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Klecius Borges
A dor da separação
Por Klecius Borges18.10.04
| Foto:Divulgação |
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| Sucesso entre gays de todo mundo, no seriado Sex and the City, as quatro protagonistas vivem os conflitos envolvidos na busca (e na manutenção) do par perfeito |
Entre as diversas razões que levam pessoas a buscar ajuda psicológica profissional, a separação amorosa não consensual é uma das mais freqüentes.
Via de regra, é o “abandonado” que me procura, com a expectativa de diminuir a dor insuportável da perda, mas também com a esperança de descobrir alguma forma de recuperar o parceiro.
Embora essa situação seja a mesma para casais héteros e homossexuais, percebo em muitos gays alguns padrões de comportamento mais parecidos com os identificados nas mulheres heterossexuais.
Esses padrões, acredito, se desenvolvem muito cedo, ainda na infância, a partir do jogo complexo de identificações e projeções com as figuras masculina e feminina.
O que percebo em muitos clientes é que, assim como para muitas mulheres, o relacionamento amoroso é o eixo mais importante de suas vidas. Eles passam boa parte de sua existência tentando encontrar o “príncipe encantado” e acreditando que ele, e somente ele, poderá preencher todas as suas necessidades emocionais e carências afetivas. Não é à toa que o seriado americano Sex and the City (exibido aqui, no canal 21, na TV aberta e nos canais Multishow e Fox, na TV por assinatura) faz tanto sucesso entre os gays em todos os países em que é exibido. Nele, quatro mulheres, na casa dos trinta anos, bonitas, bem-sucedidas profissionalmente, e principalmente sexualmente livres, vivem os conflitos envolvidos na busca (e na manutenção) do par perfeito.
A razão pela qual nos sentimos atraídos por alguém e a maneira como nos relacionamos amorosamente são bastante influenciadas pelos modelos familiares e pelas experiências que vivemos ao longo da vida, sobretudo as do período formativo. A partir dos modelos familiares e das normas e dos padrões sociais aos quais somos submetidos, desenvolvemos certas crenças pessoais que irão mais tarde determinar como iremos nos relacionar com o ser amado.
E ainda hoje, a despeito de todas as mudanças culturais e sociais, as mulheres continuam, de certa forma, a serem vistas como “guardiãs” dos relacionamentos, tendo seu valor social fortemente associado ao sucesso no amor (diferentemente dos homens heterossexuais, cujo maior valor está no sucesso profissional).
Muitos dos gays que me procuram por causa de uma separação amorosa, trazem, quase sempre de forma inconsciente, alguma crença muito negativa sobre si mesmo e sobre o valor que têm para o outro. Essas crenças são geralmente as de que jamais encontrarão outro parceiro (portanto, não terão suas necessidades afetivas preenchidas) e de que fizeram alguma coisa errada (portanto, precisam consertá-la para poder recuperar o parceiro). A dor da separação para essas pessoas não está somente na perda do ser amado (e no sentimento de rejeição), mas também na antecipação da provável solidão eterna (e na fantasia de abandono). Além disso, como resultado de alguma identificação secundária feminina, há a percepção de que fracassaram na área mais importante de suas vidas.
Separações amorosas são difíceis para todos. Envolvem muito sofrimento, mas também podem ser uma oportunidade de crescimento. Requerem um exame cuidadoso de nossas verdadeiras necessidades e pressupõem uma avaliação honesta de nossos recursos emocionais e psicológicos. Saber enxergá-las numa perspectiva natural da experiência amorosa (não necessariamente como fracasso) e aprender a superá-las sem perder a autoconfiança, não é tarefa fácil, mas essencial para uma vida plena de realizações.
Klecius Borges é psicólogo (CRP 06/6283) e atua em terapia afirmativa
terapiafirmativa@uol.com.br



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