renderam muitas sessões de terapia. A ponto de o meu analista brincar: vi sua anima no shopping hoje.
A anima representa na visão junguiana o elemento feminino na personalidade do homem. Ou seja, a imagem primordial da feminilidade que todo homem carrega dentro de si e com a qual deverá se conectar e integrar ao longo de seu processo de desenvolvimento psíquico. A anima é a fonte de vida no inconsciente e é de onde emanam os sentimentos, as emoções, a criatividade e as possibilidades de renovação.
Sob esse ponto de vista, o fato de minha figura de anima aparecer nos meus sonhos personificada pela Marília Gabriela, me faz supor que a imagem que tenho dessa figura pública carrega em si atributos e características com as quais meu lado feminino se identifica. Entre as várias associações que consigo conscientemente fazer com a imagem que tenho da Marília Gabriela estão a de uma mulher inteligente, independente, livre, corajosa, poderosa e muito bem-sucedida em um campo profissional notadamente masculino. Se considerarmos que essas características, mais relacionadas ao principio de logos (razão), são tradicionalmente associadas ao mundo masculino, minha anima talvez seja nesse sentido um pouco “masculina”. Interessante, não?
Ainda que o tema da integração da anima seja universal na clínica de orientação junguiana, esse processo tem a meu ver algumas especificidades para os homens gays. Robert Hopcke, analista junguiano americano e autor do livro Jung, Junguianos e a Homossexualidade afirma que para se compreender o sentido psicológico e a função do feminino para os homens gays contemporâneos, deve-se levar em consideração o contexto psicológico, com seus costumes e atitudes sexuais dominantes na cultura ocidental. Esse contexto inclui duas características centrais: o patriarcado, ou seja, a valorização excessiva das características e papéis sociais atribuídos aos homens e o heterossexismo que estabelece a heterossexualidade como única forma normal de expressão da sexualidade humana. Para ele, a única auto-definição culturalmente disponível para o menino que se sente atraído por outros meninos é ver a si próprio como um ser psicologicamente feminino.
Na visão de Hopcke, como resultante desse processo cultural profundo, a feminilidade do homem gay, diferentemente da do homem heterossexual, é vista na nossa cultura, tanto no plano social, quanto no plano psicológico, como determinante de sua identidade. Isso pode ser visto claramente na cultura gay coletiva no qual o feminino dominante aparece representado pelos estereótipos patriarcais do feminino (super valorização da aparência, histrionismo, caráter excessivamente emocional, futilidade, etc.).
Para Hopcke a saída saudável para os gays está então na busca por uma feminilidade interior verdadeira e singular que lhes sirva confortavelmente e atenda as suas necessidades reais. Para tanto, eles precisam se livrar das caricaturas que a sociedade faz do feminino, assim como da auto-identificação com a feminilidade que lhes é atribuída culturalmente. E como consequencia, aprender a se relacionar com a feminilidade interior verdadeira e recuperar as qualidades masculinas disponíveis a eles enquanto gays. Qualidades essas que lhe foram roubadas pelo patriarcado e pelo heterossexismo. Ou seja, precisam alcançar uma integração entre o lado positivo da masculinidade e o feminino autêntico.
Se essa análise de fato fizer sentido, o que acredito que faça, a Marília Gabriela pode ser para mim a representação, isto é a imagem que melhor circunscreve, a integração masculino/feminino que como homem gay busco como parte do meu caminho de individuação. Será?
Klecius Borges é Psicólogo (CRP 06/6283) e atua em terapia afirmativa
terapiafirmativa@uol.com.br


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