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Filosofando
William Burroughs. Vida nada exemplar de um escritor genial
Por Ferdinando Martins13.05.09
Divulgação
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Se William Burroughs fosse o personagem de um filme, é possível que a militância LGBT enviasse uma carta ao roteirista protestando. Afinal, ele seria o estereótipo de tudo o que é ruim associado a um gay – o que em nada contribuiria para a construção de uma imagem positiva da homossexualidade.
De fato, a vida de Burroughs não foi nada exemplar – e talvez por isso mesmo ele tenha se tornado um escritor genial. Ao lado de Jack Kerouac, Burroughs é ícone da geração beat e autor de uma obra experimental, grotesca e fantástica, cujo melhor é exemplo é o premiado Almoço Nu.
Mas Burroughs era também um homem complexo, que só saiu do armário depois da morte de sua esposa por acidente. O "acidente", no caso, foi provocado por Burroughs, que pediu para a mulher segurar um copo sobre a cabeça para ele tentar acertar com um tiro. Acertou em cheio o rosto da esposa. Esnobe e dependente químico de heroína e outras drogas, soube como poucos transformar seus defeitos em literatura de alta qualidade.
Nem dândi, nem flaneur
Ensaísta, romancista, contista e poeta norte-americano, William Burroughs teria tudo para ser um norte-americano típico. Nasceu em 2 de fevereiro de 1914, em St. Louis, no Estado de Montana, em uma família rica, a do inventor da máquina de calcular Burroughs. Estudou Medicina em Viena, formou-se em Antropologia na Universidade de Harvard em 1936 e, claro, após o curso foi passar uma temporada na Europa. Se fosse no século XIX, Burroughs provavelmente se tornaria um dândi ou um flaneur.
No acelerado século XX, porém, as demandas eram outras e ele acabou por tornar-se um escritor profícuo. "Eu não me sentia compelido. Não tinha nada para fazer. Escrever dava-me algo para fazer cada dia", afirmou a respeito de seu início de atividade. E, também seguiu a tendência dominante na época e tornou-se um usuário pesado de diversas drogas – experiência que retratou em um de seus principais trabalhos, Almoço nu. No caso, porém, a experiência não era, como é hoje, uma vivência narcísica e hedonista. Ao contrário, as drogas simbolizavam um ato libertário, questionamento de valores da burguesia dominante.
Junte-se a isso o fato de ter assassinado sua mulher e ter sido internado em um manicômio após auto-mutilar um dedo para perceber que a felicidade da família ideal estava longe de ser a vida de Burroughs.
Alternativo e esnobe
"Gente doente me enjoa. Quando algum cidadão começa a falar sobre seu câncer na próstata ou seu septo podre, soltando aquela desgraça purulenta, eu digo: 'Você pensa que estou interessado em ouvir sua horrível condição? Pois não estou nada interessado'". Este trecho de Almoço Nu poderia ter sido dito na vida real por Burroughs.
Carregando as ambiguidades de sua época, Burrroughs viveu entre a burguesia e os movimentos libertários. Em seu diário, escrevia como um esnobe, ao mesmo tempo em que era lido e admirado pela geração beat: "O caviar chegou. Sabe, filho, quando o sujeito se vicia em caviar Beluga, não há nada que não fará para satisfazer a fome de caviar que o consome. Ele pode mentir, trapacear, pode até matar para conseguir uma porção. Pode chegar ao ponto em que nem humano é mais. Apenas um veículo para a vil prostituta troiana russa, oferecendo seu produto mortífero. Posso imaginar alguém indo à falência de tanto comprar o melhor Beluga. Um dia ele chega a sua casa e sua filha de 15 anos e outros adolescentes estão comendo seu Beluga, acompanhado de milk-shake. 'Venha se juntar à festa, pai.' Ela ergue o vidro vazio. 'Chegou tarde.' Ele seria capaz de matar todos, se não tivesse caído morto pela Falta de Caviar na Hora Certa."
Esta ambivalência manifestava-se, também, na maneira como se relacionava com as pessoas, ora sendo de uma simpatia ímpar, ora de uma arrogância extrema. "Lembro no sonho que eu era jovem, com a vida toda à minha frente, em 1890, cidade pequena, cheia de gente simpática. Gente simpática e ignorante. Eu não estava com pressa nenhuma. Dólares de prata chacoalhando no meu jeans. Na época em que um dólar comprava um banquete. Acompanhado de um vinho francês da melhor safra e, é claro, do melhor caviar Beluga. Ou então você podia pagar uma boa transa. Qualquer tamanho, raça ou cor".
Geração beat
O nome de William Burroughs para sempre estará associado ao da geração beat, a mesma de Jack Kerouac e do assumido Allen Guinsberg. Em comum, a postura contrária ao conservadorismo e à moral vigente nos Estados Unidos. Faça um exercício. Pense em anos 50 e Estados Unidos. O que lhe vem à memória, provavelmente, é a da família aparentemente feliz, rodeada de eletrodomésticos – aquela retratada em séries de TV como A Feiticeira, que celebravam o American way of life. O lado disfuncional desse modelo de vida aparece com toda a força entre os beatniks.
Seu maior interlocutor foi, sem dúvida, Allen Guinsberg. A admiração recíproca é atestada em textos que mostram uma amizade ímpar. "Começamos com a grande e feia mentira americana. Allen Ginsberg, segundo George Will, construiu sua carreira a partir das disfunções da Sociedade Americana. Allen roeu um furo na Mentira; foi dele o Uivo ouvido no mundo todo, da Cidade do México até Pequim, o Uivo da juventude distorcida, sufocada. A influência mundial de Allen foi algo sem precedentes. Ele, com a coragem de sua sinceridade total, encantou e desarmou as selvagens Feras da Fraternidade Estudantil."
A influência da geração beat se fez presente por várias gerações e sua influência está nas canções de Bob Dylan e Jim Morrison e nos filmes de Wim Wenders e Jim Jarmusch. A movimentação dos anos 1960 também é caudatária dos beatniks: a manifestação dos hippies, a experiência com drogas, os discursos fervorosos sobre sexualidade, os manifestos antimilitares.
Na literatura, Kerouac, Burroughs e Ginsberg escreveram com um vigor narrativo intenso, um fluxo de pensamento desordenado, por vezes caótico, e uma linguagem de rua, cheia de gírias e palavrões. Na vida real, esses autores faziam a vida imitar a arte. Burroughs mergulhou fundo nas experiências com narcóticos e disso criou personagens que incluem doentes terminais e traficantes. Teve passagem por clínicas de reabilitação, sem sucesso para combater os vícios. Resta saber se sem eles Burroughs teria produzido uma obra tão visceral.


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