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Filosofando
Mangás e identidade
Por Ferdinando Martins31.07.09
Reprodução
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Do Japão para o mundo, gênero problematiza conceitos ocidentais |
Havia um tempo que só os mais aficionados fãs de histórias em quadrinhos sabiam o que era mangá. Depois da febre do RPG (Role Play Games) e dos ventos orientais da globalização, essa forma de literatura japonesa alargou seus adeptos no mundo ocidental. Tanto que até HQs clássicas como as da Turma da Mônica e da Luluzinha ganharam versões nessa linguagem. A venda de mangas nos Estados Unidos chegou as cifras de US$ 210 milhoes em 2007.
Fato curioso é os mangás e os animes (a versão em animação das histórias) tratam, em vários momentos, de uma sexualidade menos formatada em preconceitos e estereótipos. Assim, ao lado de personagens héteros, não é raro entrar outros mais ambíguos ou expressamente gays.
Neste Filosofando, vamos apenas indicar possibilidades de leituras de alguns mangás, problematizando os conceitos ocidentais de gênero e sexualidade.
Um gênero ficcional
Diferente das HQs ocidentais, até recentemente recebidas como entretenimento de menor valor cultural, o mangá tem status de boa literatura no Japão. Sua origem remonta ao período Nara (séc. VIII), quando apareceram os emakimono, rolos de pinturas acompanhados por textos. A medida que as imagens iam sendo apresentadas, uma narrativa verbal contava uma história.
A forma atual surge no século XX, sob a influência dos quadrinhos norte-americanos, sobretudo durante a ocupação americana do Japão após a Segunda Guerra Mundial. O primeiro grande mangaká (autor de mangá) contemporâneo foi Osuma Tezuka que transportou para os mangás certas características dos desenhos da Disney, sobretudo os olhos grandes e o exagero de bocas, sobrancelhas e nariz para dar mais expressividade. Também foi Tezuka quem introduziu onomatopeias integradas com a arte e efeitos que simulam movimento. Ele também criou animes desde 1963, para a televisão japonesa. Aliás, a TV ajudou a popularizar os mangás e possibilitar a criação de diversos subgêneros, abrangendo um público maior que o de jovens e crianças.
Dessa forma, os mangás passaram a ser classificados de acordo com seu público-alvo. Shounen é para garotos jovens e tratam de histórias de ação e aventura, envolvendo temas mais nobres como a lealdade aos amigos. Shojo é, em geral, voltado para garotas, envolvendo histórias de amor. Gekigá são mangás mais realistas, para adultos. Hentai são mangás com cenas de sexo e lemon, sexo gay. Tem ainda, entre outros, os yaoi, que são histórias envolvendo o amor entre dois homens.
Pois bem, a partir da definição de yaoi a diversidade sexual começa a ser problematizada. Apesar de as histórias girarem sobre o amor entre dois homens, são escritas, em geral, por mulheres e seu público, no Japão, é predominantemente feminino. No Ocidente, seus leitores principais, como era de se esperar, são jovens gays. Foge às possibilidades deste Filosofando investigar o fenômeno com mais acuidade. No entanto, é evidente que indica uma apropriação desse produto cultural diferente da observada no Ocidente.
Hibridação
No mercado norte-americano, os yaoi apareceram em 2003, com o lançamento dos títulos Fake e Gravitation. Desde então, a editora TokyoPop lançou 22 titulos de yaoi. A June/ 801 Media , 160. A Yaoi Press, 36. E a Better with Boys, 25. No Brasil, a única publicação lançada foi Gravitation, pela JBC Mangás. Uma edição pirata chegou a circular anos antes, com uma "adaptação" - um casal hétero no lugar do formado por dois homens.
A entrada de yaoi no mercado americano, no entanto, não foi tranquila, requerendo dos editores sucessivos processos adptativos, resultando, consequentemente, em um produto híbrido, principalmente para amenizar o conteúdo sexual insinuado e impedir a entrada de desenhos com traços infantis. Por conta disso, os yaoi publicados nos Estados Unidos não são considerados "autênticos", isto é, somente traduzidos para o ingles. Sofreram adaptações de acordo com as leis e os costumes locais.
A editora TokyoPop, por exemplo, decidiu não publicar Gravitation Remix, mangá do mesmo autor de Gravitation, mas com cenas de sexo. Apesar de ter recebido muitos pedidos de fãs, considerou inviável o lançamento porque os personagens tinham aparência de serem menores de idade. A editora ainda anunciou que não publica histórias de envolvimento entre alunos e professores, bastante comuns no Japão.
Surge, porém, a pergunta – afinal, as aptações são para adaptar o conteúdo às demandas do público ocidental ou, ao invés disso, instituir padrões do que, supostamente, esses consumidores – gays – deveriam desejar?
Troca de papéis
Gravitation é um mangá japonês de doze volumes que aborda o relacionamento homossexual entre um jovem cantor e um escritor. Criado por Maki Muramaki, Gravitation fez sucesso no Japão e nos Estados Unidos, virou anime (desenho animado) e conquistou fãs. No Brasil, lançado pela Editora JBC, Gravitation tem conquistado gays e até garotas, que se encantam com o escritor Eiri Yuki – um bissexual disputado pelo adolescente Shuichi e sua namorada oficial, a jovem Ayaka.
Shuichi é um garoto que descobre seu primeiro amor. Por isso, não tem inteligência emocional suficiente para lidar com a situação de disputa que se estabelece entre ele e Ayaka. Pegajoso, dado a ataques de ciúmes, inseguro, ele tenta conseguir o amor de Eiri de qualquer forma.
Eiri, no entanto, percebe que há algo de doce e ingênuo em Shuichi, o que faz com que eles tenham encontros intensos. Gravitation apenas insinua cenas de sexo. Faz a linha novela de televisão: mostra o beijo e, depois, os dois se trocando com a cama ao fundo, desarrumada. Eiri tem um ar blasé, esnobe. Ayaka é uma garota sedutora e que tem certeza que terá o amor de Eiri só para ela, assim que conseguir neutralizar a influência de Shuichi.
Chama a atenção é a forma com que a homossexualidade e a bissexualidade são tratadas de maneira natural, inseridas sem conflitos nos grupos de artistas e adolescentes. Os conflitos inerentes ao drama dizem respeito à disputa de amor entre Ayaka e Shuichi, e não à orientação sexual dos personagens.
Ao imaginarmos leitoras japonesas acompanhando Gravitation, podemos pensar se não há aí uma inversão de papéis masculino/feminino. O riso provocado seria decorrente de ver um garoto/homem tendo reações comumente associadas às mulheres – incluindo a manha, o choro, a dependência.
Fronteiras
Moderno até não poder mais, o manga Paradise Kiss foi lançado no Brasil pela pela editora Conrad. São cinco volumes que contam a história de Yukari Hayasaka, estudante aplicada que se prepara para o vestibular quando conhece um grupo de alunos de moda, todos muito criativos e nada convencionais.
A autora, Ai Yazawa, criou um universo no qual a diversidade dá o tom. Das tribos, há desde punks até Gothic Lolitas (aquelas jovens do Japão que vestem roupas infantis pretas), passando por nerds e até lipstick lesbians (as lésbicas "bem arrumadas", a la The L Word). Também há uma sexualidade fluída, em personagens ambíguos como Isabella – lindamente desenhada, com traços de feminilidade aguçada e um rosto ligeiramente masculino.
Na trama, Yukari é apaixonada por um colega de sala, Hiroyuki Tokumori. Ela faz cursinho para entrar na faculdade e estuda muitas horas por dia. Tudo muda, porém, quando Yukari conhece o punk Miwako, que usa alfinetes no rosto, e Isabella. Eles a levam até um ateliê onde preparam um desfile para a Yazawa Gakuen, escola alternativa de moda, onde estudam.
O ateliê é chamado de Paradise Kiss, daí o nome da série. A convivência do grupo faz Yukari ter de refletir sobre os valores tradicionais que lhe foram passados na rígida cultura japonesa. A série, de grande sucesso, foi originalmente publicada entre 1999 e 2003 na Zipper, revista de moda para adolescentes. É classificada como um josei, mangá para mulheres jovens, mas na verdade seu público, em todos os países em que foi publicado, é bem mais amplo, atraindo muitos gays. Em 2005, virou anime, com trilha sonora de Franz Ferdinand.
Paradise Kiss integra estilos de vida e propõe até mesmo sexualidades sem nome – no caso de Isabella. Mostra também que não há identidades fixas, já que é possível cambiá-las conforme o desejo individual. Mais ainda, propõe que a identidade escolhida não implica o estabelecimento de fronteiras. Um dos pares amorosos é, justamente, formado pelo punk Miwako e uma garota infantilizada, louca por milk-shake de banana.
Nova masculinidade
Aishiteruze Baby é um mangá e anime criado por Maki Yoko, no estilo shojo, publicado no Brasil pela Panini Comics. Trata de um rapaz, Kippei Katakura, que faz o papel de conquistador no colégio em que estuda. Seu relacionamento com as mulheres, no entanto, muda quando se vê o obrigado a cuidar de Yuzuyu Sakashita, sua prima de cinco anos de idade cuja mãe desapareceu.
Há uma nítida transformação de Kippei, que passa de uma atitude machista para outra, mais solidária em relação às mulheres. Kokoro, sua amiga de escola, aparece como um contraponto – é adolescente como Kippei, mas desde o inicio da história mostra-se responsável, preocupada com as outras pessoas, estudiosa.
Não fica claro porque é Kippei quem deve tomar conta de Yuzuyu. Assim como em Gravitation, parece a princípio ser um jogo de inversões de papéis – o rapaz aparece, em quase todos os episódios, tentando dominar tarefas tradicionalmente femininas, como preparar a lancheira para a menina levar para a escola.
Contrastes femininos
Nana é um mangá josei também criado por Ai Yazawa, de grande sucesso, com mais de 22 de milhões de cópias vendidas. No Brasil, é publicado pela JBC Mangas. A série conta a história de duas garotas de diferentes personalidades, ambas chamadas Nana, que acabam se tornando amigas.
Komatsu Nana é uma jovem comum, com ar infantil e consumista. Seu sonho é viver com seu namorado. Oosaki Nana, ao contrário, adota o estilo gótico-punk e ganha seu dinheiro como vocalista de uma banda de rock. Sua ambição maior é mudar-se para Tókio e ganhar a vida com a música.
De certo modo, entre Komatsu e Oosaki há um confronte entre a tradição e a modernidade, entre a escolha por uma vida doméstica e outra, independente. É curioso notar que ao redor de Oosaki circulam personagens com estética mais contemporânea.
Por aqui
No caso brasileiro, chamou a atenção recentemente o fato da versão mangá da tradicional Turma da Mônica, de Maurício de Souza, trazer uma personagem, a garota Denise, com um grande "sotaque" gay. Embora nada indique que ela seja lésbica ou algo parecido, Denise usa expressões como "babado forte", "arrasou", "bofe", "pão com ovo". Quando gosta de algo, diz que "é tudo!".
Lançada no número 5 da Turma da Mônica Jovem, Denise logo causou comoção entre o público gay. No entanto, seu criador, o roteirista Emerson Abreu, desmentiu que a personagem fosse lésbica ou que tivesse aprendido as gírias com algum amigo gay. Segundo ele, a personagem foi influenciada pela cena clubber paulistana dos anos 90, mas que seria muito difícil que a homossexualidade estivesse presente nos quadrinhos de Maurício de Souza, nos quais até um tema hoje mais ameno, como a separação dos pais do personagem Xaveco, recebeu críticas negativas de leitores. Sobre a maneira de Denise falar, explica que é para mostrar que a personagem é uma pessoa "antenada".
Ainda assim, Denise indica a existência de um trânsito entre a cultura "gay" e outras manifestações culturais. Nesse sentido, seu vocabulário atesta que as convenções sociais associadas à certo estilo de vida de homossexuais urbanos transbordaram as barreiras desse campo. É um sinal de que a categoria "gueto" não faz mais sentido para gays urbanos. É um indício de que a categoria "gay" está sendo problematizada.


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