Jean Wyllys Mattos
O Homem por trás do Mito
Por Redação
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Exatamente uma semana após deixar o Big Brother Brasil como o grande vencedor da quinta edição do reality global, o assumido Jean esteve na redação da G em São Paulo e concedeu uma entrevista exclusiva durante um almoço animado onde falou de tudo um pouco: infância, preconceito, amores, militância e, claro, sobre a experiência no BBB
JEAN WYLLYS MATTOS nasceu em Alagoinhas, cidade baiana distante 107 Km de Salvador e que tem uma população de aproximadamente 130 mil habitantes. Filho de uma família de poucos recursos, Jean teve de começar a trabalhar muito cedo, aos 10 anos, vendendo algodão-doce, para ajudar na renda da casa, que vinha, sobretudo, do trabalho da mãe como lavadeira. O pai, mecânico, era alcoólatra e não parava em emprego. Com tanta dificuldade, em nenhum momento Jean se deixou levar pelo desânimo e lutou para ter uma vida melhor. Por isso, sempre aplicado nos estudos, conseguiu aos 15 anos de idade uma difícil vaga para estudar na Fundação José Carvalho, um colégio filantrópico para bons alunos de escolas públicas. Foi nesse colégio que Jean, pela primeira vez, teve consciência plena que sentia atração por garotos. Os relacionamentos, entretanto, só começaram mesmo alguns anos depois, quando ele saiu do internato. Jean estava então com 18 anos e tinha ido para Salvador, onde vive atualmente com a irmã Joseane. Professor de comunicação da Fundação Jorge Amado, publicou em 2001 o livro de contos Aflitos, que lhe rendeu o Prêmio Copene de Literatura. A vida do professor seguiu normalmente até que se inscreveu no final de 2004 no BBB por achar que seria uma ótima chance de decolar na carreira de escritor. O que ele não esperava é que seria chamado para participar do reality. E muito menos que, após enfrentar cinco paredões, ganhar o apoio de uma grande parcela da população e em especial da comunidade homossexual (que o apoiou incondicionalmente) acabaria levando para casa não apenas o prêmio de R$1 milhão, como a admiração da maioria dos homossexuais brasileiros, que viram nele um ícone.
Quando você sentiu-se atraído pela primeira vez por outro homem?
Eu me apaixonei pela primeira vez platonicamente na adolescência por um amigo. Um amor puro, platônico mesmo. Depois nos separamos, eu sai de Alagoinhas e fiquei um longo tempo sem vê-lo. Nos reencontramos em Salvador e eu apresentei a ele uma amiga, que tinha sido minha colega de internato. O engraçado é que essa amiga morou um tempo em São Paulo e, enquanto esteve fora, eu falava muito sobre ele em cartas para ela, sobre o amor que eu tive na adolescência. Quando ela voltou, eu apresentei os dois e eles se apaixonaram e se casaram. Nós continuamos amigos até hoje e sou, inclusive, padrinho do filho deles.
E sua família sabia desse seu desejo, de você?
E é obvio que minha família sabia, pelo menos era informada, avisada e lembrada permanentemente, pelas chacotas que eu ouvia quando criança, as brincadeirinhas, as piadinhas. Se bem que - eu já repeti essa frase várias vezes – mãe e família são sempre os primeiros a saber e os últimos a acreditar. Todo mundo na casa notava que eu era diferente, não gostava muito de bater “baba”. Pelada lá nós chamamos de baba. Eu preferia ficar desenhando, vendo televisão... eu adorava ler. Eu tinha mais identificação com esse universo mais sensível. Então todo mundo na minha casa notava que eu era diferente, que tinha um jeito diferente, ou seja, eu tinha mais identificação com o feminino do que a média dos meninos.
E como sua família reagia?
Acho que a família tem uma maneira estranha de reagir, de proteger, ela protege negando, sistematicamente. Como ela está inserida numa cultura judaico-cristã de proibições machistas que se estruturou há séculos, a família acha vergonhoso ter um filho que fuja do modelo, do papel de gênero. Então ela protege negando e cobrando que você seja diferente, que pense de maneira diferente, se comporte de maneira diferente.
Essa “pressão” influenciou em sua auto-estima, autoconhecimento?
Uma identidade só se estrutura numa relação, você só sabe quem você é a partir do outro. Então, nessa relação com a
família e com os outros é que eu fui compreendendo a minha diferença. E fui compreendendo, desde cedo, intuitivamente, que para sobreviver eu tinha que negociar de alguma forma com essa maioria, com essa hegemonia. E a maneira de negociar e de fazer com que eles admitissem essa minha diferença era abrindo mão de algumas coisas e cedendo em outras. A minha moeda de troca sempre foi a minha inteligência e a minha memória, minha capacidade de aprendizado, meu desejo de aprender coisas.
Você fazia esse “escambo” já na infância, com outras crianças?
Na escola, quando eu estava no ensino primário, por exemplo, eu era alvo constante de brincadeiras porque eu era diferente. Ficava muito mais do lado das meninas, não ia para o campinho de futebol jogar. Era extremamente estudioso e assíduo nas aulas e, por conta disso, eu recebia chacotas, piadinhas dos meninos. Aí fazíamos as provas e quando as minhas notas eram divulgadas, e eu tirava dez, dez e dez, pronto, tudo mudava. Porque ali eu tinha uma moeda de troca, eles queriam cola. A partir dali eu virava o queridinho, eles sabiam que eu era diferente, mas aí virava uma proteção. E eu carreguei essa negociação para os outros aspectos da minha vida, no meu emprego, em todos os meus trabalhos, foi isso que eu fiz a minha vida inteira. Eu acho que a vida é esse conflito que não cessa, todas as minorias em relação às hegemonias têm que negociar, a mulher, o negro, o índio, o subalterno só tem alguma voz se ele negocia, senão ele é esmagado, silenciado completamente.
Você começou a trabalhar muito cedo, não?
Desde os 10 anos de idade que eu trabalho com meu pai, que era alcoólatra, não ficava em emprego nenhum, e a gente, que já era pobre e caiu para baixo da linha de pobreza, passava muita fome. Comecei a trabalhar muito cedo para ajudar em casa.
Em que momento você realmente compreendeu gostar de meninos?
Foi no período que estava na fundação José Carvalho, que era um colégio filantrópico, para bons alunos de escolas públicas.Eu tinha 15 anos de idade e percebi que tinha interesse por garotos. Esse foi o momento que eu reconheci para mim mesmo que eu tinha o interesse, mas não excluí também o meu interesse por meninas. E quando eu tinha interesse por meninas não havia nenhuma intenção de mascarar a minha orientação sexual. Todos os meus amigos de internato sabiam, eu levantava a bandeira lá dentro, eu dizia abertamente, defendia a minha condição, o meu desejo lá dentro.
| Fotos: Klifit Pugini e Sérgio Miguez |
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| A diretora da Fractal Edições Ana Fadigas com Jean durante almoço em São Paulo |
Você chegou inclusive a ter relações sexuais com mulheres também, não?
Tive. Namorei, transei com mulheres, com vontade e prazer, mas é uma outra dimensão do prazer. Não há palavras que possam materializar essa diferença.
E os amores de verdade?
Meu primeiro namorado, a primeira pessoa que eu namorei mesmo, foi quando eu tinha 18 anos, que eu saí do internato e fui para Salvador. Depois eu tive um grande amor, quando eu tinha 24 anos, uma pessoa que eu amo até hoje. Ele é artista, fotógrafo, e eu fui conhecer o trabalho dele e quando a porta se abriu, foi um encantamento. E nessa mesma noite nos encontramos numa boate, namoramos e começou uma história linda, porque havia uma troca, ele tem uma sensibilidade imensa. Ele é quatro anos mais velho que eu, mas nós tínhamos amigos em comum, nós fizemos uma rede de amigos, uma vida, era muito linda a nossa relação e até hoje as pessoas falam que lamentam muito nossa separação.
Se separaram por que a relação se desgastou?
Eu fiz minha primeira viagem para o Rio de Janeiro, de férias, e quando eu voltei percebi que alguma coisa estava diferente, que alguma coisa havia mudado. Era como se um beijo perdesse o sabor e não da minha parte. Eu senti uma chama de frio, que não aquecia, então eu falei para ele que, antes que o amor caísse doente, ficássemos amigos. Sofri muito, chorei copiosamente porque ele não sentia mais essa coisa, mas eu respeitei porque ele queria outros mundos, ele queria navegar outros mares, respirar outros ares. Eu sofro de amor mas não sou egoísta. Hoje temos uma grande amizade. Depois dele, fiquei um tempo sozinho, com pequenos namoros, ficadas aqui e ali, e depois tive um outro namorado, mais velho que eu, tinha uns 40 anos. Eu o conheci no dia do lançamento do meu livro. Ficamos algum tempo juntos, foi bacana também, mas acabei terminando porque perdi o interesse.De lá para cá, não tive mais namorados e não sinto uma grande vontade de ter, porque estou sempre rodeado de amigos e com esses amigos eu tenho uma relação afetiva, quase namoro.
E essa história de seu suposto interesse pelo Alan?
O que houve entre eu e Alan foi uma sincera amizade, mesmo. E quando eu falo em sincera amizade, gosto de citar o conto da Clarice Lispector, cujo título é “Uma sincera amizade”. É um conto muito bonito que trata da amizade de dois rapazes, uma amizade que é tão sincera e tão concreta que tem uma hora que ela não precisa nem de palavras, não precisa nem ser verbalizada. Nessa medida eu posso dizer que eu amo o Alan fraternalmente, daquela maneira que Caetano diz que “a poesia está para prosa assim como o amor está para a amizade, e quem há de negar que essa amizade lhe é superior”. Em nenhum momento me interessei sexualmente por ele. Fui, mais ou menos, o cupido entre ele e a Grazi, queria que eles ficassem juntos. E já está combinado que caso o amor deles continue e eles se casem, eu serei o padrinho do casamento. Embora a minha amizade com ele tenha se solidificado no fim da nossa temporada na casa, eu saquei que Alan era uma pessoa boa logo no início, ainda na época que ele ficava com o grupo que um urdia contra mim. Eu sentia que ele era diferente, nós tínhamos assunto em comum, ele é modelo, ele já freqüentava a noite. Falou abertamente, sem medo de ser feliz, que mesmo sendo heterossexual que ele ia com a irmã em boate gay, em Belo Horizonte, que gostava de black music, de Caetano Veloso... Eu tinha uma identificação com o Alan e eu falava isso para a Pink e para a Grazi. Mas Pink não confiou muito, tanto que esse foi o ponto de clivagem entre eu e ela.
O Pedro Bial revelou que o grupo dos gigantes foi muito preconceituoso e mais do que um preconceito, foi uma demonstração de homofobia. Você concorda?
Eu concordo, pois o Pedro Bial quis chamar a atenção para um comportamento consciente, e um comportamento que é inconsciente. A homofobia se manifesta às vezes num nível inconsciente. Por exemplo, eu como gay, toco numa pessoa heterossexual, essa pessoa recua, se esquiva. Essa pessoa, conscientemente, quer ser simpática, ser cordial, mas algo nela causa desconforto, o outro causa desconforto, e aí a homofobia explode de diversas formas. No programa onde todos participantes “lavaram a roupa suja”, o Bial se referiu a esse preconceito mais inconsciente, mas o Rogério e o P.A. se defenderam dizendo que não tinham praticado discriminação. O P.A. disse que tinha vários amigos gays, ou seja, conscientemente ele tem uma reação cordial, mas tem um nível que ele não controla, então esse pavor se manifestava de alguma forma. É um pavor de espanto diante do outro, da alteridade. Uma alteridade radical, uma espécie de medusa, aquela que você não olha para não virar pedra, e esse pavor acaba se manifestando de alguma forma homofóbica. E eu era a diferença ali, naquele momento, então foi isso que o Bial chamou atenção e eu concordo com ele.
Os acadêmicos criticam os reality shows, por serem programas sem conteúdo. Como você explica isso?
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Como você acha que será quando voltar a dar aulas de novo?
No primeiro momento, acho que não vou conseguir dar aula, porque os alunos vão estar mais interessados em saber sobre o Big Brother. Mas acredito que, baixada a poeira, passado o momento da explosão, eu possa voltar a dar aula normalmente que é uma coisa que eu gosto muito. Tenho um prazer enorme em ser professor, tenho um prazer enorme em conhecer. A vida é esse aprendizado, essa troca de saber. Nesse momento que não estou dando aula, vou investir na minha carreira literária, eu quero dar continuidade aos meus escritos, crônicas, contos, meu romance, quero tocar a minha vida e outros trabalhos.
Você tinha alguma noção do que você representava junto ao público?
Não, eu não tinha nenhuma noção. Agora que a ficha está caindo aos poucos, nos lugares que eu tenho ido. E vocês me passaram uma série de informações no que diz respeito à comunidade GBLT, me deram um feedback dessa importância, do que eu representei no imaginário do público, do que eu represento para a nossa luta, no imaginário do nosso grupo mesmo. E se nós pensarmos que os gays fazem parte da imensa população que carrega o país nas costas, diríamos que foi uma catarse dos brasileiros, pois as pessoas estavam buscando uma referência ética, de comportamento. E isso é muito bacana, as pessoas terem se identificado com a história de um brasileiro simples, comum mesmo, pois isso permitiu que nos vissem além da linha da questão da orientação sexual, que é determinante na vida de uma pessoa, mas não é a única coisa. Então, passar pela linha da orientação sexual e trazer à reboque outros valores é algo muito bacana.
Agora que você sabe que virou um representante da comunidade gay, como sente a responsabilidade?
(Risos) Eu fiquei feliz de ter virado um representante da comunidade gay, fico felicíssimo das pessoas me verem como referência, com todas as implicações que isso tem, pois não sou ingênuo a ponto de não perceber que isso tem um lado que me aprisiona. Eu gosto dessa condição, eu sempre quis isso na minha vida, e quero reiterar que eu sempre militei. As pessoas deturparam muito uma frase que eu disse na coletiva quando perguntaram se eu era militante e eu respondi que não. Eu quis dizer que não era membro de nenhum grupo, que não era membro do Atobá, do Arco-Íris ou do GGB. Eu não sou membro de grupos, mas eu sempre militei, a minha existência sempre foi uma militância. Então quando eu disse que não militava de carteirinha, quis dizer que eu não sou associado a algum grupo.
E como você vê o momento atual da militância no Brasil?
Existe uma ala da comunidade gay que, no plano da estética, do visual, tenta limar a feminilidade, os acessórios, os símbolos de feminilidade que identificam o gay como unidade também feminina, para que ele aparente ser só masculino. Essa ala precisa parar um pouquinho, prestar atenção e reconhecer a importância da militância dos travestis. A militância dos travestis é caótica, desorganizada, numa certa medida violenta, mas é extremamente importante, porque é o escudo que defende os gays da violência da hegemonia homofóbica. É um preconceito que tem que ser quebrado, ninguém é obrigado a se comportar ou à metamorfosear o próprio corpo. A bandeira do arco-íris é o melhor símbolo para a comunidade e para o nosso movimento exatamente pela diversidade de cores, do espectro, que vai do ultravioleta ao infravermelho e se você vê a luz refratada, você vê que quase não há divisão entre uma cor e outra. Somos todos espectros de uma mesma luz, cada um com sua cor de militância, cada um com seu comportamento.E o bacana seria que cada uma dessas cores prestasse atenção na importância das outras.
Você gostaria de dizer alguma coisa para os usuários do G Online e os leitores da G Magazine?
Fiquei lisonjeadíssimo com todas as correntes, com os e-mails todos que as pessoas mandaram para a G. Gostaria de responder a todos, mas eu estou num momento em que é impossível responder à todas as pessoas. Mas eu quero que todas as pessoas se sintam verdadeiramente acolhidas, abraçadas e eu agradeço de coração pela campanha, por ter votado, por ter gastado o tempo, que é tão precioso, que é a matéria prima da vida, votando em mim, para eu ficar. Isso não tem um milhão que pague, isso para mim foi a melhor coisa. Obrigado, gente! Sou muito grato também ao público em geral, não só à comunidade gay. O carinho das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos homens heterossexuais, que dizem “Olha, você mudou minha opinião sobre os gays” ou “Cara, eu tinha muito problema com gay, mas depois que eu vi você no Big Brother eu passei a respeitar”. Muitas mulheres, senhoras, chegaram a dizer “Meu filho, você é o filho que eu queria ter”. É muito bonito ouvir isso, porque elas foram capazes de perceber que a minha orientação sexual, ou seja, o meu amor, a minha maneira de amar, em nenhum momento quebrava o meu valor como ser humano. Isso é muito lindo, as pessoas se identificaram com isso, com valores do bem, com valores que preservam a vida coletiva, uma ética que preserva a vida.
Você já era leitor da G?
Eu já era leitor sim. Não comprava todas as capas, não vou mentir, eu comprava as capas que me interessavam. Mas eu tenho um amigo que é assinante, então eu ia para a casa dele e via as revistas que eu não tinha. Eu sou fã do Silvério Trevisan, um grande escritor que não tem seu devido valor reconhecido pela parcela da população que lê nesse pa
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E quem você gostaria de ver na capa da G?
Marcos Palmeira. Inclusive, um dia na casa (Big Brother), estávamos discutindo e dando nota em quem tem mais sex appeal e todos lhe deram 10. Outro que eu também gostaria de ver é Murilo Benício. Acho que ele e o Marcos são atores que têm talento, carisma e sex appeal.





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