Ulli Lommel
Uma vida dedicada ao cinema
Por Gustavo RanieriColaborou Mariane Zendron
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Há quem diga que o verdadeiro cinema alemão nasceu apenas no pós-guerra, mais especialmente na década de 60, quando ganhou o título de Novo Cinema Alemão e teve na linha de frente nomes como de Rainer Werner Fassbinder.
O que nem todos sabem é que a história de Fassbinder na sétima arte está intimamente ligada a Ulli Lommel, que, por exigência do patrocinador, protagonizou o filme de estreia do diretor alemão, O amor é mais frio do que a morte. A parceria inicial resultou em uma amizade duradoura e mais de 20 projetos juntos durante 10 anos. É de Lommel, inclusive, a direção de Tenderness of the Wolves, o primeiro filme sobre vampiros gays e que traz Fassbinder como ator.
Ator, diretor e produtor, Lommel, hoje com 64 anos, vê sua história ligada a outras grandes personalidades, como Andy Warhol, com quem trabalhou por três anos e atuou em dois filmes, Truman Capote, Orson Welles, entre tantos outros. É exatamente compartilhar estas histórias que ele faz na sua autobiografia Tenderness of the Wolves, que será lançada em novembro próximo, e nesta entrevista concedida durante sua passagem pelo Brasil, onde veio como convidado da mostra Filmes libertam a cabeça, que homenageia R.W. Fassbinder.
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Ulli Lommel e Fassbinder em cena do filme |
Fassbinder nunca foi um oportunista, ele sempre fez o que acreditava. Quando ele recebeu seu primeiro "oscar alemão" ele apareceu em uma festa oficial do governo vestindo uma jaqueta de couro preta, de mãos dadas com seu amante Armin e todos os convidados ficaram chocados, mas depois se juntaram a Fassbinder que estava sentado no chão, rindo com seu amante das pessoas que estavam vestidas como pinguins. Ele confrontou a sociedade em todos os seus termos e venceu. Nunca se corrompeu. Nunca se rendeu ao que é supostamente ser normal. Os dois filmes gays que Fassbinder fez, um dos quais eu dirigi (Tenderness of the Wolves), no outro ele foi protagonista (Faustrecht der Freiheit) e lidou com temas gays de uma maneira muito complexa e provocativa. Nada era tudo preto no branco para Fassbinder.
Como você conheceu Fassbinder?
Nós passamos os primeiros dias e noites assistindo filmes e no cemitério de Munique ouvindo The Season of the Witch, do The Doors. Nós estávamos nos nossos 20 anos nos final dos anos 60 e sabíamos que o mundo precisava mudar, o que aconteceu no resto dos anos 60 e nos anos 70, e nós agitamos o mundo. Quando ele morreu, em 1982, ele sabia dizer "corta", como ele sempre fez.
Quando você o conheceu, você imaginava que Fassbinder se tornaria um dos mais importantes cineastas do mundo?
Eu não acho que Mozart ou Van Gogh ou qualquer outro como Bach e Nietzsche sabiam que se tornariam importantes, e nem nós acreditamos que todos estes filmes e peças que nós fazíamos se transformariam no que eles são.
Fassbinder tinha algum problema com a sexualidade dele?
Não, de jeito nenhum, ele se divertiu e foi passional. Às vezes, triste e louco, mas sempre verdadeiro. Ele não tinha nada para esconder ou fingir.
Fassbinder falava abertamente sobre ser gay? Ele era assumido?
Sim, sem dúvida.
O que você pensa do filme As lágrimas amargas da Petra von Kant, que aborda um relacionamento lésbico?
Ele foi um poderoso tema de medo, poder e exploração, com um cenário lésbico. Foi também uma famosa peça, e o filme foi feito em 10 dias.
Você acredita que cada personagem gay ou lésbica tinha um pouco da intimidade do Fassbinder?
Sim, todas tinham.
Quais são seus filmes favoritos do Fassbinder?
Todos que ele fez entre 1968 e 1974, de Love Is Colder Than Death (O amor é mais frio do que a morte) a Fear Eats the Soul, os anos que Fassbinder era puro Fassbinder, como eu me refiro a esses ano, mais Fox and His Friends.
Você atuou em dois filmes do Andy Warhol. Como era trabalhar com ele?
Ele era o oposto de Fassbinder, sempre misterioso e quieto e uma pessoa extremamente guiada pelo dinheiro, e nunca deixando claro seu lado gay ou mostrando seu namorado. Mas ele era também muito generoso e encorajava seus amigos.
Pode-se dizer que sua carreira como cineasta recebeu grande influência então de Fassbinder e Andy Warhol, não?
Dez anos com Fassbinder, três anos com Warhol, 32 produções no total – isto foi um presente dos céus.
Você também trabalhou com Truman Capote?
Eu passei bastante tempo com ele e escrevi bastante sobre isso no meu livro Tenderness of the Wolves, o qual vou lançar em novembro na Alemanha. Ele e eu uma vez fomos a Tiffany de Manhattan e fomos expulsos pelos seguranças e ninguém, nem o gerente, acreditou que era o Truman.
Aliás, fale mais sobre a sua autobiografia Tenderness of the Wolves.
Meu livro Tenderness of the Wolves compartilha meus encontros com pessoas como Truman Capote, Orson Welles, Jackie Kennedy, Tony Curtis e muitos outros, além dos meus 13 anos com Fassbinder e Warhol. Eu acredito que tanto Fassbinder quanto Warhol teriam amado fazer um ou mais filmes no Rio. Esta é uma cidade fascinante.
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Ulli Lommel em Hollywood, onde mora |




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