Odilon Esteves
O ator por trás da marcante travesti Cíntia de Queridos Amigos
Por Ferdinando Martins*
Fotos: Divulgação/ Diego Pisante e Rede Globo
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Odilon em cena do espetáculo Aqueles Dois e como travesti na minissérie global |
A participação na minissérie Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, na Rede Globo, fez seu nome ficar em destaque nos noticiários. Ao interpretar a polêmica Cíntia, uma linda e educada travesti que freqüenta rodas da classe média intelectualizada, Odilon Esteves chamou a atenção pela delicadeza dos gestos que imprimiu à personagem. Até o momento, Cíntia é considerada por muitos a mais marcante e não-caricatural personagem travesti da história da televisão brasileira e rendeu a Odilon elogios da crítica, do público e até da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
A trajetória de Odilon, no entanto, é bem mais antiga que a celebridade de hoje. No Festival de Teatro de Curitiba, apresentou a peça Aqueles Dois, com a companhia mineira Luna Lunera, na qual trabalha há vários anos. Baseada em conto de Caio Fernando Abreu, a peça mostra o relacionamento de dois homens que trabalham em uma mesma repartição, abordando o desenvolvimento de laços de cumplicidade que geram incômodo nos demais funcionários.
Carinhoso, inteligente e muito bonito, Odilon conversou com o G Online em Curitiba, durante o festival.
Por que vocês escolheram esse conto do Caio Fernando?
As escolhas são afetivas. A gente decidiu fazer porque o conto é lindo. Todos os entendimentos simbólicos vieram depois.
O que apaixonou você no texto?
A amizade, a relação de cumplicidade e o afeto. Para mim, Aqueles Dois é um conto de amizade, mas o texto do Caio tem armadilhas que deixam em aberto a interpretação. Para alguns, é uma relação homoafetiva. Outros acham que um dos personagens é hétero. Todas as combinações são possíveis. O Caio brinca com a possibilidade da relação dos dois se consumar, mas ela não se consuma durante a história. Ninguém sabe o que eles vão fazer depois. Mas há uma microutopia do encontro.
Como foi fazer a Cíntia?
Eu fiquei apaixonado pelo personagem. Eu venho do teatro de grupo e, por isso, o que me importa
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Foto: Divulgação/ Diego Pisante |
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Odilon em cena da peça Aqueles Dois |
No processo de construção da Cíntia, você disse que estudou mais o comportamento feminino que o das travestis. Como foi isso?
Eu assisti a dois documentários e, em um deles, aparecia uma travesti do campo que em tudo se assemelhava a uma bóia-fria. Procurei travestis de Belo Horizonte para conversar, mas elas não me deram bola. Comecei a entender porque as travestis elegem as divas. O desejo delas é um desejo do feminino. Além disso, nos anos 80 as mulheres eram executivas que usavam ombreiras largas. A Cíntia é de um feminino anterior, mais Bonequinha de Luxo, mais Audrey Hepburn, que, aliás, é citada no conto do Caio. Observei o comportamento das minhas alunas de teatro para buscar a referência da delicadeza. A Cíntia faria o jantar para o marido e ficaria esperando ele chegar. A mulher dos anos 80 compraria uma lasanha de microondas.
No último dia do espetáculo em Curitiba, vocês o dedicaram à Melissa. Quem é ela?
Foram duas apresentações no Teatro Paiol. Seguindo o modelo do Caio, que sempre dedicava seus contos a alguém, dedicamos o primeiro dia a Lúcia Cardoso, curadora do festival que pôs fogo para a gente vir, e para Vinícius de Moraes, que batizou o Paiol com whisky na sua inauguração, em 1971. Melissa nós conhecemos da outra vez que estivemos aqui, há dois anos. Ela resolveu estudar teatro no meio de uma de nossas apresentações. Assim é o teatro. É preciso sentir o signo do dia. Pode dar uma desandada, mas é real.
Assim como Cíntia, os personagens de Aqueles Dois questionam os papéis de gênero, não?
Sim. São homens que já absorveram o feminino. E não são só gays. Muitos héteros já fizeram essa transformação e há mulheres que conseguem se relacionar bem com isso.
Vocês ainda esse ano vão se apresentar no Festival Internacional de Teatro, em Belo Horizonte. Minas já apresentou grandes dramaturgos e literatos, como Zé Vicente e Carlos Drummond de Andrade. Para você, como é ser artista em Minas Gerais?
Eu acho que a alegria eufórica não é real. Eu até invejo os baianos, que têm uma alegria epidérmica. Mas eu também consigo viver bem com minha realidade, com minhas montanhas, com minha melancolia. Em Minas, tudo é maior que você e isso repercute internamente, não tem como negar.
* Ferdinando Martins viajou a convite da organização do Festival de Teatro de Curitiba.



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