Filosofando
Nas fronteiras da Tolerância
Por M. Yáskara Guelpa24.01.07
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Mesmo sabendo que o princípio da tolerância se firmou plenamente no século XVIII com o iluminismo e o racionalismo (é bastante conhecido o Traité sur la Tolerance, de Voltaire) ainda assim essa palavra soa de maneira intolerante. Ou não?
Na realidade, essa palavra nada mais é do que a abstenção de hostilidades para quem professa idéias julgadas censuráveis. Mas quem censura? Por que censura? Só nos resta saber se a abstenção em referência se propõe, também, a abstenção da falta de respeito. Afinal, não basta que a tolerância aceite apenas, pura e simplesmente, idéias políticas, morais e religiosas contrárias às pressupostamente aceitáveis, como se fossem um mal necessário e ocorressem quando não é possível reprimir o dissenso.
Quando fiquei sabendo que o dia 16 de Novembro é o Dia Internacional da Tolerância confesso que senti uma angústia mesclada com inconfessável intolerância.
Durante muitos anos acreditei que a tolerância fosse uma das tantas virtudes necessárias para garantir a civilidade dos seres humanos. Cheguei mesmo a achar o Marquês de Sade uma das mais irritantes criaturas por postular que a tolerância é a virtude dos fracos. Contudo, tolerância se ensina desde cedo e sempre fez parte do processo de desenvolvimento ético de indivíduos e grupos.
Hum! Quando soube que haveria em São Paulo um evento de grande porte destinado a comemorar o Dia Internacional da Tolerância, com direito a ouvir uma excelente orquestra de cordas, ato inter-religioso, vídeo sobre a identidade GLBT, Hino Nacional, etc., fiquei pensando: Será que estou equivocada?
A palavra tolerância, que vem do latim tolerare (sustentar, suportar) define o grau de aceitação em relação ao que nomeamos como sendo contrário a uma regra moral, civil ou física. Em suma, o que define a capacidade de uma pessoa ou grupo social de aceitar o que não está de acordo é exatamente a tolerância.
Segundo Mirabeau, jornalista, escritor, político e grande orador parlamentar francês, ativista e teórico da Revolução Francesa, a palavra tolerância parece, de certo modo, tirânica, uma vez que a autoridade que tolera pode, também, não tolerar. Assim, ponho-me a pensar que melhor seria que o Dia Internacional da Tolerância fosse, na realidade, Dia Internacional de Combate à Intolerância.
Para quem não sabe, há uma Declaração de Princípios da Tolerância. Plena, completa e absolutamente tolerante, proclamada e assinada em 16 de novembro de 1995. Não seria mais interessante que se fizesse uma Declaração dos Princípios de Combate à Intolerância?
Trata-se de um tema demasiadamente amplo e que envolve questões há muito debatidas pela sociedade em geral. Sua antítese, segundo Sérgio Paulo Rouanet é "uma atitude de ódio sistemático e de agressividade irracional com relação a indivíduos e grupos específicos, à sua maneira de ser, a seu estilo de vida e às suas crenças e convicções". Trata-se de uma forma de pensar e agir que "se atualiza em manifestações múltiplas, de caráter religioso, nacional, racial, étnico e outros”, diz ele. Portanto, a história das sociedades humanas, até o presente, é uma história de permanente intolerância.
Assim, não basta que tenhamos o Dia da Tolerância. Não basta pensarmos que esse dia e a sua conseqüente declaração de princípios podem nortear os comportamentos daqueles que, intolerantes, chegam a cometer crimes muitas vezes hediondos.
A realidade é que nunca conseguimos visualizar os atos tolerantes. A visibilidade é total e plena quando os comportamentos humanos são intolerantes. Portanto, é a intolerância que está enraizada em nosso ser, introjetada em nossa mente e que, na maioria das vezes, ultrapassa os limites da irracionalidade. Mesmo tendo um fundamento irracional e, ao mesmo tempo, racional, pois os seres humanos, em nome da segurança, costumam racionalmente aceitar a intolerância do Estado contra outros povos e culturas, o grande problema, ainda, é como ela se manifesta tanto nas grandes questões que envolvem disputas políticas e territoriais, como também em nossos costumes e na forma como encaramos o “diferente”.
Eis a grande e problemática questão. Aí é que nós, GLBTT, encontramos a verdadeira incapacidade humana de exercer o respeito à diversidade ou camuflar os seus preconceitos. É nesse patamar que caminha a intolerância e, por isso, volto a afirmar, para combatê-la, não basta instituirmos o Dia da Tolerância. Apesar de estarmos no século XXI algumas pessoas ainda postulam o tomismo. Tomás de Aquino dizia, na sua época, que a tolerância é o mesmo que a paciência e que esta é justamente o bom humor ou o amor que nos faz suportar as coisas ruins ou desagradáveis. Terrível, não?
Intolerância dentro do movimento GLBTT
Embora, muitas vezes, as pessoas não atuem de modo errado por má fé, e sim por ignorância, há um reverso dessa moeda inaceitável. É quando dentro do próprio movimento GLBTT, justamente entre militantes, ocorrem fatos preconceituosos e de características absurdamente discriminatórias e, pior, desrespeitosas.
Etimologicamente, a palavra respeitar dá o sentido de "olhar a", "olhar para". Olhar a pessoa como um ser único e singular, sem julgamentos ou críticas, olhar e ver o que ela é, sem negações ou distorções. Humm!! Mas, e quando ocorre exatamente o contrário? O motivo não é a intolerância? Se a resposta for sim, mais uma vez fica patente que o Dia da Tolerância deveria ser o Dia de Combate à Intolerância. Temos que combater o que está praticamente instituído e não reverenciar o que está por vir, o que pretendemos que venha a ser um fato usual e aceitos por todos.
Intolerância dentro do movimento GLBTT tem sido, infelizmente, uma constante, especialmente em encontros ou debates que discutem até mesmo o “triunfo da tolerância”. Triunfo? Qual triunfo?
No ano passado, por ocasião do Seminário Nacional de Lésbicas, Bárbara Graner, mulher transexual, feminista, educadora, integrante do Coletivo Nacional de Transexuais e Titular do Comitê Técnico em Saúde GLBT do Ministério da Saúde, foi convidada para participar do evento, fazer uma palestra sobre transexualidade e representar as mulheres e homens transexuais de todas as orientações sexuais.
O que aconteceu? Simplesmente, apesar de haver sido convidada para participar do evento que a subvencionou na totalidade, não só foi discriminada como desrespeitada.
Impedida de participar do SENALE, Bárbara Graner, junto com sua amiga Andréa Stafanie, que também passou pelo mesmo constrangimento, deixou
o evento sem muitos questionamentos. Acho mesmo que saiu de lá achando graça daquele comportamento estranho de algumas militantes (digo algumas... não foram todas, fique bem claro) que só faltaram lhe pedir um atestado de “mulher pura” [risos].
(Em tempo, como bem disse o Luís Mott, será que somos obrigados a engolir este divisionismo separatista, “apartadista” e fundamentalista?)
Foi, o que podemos dizer, uma grave violação dos Direitos Humanos, uma atitude transfóbica e misógina ao mesmo tempo. Teria havido um vislumbre, por parte de algumas participantes, de um Machismo Vaginal, como costuma dizer a militante lésbica feminista e transexual mexicana Hazel Davenport?
Houve quem dissesse, na época, que a atitude das lésbicas do SENALE, ainda bem que não todas, pois algumas ficaram estupefatas com o acontecimento, era a de puro femismo, ou seja, um comportamento que reproduz o preconceito chauvinista às avessas. Seria até engraçado, não fosse tão tosco.
Contudo, alguns males podem, sim, se transformar em flores. É isso que dá sabor à vida. Ainda bem! A União de Mulheres, em São Paulo, capitaneada por Amelinha Telles, promoveu um debate: Transexuais, Transgêneros e o Movimento Feminista. Presentes ao evento, Alessandra Saraiva, Aline de Freitas e Bárbara Graner deram um verdadeiro show ao explanarem suas idéias e expectativas futuras. Foi o máximo. Bárbara Graner leu um texto de sua autoria, divulgado, até hoje, em inúmeros eventos. Reproduzo-o, na íntegra, na próxima página.
No Rio de Janeiro, o Grupo Movimento D´Ellas, sob a batuta firme de Yone Lindgren, Vera Couto e Daniela Nowak, em seu evento “Fortalecendo, Articulando e Informando Mulheres Lésbicas, entre os vários temas abordados, deram ênfase especial à Transexualidade. Para tanto, convidaram Maitê Schnaider e Xande Santos para falarem sobre Violência e Solidão Transexual. Em suma, que venha o Dia de Combate à Intolerância. Optcha!

Quem é Ela? Mulher Transexual
Por Bárbara Graner
Quem é ela, a quem muitos consideram “ele”? Será que isso a ofende, ou não? Muitos acham que é apenas um “apêndice bizarro das patologias”... Muitos acham que é um “desequilíbrio” de nossa perfeita psique, e muitos acham que ela “não percebe quem realmente é”, acorrentada ao conceito dogmático de que “ser quem somos” depende unilateralmente da genitália que possuímos e de duas “letras” que compõem nosso cromossomo. Quem é ela, que sem ser realmente conhecida, é julgada “culpado” e “condenado” a “subviver” nos quatro cantos escuros do nosso perfeito mundo, pagando o injusto preço que lhe é cobrado como “conseqüência natural de sua opção”? Que “opção” tem ela (que “é ele”), além de ser quem é? Que “opção” tem um ser humano, além de ser quem é?
Antes de lhe perguntar o seu nome (aquele com o qual ela realmente se identifique, goste e, acima de tudo, não se sinta constrangida), muitos já a definem como “aquele” que é “doente”, veio de “família sem valores” e só sabe fazer coisas equivocadas, além de ofender a “moral e os bons costumes”. Quem é ela (que “é ele”) se nem sabemos e nem queremos saber quem é?
Ela (por “ser ele”) não sonha? Não tem talentos? Não tem potencialidades? Só sabe ser “desequilibrado”, “coitadinho”, “deprimido”, “iludido”? Ela (por “ser ele”) não sabe, ou jamais terá a capacidade de saber viver e conviver com os demais? Ela (por “ser ele”) não é humana o bastante para ir além do que lhe é imposto? Ela (por “ser ele”) não pode libertar-se dos limites do estereótipo do homem para ir além do estereótipo da mulher? Ela (por “ser ele”) não pode ser mulher em identidade, por lhe ser intrínseco, e não ser homem em formato, por lhe ser obrigação? Se ela se sente ela, porque tem que “ser ele”? Ela é “ele”?
Se não compreendemos porque ela (que “é ele”) é ela, não poderíamos simplesmente lhe dar o direito à voz para argumentar porque ela (que “é ele”) se sente ela? É tão difícil assim exercer a arte de ouvir? Ouvir de verdade? Pelo menos tentar compreender, de verdade, a verdade dela? Ah, sim... A verdade não “pertence a todos”! Nem é “direito de todos”. Talvez não seja mesmo direito dela (que “é ele”) ser ela; já que muitos, mesmo sem conseguir explicar direito o porquê, se sentem tão aviltados, chocados, perturbados, confusos, ofendidos e condescendentes com o simples fato dela (que “é ele”) existir e ser ela. Mas, se muitos não conseguem explicar direito o porquê de se sentirem tão incomodados com ela (que “é ele”) ser ela, por que então, de fato, ela (que “é ele”) incomoda tanto? Ser ela, mesmo “sendo ele”, afeta tanto assim a vida de tantos? Afeta mesmo?
Se ela “aceitasse ser ele”, o nosso país seria melhor? Se ela “aceitasse ser ele”, as crianças desamparadas teriam comida, roupa e futuro? Se ela “aceitasse ser ele”, os muitos políticos corruptos deixariam de ser corruptos? Se ela “aceitasse ser ele”, o nosso frágil planeta estaria a salvo dos interesses destrutivos de muitas corporações, para as quais a única coisa de valor são os números sob a forma de posse? Se ela “aceitasse ser ele” não haveria mais carência de água potável para os povos sedentos que nem conhecemos? Se ela “aceitasse ser ele” o mundo não teria mais problemas? Se ela “aceitasse ser ele” o mundo seria melhor”?
Se ela “aceitasse ser ele” você não teria mais problemas? Se ela “aceitasse ser ele”, a vida de você seria melhor? Se ela “aceitasse ser ele” você seria melhor? Ou você não é dos muitos que se incomodam, sem saber o porquê, com o fato dela (Tá bom, tá bom... Desculpem-me os donos da verdade: “ELE”) ser ELA?
Ah, se você realmente não é destes muitos, então esqueça este texto... Desculpe-me pelo tempo que tomei de você. Afinal, este texto não é tão importante assim. Na verdade, que importância esse texto tem, afinal? Você poderia me responder? Por favor?


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