Alberto Guzik e Eduardo Castanho
Em foco, o espetáculo "Rua Taylor, nº 214", em cartaz nos Espaço dos Satyros
Por Gustavo Ranieri
Foto: Divulgação
|
Coordenador geral e ator do espetáculo falam sobre a criação de Rua Taylor, nº 214, que explora o universo rodrigueano e seus temas "proibidos" |
O.universo rodrigueano e seus temas “proibidos” como adultérios, incestos, homossexualidade e assassinatos são mais do que explorados pelo Núcleo Experimental da Companhia de Teatro Os Satyros no espetáculo Rua Taylor nº 214 – Um Outro Ensaio sobre Nelson, em cartaz em São Paulo. Os próprios personagens do “anjo pornográfico” Nelson Rodrigues (1912-1980) ganham vida e se emancipam na peça, interagindo em histórias próprias, criadas em conjunto pelos atores da companhia. Em entrevista ao G Online, o coordenador geral da peça Alberto Guzik e o ator Eduardo Castanho falaram sobre a criação do instigante espetáculo, da força dos personagens e do impacto deles na platéia.
Como foi a concepção do espetáculo e o seu papel como coordenador geral?
Alberto Guzik - A idéia foi do Núcleo (Experimental), que já tinha feito o Ensaio sobre Nelson no ano passado. E como Rodolfo García Vázquez (fundador e diretor da companhia) e o Ivan Cabral (fundador e ator) me convidaram esse ano para dirigir e trabalhar com o Núcleo, eu disse “vamos trabalhar” em cima da idéia. O que a gente fez foi reformular o espetáculo, fazer uma série de alterações de moldura, criou uma outra movimentação, um outro tipo de energia. Antes eram nove textos apenas com cenas “a seco”: entrava uma dupla e fazia uma cena e saía, entrava outra dupla ou um trio e fazia uma cena. Agora nós reduzimos para seis textos e criamos a estrutura do cabaré.
E quantas pessoas fazem parte do Núcleo Experimental?
Guzik - São 16 pessoas na peça. Quer dizer, são quinze do Núcleo e mais uma participação especial do Eduardo Metring.
Nota-se que embora o texto não seja do Nelson, os personagens são todos criados por ele. Como funciona isso?
Guzik - São personagens do Nelson, retirados das peças dele e colocadas em outras histórias. Isso é justamente uma das coisas mais interessantes do projeto, essa brincadeira que a Nora (Toledo, orientadora dramatúrgica), o Ivan e o Rodolfo elaboraram com o grupo, com uma espécie de supervisão dramatúrgica do Jarbas Capusso Filho. Porque os autores do texto são todos do grupo, foram eles que elaboraram em conjunto, tiveram as idéias, que foram buscar elementos para a peça.
Eduardo Castanho - Nós estudamos todas as peças do Nelson e a Nora, que era diretora no ano passado, propôs para cada um escolher um personagem que mais tivesse a ver conosco. Eu, por exemplo, escolhi o Leleco, que é um personagem totalmente oposto a mim, um cara nervoso, estressado, infeliz com a vida e no casamento. Na peça Boca de Ouro, de onde ele foi retirado, ele é um cara que quer ser médico, quer ser alguém na vida. Mas o meu Leleco já é formado, é casado ainda e teve uma filha, que é a Sônia, retirada da Valsa nº 6. E em uma de suas saídas ao prostíbulo, ele conhece a Dorotéia por quem se apaixona.
Mas embora só sejam os personagens de Nelson, a temática é bem
|
Foto: Gustavo Ranieri |
![]() |
|
Alberto Guzik |
Guzik - Totalmente. Aliás, a peça gira quase inteira sobre o incesto. Acho que a há uma única cena que não tem a ver com o incesto, a cena das prostitutas. O incesto é uma obsessão do Nelson, ele trabalha muito em cima disso. Foi um trabalho muito interessante, mostrou como as figuras do Nelson são fortes, são vigorosas.
Falando sobre essa vigorosidade, você acha que esses temas tão explorados pelo Nelson e suas personagens continuam a causar polêmica como ocorria durante as décadas de 40 a 70, por exemplo?
Guzik - Sim e não. Não porque ele é muito conhecido hoje, a genialidade dele é reconhecida por 99 de cada 100 pessoas que você conversa. Mas, ao mesmo tempo, pelas reações que você vê na platéia com certas situações e idéias, pelo incomodo que você percebe que ainda causam, você nota que o Nelson ainda tem a capacidade de perturbar os acomodados.
Como a cena de homossexualidade entre o pai com o filho, por exemplo?
Guzik - É uma coisa que jamais aconteceria no Álbum de Família, a peça da qual o Jonas e o Nono (pai e filho) foram retirados. Não existe nenhum laico de homossexualidade pairando na peça Álbum de Família. Ao contrário, são relações incestuosas, mas são pai com filha, mãe com filho, irmão com irmã. A peça é dilacerante porque vários personagens se castram, tentam anular o sexo, tentam fugir disso. Eu achei muito interessante o trabalho dos meninos porque o que eles propuseram foi um avesso do Álbum. Quer dizer, o Álbum já é o avesso, então essa relação que eles imaginam entre o Jonas e o Nono é o avesso do avesso. Trata-se de uma cena muito contundente, muito forte.
Castanho - A gente percebe que é uma coisa que choca bastante. Porque você não imagina que um pai possa ter um caso com a filha, ou com o filho.
A homossexualidade também está presente na cena das prostitutas...
Guzik – Sim, na cena da Sônia, da madame Senhorinha e da Moema. Essa cena, aliás, tem três personagens de três peças diferentes e, rigorosamente, não tem nada a ver com as peças das quais as personagens foram retiradas.
E como é trabalhar com um Núcleo que está se profissionalizando? Por ser um grupo numeroso, há muitas diferenças técnicas entre os atores?
Guzik - É como trabalhar com qualquer grupo. Não tem diferença entre trabalhar com atores em formação ou com um grupo de atores profissionais. O ator tem que entrar em cena e fazer. E daí tanto faz o ator ter 20 anos de experiência como ter dois dias de experiência: se ele for um ator ele vai fazer e se não for um ator não vai fazer. O que a gente faz é ajudá-lo a desenvolver seu trabalho com ator, perceber qual é o caminho que ele está desenvolvendo, ajudá-lo a desenvolve-lo.
Quanto mais bem resolvido estiver o ator, quanto mais tranqüilo ele está, quanto mais segurança ele tem do que ele está fazendo e quanto melhor a relação entre ele, o espetáculo e o diretor, melhor para o espetáculo. Então, o trabalho com o Núcleo foi muito concreto.
|
Foto: Gustavo Ranieri |
![]() |
|
Eduardo Castanho |
E qual é a mensagem por trás do texto, por trás do cabaré, enfim, por trás do que é visto?
Guzik - Eu acho que é a idéia de que “de perto ninguém é normal”, como muito sabiamente diz Caetano Veloso A gente bota uma lupa em cima de certas situações para mostrar que realmente de perto ninguém é normal, ou seja, estamos todos no mesmo barco e, por não sermos normais, somos todos iguais.
Castanho - Hoje em dia, as pessoas ainda mascaram tudo. Não estou falando só a classe alta, acho que a classe média, a classe baixa também. Muitas pessoas têm um pai que é alcoólatra, que chega em casa e abusa da filha ou do filho, apesar de que na peça, aconteceu sem ser abuso, foi por escolha. Sabe, existe isso ainda na sociedade, no nosso mundo. As pessoas, às vezes, preferem não ver, fazem de conta que não vêem, e a gente tem que mostrar. Talvez não propositalmente, mas de forma clara que isso existe. É uma coisa que a gente quis abordar para mostrar “olha, está na cara de vocês, resta ver, entender e aceitar”.




Infopride
Assine já a revista