Tramas dinâmicas, construídas com inteligência. Sexualidade forte e diversificada, para todos os gostos. Histórias independentes que se cruzam. Esses ingredientes fazem de Hiato, lançamento da Editora 7Letras, um livro ímpar.
Primeiro trabalho publicado de Abílio Marcondes de Godoy, Hiato reúne 21 contos, mas que devem ser lidos na ordem em que são apresentados. "A seqüência foi planejada deliberadamente pelo autor", diz uma advertência logo nas primeiras páginas.
A "ordem", por sinal, parece ser uma preocupação para o jovem autor, que fez experimentos interessantes. Em Retrospecto de um crime, conto que abre o livro, a história é contada em sentido cronologicamente inverso, o que provoca uma "ginástica" no leitor que tenta desvendar um assassinato: "Os três deixam o quarto de mãos dadas. Andando de costas, vão até a sala de jantar. O conde toma Bianca nos braços e a deita sobre a mesa de mármore. Beija e lambe todo seu corpo. Pega-a mais uma vez nos braços e a devolve ao chão. As peças de roupa de Bianca, espalhadas por toda a sala, saltam de onde estão para as mãos do conde e para as de Ludmila, enquanto ambos vestem a garota. O que vocês estão fazendo? Ela ri. Primeiro Ludmila e depois o conde beijam com sofreguidão a boca de Bianca."
Aqui e ali, sente-se no livro a inspiração de Rubem Fonseca, autor que Abílio pesquisa em seu mestrado em Teoria Literária na USP. No entanto, o leitor não vai encontrar em Hiato cópias do estilo que marcou o escritor carioca. Muito pelo contrário, já nesse primeiro trabalho é possível ver traços que singularizam a escrita de Abílio. São textos tensos, quentes e explosivos, mas que em algum ponto tornam-se morosos e lascivos. Prova de que a literatura de qualidade pode ser altamente excitante.
Hiato. Abílio Marcondes de Godoy. Editora 7 Letras. 228 páginas.