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Klecius Borges
Sexo, mentiras e relacionamentos
Por Klecius Borges18.11.04
Digital Vision
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Há alguns anos, um amigo, ex-namorado de um outro amigo bem mais antigo, me convidou para jantar e conversar sobre as questões do rompimento recente entre eles e, lá pelas tantas, quis transar comigo. Embora eu tenha ficado muito lisonjeado e mesmo interessado, pois ele era um gato, recusei a proposta.
As razões para a minha recusa foram tanto de ordem moral (como o meu amigo se sentiria se viesse a saber?), como de ordem prática: eles poderiam voltar e aí eu provavelmente perderia a amizade de ambos. E foi o que aconteceu, dois meses depois, estavam namorando novamente. Eu “esqueci” o episódio e somos amigos até hoje.
Na semana passada, um cliente trouxe para a terapia um dilema parecido, porém, invertido. Ficou sabendo que um amigo, bem próximo, está saindo com um seu ex-namorado, com quem teve uma relação muito significativa. Ao falar sobre a situação, ele pôde identificar nele mesmo uma mistura de sentimentos muito intensos: raiva pela “traição” do amigo, desapontamento por ele não tê-lo consultado a priori, insegurança por imaginar sua intimidade revelada pelo ex e frustração com o meio gay (“não dá pra confiar em ninguém”).
Ainda que essas experiências sejam sempre subjetivas, pois dependem basicamente da história de vida de cada um, e de certa forma universais, por serem inerentes a quaisquer relacionamentos (gay ou hetero), elas adquirem tons próprios na nossa comunidade. E isso se deve a alguns fatores: a) somos uma minoria, e dentro dessa minoria, nos subdividimos em grupos relativamente homogêneos, de acordo com o nível socioeconômico, os estilos de vida e os locais de socialização, entre outros; b) tendemos, na média, a ser mais sexualizados e a considerar o sexo recreacional e casual parte importante da nossa rotina de socialização; c) temos ainda uma pequena “cultura” de relacionamentos estáveis e, como conseqüência, a ausência de um “código” de ética compartilhado; d) somos mais “livres” para trocar de parceiros, já que não temos as amarras sociais e familiares que a maioria dos heterossexuais possui.
Se aceitarmos como plausíveis as estatísticas americanas de que 70% dos casais gays não mantêm relacionamentos monogâmicos, e considerarmos o traço cultural brasileiro que nos permite conviver sem grandes conflitos com as “mentiras sociais” (escapadas eventuais incluídas), podemos compreender melhor esse quadro complexo de possíveis cruzamentos.
Uma evidência clínica dessa característica da nossa comunidade é que o receio mais comum expresso por meus clientes quando vão se juntar a um dos meus grupos de terapia é: “E se eu encontrar alguém com quem já transei?”
A maneira como reagi ao convite do meu amigo e o turbilhão emocional do meu cliente diante do que para ele foi uma traição, refletem valores pessoais (o que é certo e o que é errado) e muito provavelmente baseiam-se em experiências passadas com situações semelhantes (positivas ou negativas). E são, portanto, singulares.
Como não há um jeito único de se viver, nem uma fôrma para moldar desejos (desejáveis) e forjar comportamentos (adequados), é bom que estejamos preparados para lidar com as conseqüências, nem sempre previsíveis, das escolhas que fazemos envolvendo sexo, mentiras, e relacionamentos.
Klecius Borges é psicólogo (CRP 06/6283) e atua em terapia afirmativa
terapiafirmativa@uol.com.br


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