outras colunas
Filosofando
Demografia e diversidade sexual
Por Ferdinando Martins10.05.08
Foto: Gustavo Ranieri/ G Online
|
Cena da 11ª Parada do Orgulho de São Paulo GLBT, que reuniu mais de 3 milhões Convencionou-se dizer que GLBT são 10% da população. Mas só com a inclusão nos censos ou pesquisas amostrais poderíamos ter retrato mais real |
A demografia é uma das áreas mais importantes para se compreender o universo GLBT. Sem ela, não sabemos qual é o perfil real da população gay, lésbica, bissexual, travesti, transexual ou transgênero. Com ela, poderíamos conhecer o quanto representamos em termos populacionais, etários e saberíamos dizer em quais regiões há maior ou menor concentração de cada segmento.
No entanto, a demografia é igualmente desconhecida e até mesmo menosprezada por certos setores da militância e – pior – praticamente ausente na formulação de políticas públicas para GLBT. Isso tanto é verdade que, no texto-base da I Conferência Nacional GLBT, não se inclui a formulação de ações específicas para essa área, que sequer aparece como item próprio de discussão.
Essa cegueira em relação à centralidade da demografia para a compreensão da diversidade sexual tem uma de suas origens no medo de certo grupos de, ao se realizarem censos ou pesquisas populacionais, a quantidade de homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros seria registrada aquém dos esperados 10% supostamente previstos no Relatório Kinsey. Isso porque, como é de se esperar, a subnotificação tenderia a ser grande, já que há uma parcela significativa que prefere se manter no anonimato.
Mas será que esse comportamento de avestruz, de tentar fugir de possíveis números decepcionantes, é válido?
Ainda que poucos
Para a formulação de políticas públicas, a quantidade de pessoas em determinado grupo (sexual, racial, cultural, étnico ou outro) não é garantia de oferta de serviços ou de defesa de direitos. Se assim fosse, o movimento negro ou o feminista não precisariam de séculos de luta para que suas especificidades fossem reconhecidas pelos gestores públicos. Mais ainda, a pouca expressividade numérica sequer é motivo para o descaso. Indígenas no Brasil formam, no total, um número menor de pessoas que os GLBT, mas têm seus direitos garantidos em leis.
Sobre os GLBT, o que há de informação demográfica é "quase nada", segundo a socióloga Rosana Rosa. Em pesquisa feita por ela sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo nos levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, é, justamente, a falta de informações demográficas sobre o segmento. "Como é possível estabelecer políticas públicas quando não se leva em consideração a diferença que há entre as pessoas? É bom lembrar que essa parcela da população participa das atividades de mercado e está inserida nos mais diversos setores de trabalho, compartilhando das vivências sociais. Entretanto, é essa população que vê seus direitos partidos, e ainda, com legitimação oficial" (Rosana Rosa, Quase nada: questões de gênero no censo brasileiro).
Mais ainda é somente com a inclusão dos GLBT nos censos ou nas pesquisas amostrais que se pode ter um retrato mais próximo do real da população brasileira. Segundo Rosana, “pode-se constatar, pelos critérios para realização de pesquisa censitária, que a população recenseada são os residentes em território nacional. Logo, todos constituem-se declarantes e contribuintes das implementações a serem realizadas por ações políticas que têm nesse órgão (o IBGE) uma referência oficial”.
Tomemos, por exemplo, as variáveis "grau de parentesco" e "nupcialidade" do censo demográfico. Essas são categorias que demonstram a composição da estrutura familiar no país. Assim, o que se pode dizer de uma pesquisa que não inclui uniões entre pessoas do mesmo sexo? Ou, ao contrário, como pergunta Rosana, "quais as implicações em ter orgulho gay para o IBGE? Percebe-se que a visibilidade social dessa parcela da população simplesmente desaparece, na medida em que os dados apresentados estatisticamente distanciam de nossos olhos a diferença".
Além disso, seguindo propostas do teórico da cultura Stuart Hall, no livro A identidade cultural na pós-modernidade, é preciso, em nossa contemporaneidade, compreender os fluxos populacionais a fim de se entender os fenômenos identitários. Se G, L, B, ou Ts são identidades, como elas se distribuem e se comportam geograficamente? Vivemos uma época de identidades fragmentadas e deslocadas, geradas pelo fenômeno da migração, da facilidade de comunicação e de transporte. Ou seja, as pessoas mudam-se hoje para onde as chances de sobrevivência são maiores. Percebemos, por exemplo, que há mais gays nas metrópoles, mas quantos são eles? E que há mais travestis nos centros das grandes cidades que nos bairros nobres, mas quem são elas? De onde vem? Para pensar políticas públicas eficientes e eficazes, esses dados seriam de fundamental importância.
O mito dos 10%
Convencionou-se dizer que GLBT são 10% da população. Há quem conteste de forma grosseira essa porcentagem, como os pesquisadores Judith Reishman e Edward W. Eichel, que no livro Kinsey, Sexo e Fraude dizem que o médico conduziu a pesquisa de forma enviesada, recrutando seus entrevistas em ambientes "propícios às práticas homoeróticas", como cadeias e colégios internos. Críticas como essa são descabidas pelo grau de sensacionalismo que carregam.
No entanto, há outras pesquisas sérias que indicam que a população GLBT pode ser menor que os 10%. É o caso do estudo A vida sexual dos brasileiros, conduzido pela médica psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, em pesquisa encomendada pela indústria farmacêutica Pfizer. "O levantamento Pfizer aponta que a homossexualidade é uma característica de 4% dos homens e de 2% das mulheres. Essas porcentagens são bem menores do que as alardeadas pelos ativistas gays, para os quais 10% da população compõe-se de homossexuais", afirma o relatório final do trabalho de Carmita.
É claro que há questões culturais envolvidas que fazem com que a subnotificação ocorra. No entanto, os números de Carmita não parecem tão irreais quando comparados com os 6,5% que o mercado norte-americano utiliza para estimar a população homossexual ou com os 5% utilizados pela The Urban Institute, dos Estados Unidos, constatados na pesquisa Estimativas de gays e lésbicas nas Forças Armadas dos Estados Unidos no Censo 2000.
|
Foto: Pedro Stephan/ G Online |
![]() |
|
Parada do Orgulho do Rio de Janeiro de 2007: mais de 1 milhão em Copacabana |
| As estimativas sobre a população homossexual diferem segundo as raras pesquisas e de acordo com as finalidades: o mercado norte-americano, por exemplo, estima em 6,5% o percentual de GLBT no país |
No Brasil, o IBGE calcula que há 17 mil casais do mesmo sexo vivendo sob o mesmo teto, correspondendo a 0,02% do total de homens e 0,01% do total de mulheres pesquisados em 5.435 municípios. Como nesse cálculo ficaram de fora os 129 municípios mais populosos, é de se pensar que o total seja maior, mas, conforme já dito acima, para isso seria preciso investigar os fluxos migratórios de GLBT no país.
Problema global
A falta de dados sobre a população GLBT é universal. Tanto que a ONG Gay Demographics, dos Estados Unidos, conseguiu coletar pouquíssimas informações, disponíveis em seu site (www.gaydemographics.org). A subnotificação é comum, seja por medo, seja por falta de identidade como G, L, B ou Ts.
No entanto, é preciso que sejam investidas verbas, públicas ou privadas, para o conhecimento demográfico da população que não se enquadra nos padrões heterocentrados. Apesar de serem quase nada, Rosana Rosa afirma regozijar-se pelo "quase". Quem sabe, na segunda conferência nacional GLBT já não haja, pelo menos, a inclusão da questão demográfica no texto-base.



Assine já a revista 