Edy Star
O primeiro cantor assumido do Brasil
Por Rodrigo de AraujoColaboração de Rogério de Oliveira e Flaviano Star, da banda Star 61
Foto: Divulgação
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Edy Star na época do lançameno do LP Sweet Edy, em 1974 |
Aos 71 anos de idade o cantor, ator, dançarino e artista plástico baiano Edy Star é daquelas figuras que têm tantas histórias para contar que poucas horas de conversa não são suficientes para entender sua trajetória. Considerado o primeiro cantor gay assumido do Brasil e o pioneiro do glam rock, antes de Ney Matogrosso e Secos & Molhados, Edy começou a carreira artítisca no início dos anos 60, atuando, desenhando e cantando. O sustento, no entanto, vinha do trabalho na Petrobrás como especialista em petróleo e técnico de produção, o que ele largou em 1967, quando embarcou para o Recife e foi trabalhar por dois anos em um circo como assistente de palhaço.
Depois, em 1969, de passagem por Salvador para visitar a família, Edy encontrou um amigo na TV Itapoã e recebeu um convite para emplacar um programa na emissora. Voltado para o público jovem, a atração foi sucesso absoluto, mas acabou quando Edy cobrou no ar o pagamento de seu salário que já estava atrasado há seis meses. No olho da rua, Edy Star pegou um ônibus para o centro de Salvador, onde encontrou Raul Seixas, que o contratou para gravar o cultuado LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 ao lado de Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e do próprio Raul.
Nos anos 70 Edy Star foi estrela de cabarets e boates cariocas, gravou o antológico LP Sweet Edy (Som Livre – 1974) e estrelou vários musicais como, em 1975, a primeira montagem brasileira da peça Rocky Horror Show. Morando há quinze anos em Madri e trabalhando em um cabaret, Edy Star voltou ao Brasil neste ano apenas para participar da Virada Cultural, em São Paulo, onde homenageou o parceiro e amigo Raul Seixas em um show que foi considerado o melhor do Palco 20 anos sem Raul.
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Os Kavernistas (da esq. para dir.): Edy Star, Miriam Batucada, Raul Seixas e |
Nesta entrevista ao G Online Edy Star fala de sua vida, sucesso, homofobia e das histórias loucas dos seus longos e inesquecíveis anos de vida. E, com ar de deboche, claro, dispara: “Eu entro na internet e tem gente dizendo que virei travesti e sou dono de cabaret na Europa. Tem site dizendo que morri de aids, tuberculose. Eu vou dizer o quê? Gente, tô nem aí pro mundo...”.
Você começou a carreira na época em que as universidades baianas estavam bombando em manifestações culturais?
Sim, era uma época efervescente com Glauber Rocha, Caetano, Gil, Quarteto em Cy. Eu tinha um programa e cantava com as duas irmãs mais velhas do Quarteto. Elas faziam trio comigo na rádio Sociedade da Bahia, num programa chamado Hora da Criança. Eu fazia paralelamente teatro com a Companhia Baiana de Comédias, que era uma das mais importantes da Bahia.
Mas antes de viver da arte, você teve outra profissão, não?
Sou formado como especialista em petróleo e técnico de produção. Trabalhei um ano e meio na Petrobrás. Saí de lá em 1967 para ir para Recife. Eu odiava trabalhar no meio de 1500 homens, de um machismo incrível. Sofria o diabo. Eles não diziam na cara "seu veado", mas quando me viam saindo com algum amigo falavam : "Hoje vai comer carne boa!”. A única pessoa que conheci nessa época que não era assim era o Caetano Veloso. Eu trabalhava perto de onde Caetano morava. Nessa época, conheci Bethânia. Somos amigos até hoje.
Mas você também era assumido para seus colegas da Petrobrás?
Eles não tinham a certeza, mas eu era muito fresco. Meu apelido era Sputinik. Saí da Petrobrás e fui trabalhar num circo por dois anos e meio. Foi um trauma para minha família!
O que você fazia?
Eu era clown, ajudante de palhaço. Nos circos que trabalhei, a segunda parte era teatro. Aí também fazia peças clássicas de manhã e de noite. Passava um mês em cada lugar. Na hora de ir embora, chorava, chorava. Ficava enraizado com o lugar, as pessoas que conhecia, com os namorados que conseguia...
Como você ficou famoso em Salvador?
Em 69, de passagem para ver minha família, fui até a TV Itapoan e encontrei um grande amigo, o José Jorge, que era diretor geral da televisão. Acabei ficando lá fazendo televisão. O programa batia todos os recordes de audiência. Era um programa para jovens. Todos os grandes artistas que iam para Salvador passavam pelo meu programa. Eu fiquei no programa até ser expulso da TV Itapoan. Eles já estavam me devendo seis meses de salário e eu cobrei no ar. A produtora do programa ficou passada e o dono da emissora me pegou e falou: "Não pise mais na TV Itapoan!". E eu do meu jeito respondi: "Mas vai pagar, não vai?" (risos).
Foi aí que você conheceu o Raul Seixas?
Saí da TV, peguei um ônibus e fui para o centro da cidade. Lá, encontro Raul Seixas, que estava me procurando e me contratou na hora. Eu não entendi bem. Ele tinha amigos maravilhosos, inclusive cantores, e o único artista que ele chamou para ir para o Rio de Janeiro fui eu, que era uma bicha louquérrima, assumidérrimo. Foi um baque para mim e motivo de despeito para os outros.
Como foi o início de carreira no Rio?
Logo que cheguei no Rio gravei meu primeiro compacto pela CBS e conheci vários artistas famosos da época, como Leno e Lilian, Sérgio Sampaio. Foi daí que gravamos o disco Sociedade Kavernista que não aconteceu. A única pessoa que aplaudiu fui eu!
E como foi a gravação do disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10?
Ah, não vou falar sobre isso, não....
Ahhhh, porque existe um mito...
Existe um mito, não. Existem várias lendas. Raul inventou várias sobre isso. Ele começou a se autopromover soltando frases bombásticas e notícias surreais. Existem outras lendas que inventaram e ele ajudou a levar para frente. E outras que criaram depois que ele morreu. Têm boatos que o disco foi feito escondido, de noite, que pegamos os varredores de rua para cantar... um disco não se faz em 48 horas, meu filho!
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Edy Star durante show da Virada Cultural, em São Paulo, maio de 2009 |
Existe uma história de que os donos da gravadora estavam viajando e quando voltaram o disco já estava na praça...
É que encalhou de o disco ser lançado e o supervisor geral estava de férias, nos Estados Unidos. Quando voltou, o disco já tinha sido lançado. Mas é um disco normal. Agora, se gravou de noite? Gravou! Muitos disco se gravam à noite, de madrugada. Falaram que chamamos os varredores de rua para cantar. Se você ouvi-lo vai ver que tem primeira, segunda, terceira vozes cuidadíssimas. Agora, entre as vinhetas, chamamos um monte de gente para falar e fazer um burburinho. Tem um monte de conversas. Colocamos os funcionários do prédio, até os varredores. Mas não entraram para cantar no disco.
E como você observa sua participação no disco?
Eu participei da criação dele. É coletivo. A única pessoa que não participou na criação foi a Miriam Batucada. Mas eu, Sérgio e Raul praticamente criamos o disco todo. Só que todas as minhas músicas foram proibidas pela censura. Então se falava: "não coloca mais o nome de Edy porque a censura já corta pelo nome dele". Então, tem várias músicas do disco que são minhas, mas não vou hoje dizer que é minha. Não tenho como provar...
E essa homofobia todo que dizem que Raul tinha. É verdade?
O Tildo Gama, da banda Raulzito e os Panteras, disse que Raul Seixas era homofóbico e li que a Kika Seixas (ex-esposa) disse que ele não gostava de gays e lésbicas. Eu vou dizer uma coisa, o disco Sociedade Kavernista tem um gay e uma lésbica porque Miriam Batucada era lésbica. Sempre trabalhei com Raul, nos dávamos bem, nunca brigamos. De todos os amigos dele, foi o Edy Star que ele levou para o Rio de Janeiro. E me ajudou lá porque praticamente não tinha como viver. Nunca sofri uma repulsa ou preconceito por parte de Raul. Nunca ouvi falar disso em relação a mim e a outras pessoas. Quantos amigos gays e lésbicas Raul não teve! Aí, leio essas declarações que ele era homofóbico, fez o Rock das Aranhas e não sei o quê. Outra coisa, a Kika o conheceu num templo, mas eu o conheci muito tempo antes. E olha que estive com Raul até pouco tempo antes dele morrer. Só me afastei dele quando começou a andar com Paulo Coelho. Era porra louquisse demais, muita besteira e bobagem. E todo mundo levando aquilo a sério!
Foto: Arquivo Pessoal![]() |
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Edy Star na Parada Gay de Madri, em 2008 |
Que ano foi isso?
Olha, 69 que não foi, pode ser 74 (risos). Sabe que me perguntaram se Raul e eu fomos uma das quatro experiências homossexuais de Paulo Coelho? Eu respondi que não, pois para começar quatro não é mais experiência. Você faz uma experiência pela quarta vez? Faz a primeira, depois a segunda, porque não sabe se gostou, a terceira porque não sabe se gostou, quarta porque não sabe se gostou? O que é isso? Olha,eu não fui nenhuma dessas experiências e também não acredito que ele teve experiência porra nenhuma, assim como ele também diz que fez o Caminho de Santiago e que também não acredito.
Quais eram suas influências? Você se espelhava em alguém?
Eu fazia muita coisa intuitivamente. No Rio de Janeiro me soltei muito porque eu lidava com pessoas do meio artístico no auge do desbunde.
Como surgiu o nome Edy Star?
É uma auta-gozação com essa coisa de querer ser uma estrela. Perguntavam qual é seu nome? Eu não tinha nome. Só fui ter nome em 72, quando acabou o disco Kavernista e fui trabalhar na praça Mauá, no Rio. Era um cabaret de quinta categoria, um puteiro mesmo. Que tinha show com tudo que a censura proibia. Tinha show lésbico, anão nu correndo pela plateia. Tudo proibidíssimo!
Você sabe o que significa "Edí" hoje na gíria gay?
Não é de hoje! Sempre foi! Já se falava Edí na Bahia e dialeto do gueto gay.
Mas como você se tornou um astro cult?
O Pasquim foi lá onde eu me apresentava e fez uma reportagem. Aconteceu do povo da sociedade, da zona sul, ir todo final de semana para ver o show. As putas ficavam doidas porque elas tinham que ir para fora para caber o público. Eu tinha um número que entrava de Gal Costa e Maria Alcina. A Maria Alcina estava no auge e foi me assistir. Trouxe Mauro Furtado, o dono da boate Number One, a mais bacana da época, para me ver. Aí, o Mauro me contratou para substituir a Maria Alcina. No início, eles estavam inseguros e contrataram uma cantora norte-americana de bar para fazer o primeiro show. Divulgaram como se ela fosse uma Aretha Franklin. Mas não era nada disso. Depois de um tempo, perceberam que a casa estava lotada e todos chegavam cedo para guardar lugar para meu show. No segundo mês, passei a fazer o show principal. Quem fazia o segundo, era Vinícius e Toquinho. Depois que saíram, quem fazia era a travesti Divina Valéria.
Você já se via como sendo o primeiro cantor homossexual assumido?
Eu sabia que o que eu fazia, ninguém mais fazia.Agora de querer ser percussor, não. Eu sou de uma época em que homem não usava camisa vermelha. Eu via aqueles catálogos americanos com homens de camisa florida, eu achava aquilo lindo. Comprava pano, fazia e usava essas roupas. Fui uma das primeiras pessoas a usar sandália Havaiana. Era sandália de mulher! Não se usava pulseira. Eu usava pulseira, brinco e cabelo comprido! Calça com flores que entrou só no psicodelismo, eu já usava...
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Edy Star e Maria Alcina, na época da Virada Cultural de São Paulo |
Mas como era lidar com tudo isso na época da ditadura militar?
Olha, nessa época, ia muito na Cinelândia e tínhamos que tomar cuidado com a polícia. Todo mundo tinha carteira assinada, porque se eles pegassem, não tivesse carteira assinada, eles levavam. Acontecia também de ter carteira assinada e eles levarem do mesmo jeito. Levavam na delegacia, só para sacanear. Uma vez eu tava fazendo show de Teatro de Revista com o Carlos Machado, em 1976, no Night and Day, no centro do Rio. Meu nome estava em letras de um metro e meio e uma placa do meu tamanho escrito Edy Star Especial. Um dia, saí para tomar um cafezinho e dar uma olhada nos bofes. Parou a polícia, pediu documento. Falei que estava no carro e ia pegar. O policial disse que não e que se estava no carro eu ia junto com eles. Me botaram junto do motorista e eu sentado, olhando para meu nome, comecei a chorar de ódio por estar numa situação tão constrangedora. Eu disse que trabalhava na noite e o policial disse: "Eu sei quem você é! Se eu já levei o Agnaldo Timóteo porque não vou levar você?". Deram uma volta na Cinelândia, pegando gente e jogando na caçapa e foram o caminho todo me enchendo o saco e me chamando de cabeludo. Paramos na delegacia e eles falaram: "Cabeludo, volta para seu show senão vai perder a apresentação da 1 hora". Quando eu estava terminando o show, vieram falar que tinha um cara querendo falar comigo na rua. Quando saio, o delegado estava lá parado e gritou: "Gostou do passeio?". Aquilo para mim foi o fim... Mas sobre a ditadura, por mais dura que fosse a dita, nunca foi uma época tão divertida para os gays. Enfrentamos uma barra forte e lutamos pelos direitos que temos hoje. Mas foi muito mais divertido. Hoje não tem graça nenhuma. Está aberto demais. Os bacanais que fazíamos, os concursos de Miss Brasil. Tudo escondido! Hoje não tem mais graça...
É isso que você pensa da cultura gay hoje?
Eu aplaudo porque vejo direitos adquiridos, mas de certo modo muito aberto. Tem travesti demais, drag queen demais, todo mundo é estrela, maravilhoso. Todo mundo compra peruca e no outro dia é diva. De todos as travestis e drag queens que conheço só vejo talento em 10%. Tudo é divino e o conteúdo esqueceram na caçapa, meu amor...
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Foto: Reprodução / Antônio Guerreiro |
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De cima para baixo: Secos & Molhados, Moacir do Val, Suzana Vieira e Edy Star (sentado, à dir.) |
Quando surgiu o Secos & Molhados com o Ney Matogrosso, você sentiu uma abertura maior?
Não, não tinha abertura porra nenhuma. O Ney tinha mais duas pessoas com ele no palco. Isso ajudava. Eu era sozinho! Não vi o Secos & Molhados como uma abertura, mas um grande atrevimento. Quando o Ney surgiu não foi uma coisa chocante. Todo mundo gostava, as crianças adoravam. Ele não era uma bicha louca, ele era uma coisa estranha. Não é de levantar bandeira gay.
Muitos creditam a eles [Secos & Molhados] o disco mais gay do Brasil...
Não, o disco deles também não é gay. Gay é o meu. E disco mais gay que o meu é o do Agnaldo Timóteo, a Galeria do Amor. Esse é gay até dizer chega. Primeiro porque eu o conheço, e o disco e as músicas foram feitas para ele. A música Grito de Alerta, do Gonzaguinha, foi composta para o Agnaldo cantar para o caso dele.
E quanto a dizerem que você é pioneiro do Glam. Concorda?
Eu fazia uma coisa cabaret que no Brasil é associado a puteiro de quinta categoria. Na Europa é um estilo, um espetáculo diversificado. Aí disseram que eu era glam, roqueiro. Eu vou desmentir? Eu não! Quanto a botar plataforma prateada na capa do meu LP... plataforma estava na moda! Na última exposição que fiz, um cara na Europa disse que eu era expressionista lírico. Eu nem sei para que lado vai isso! Eu não desminto nada...
Mas você nunca sofreu preconceito nos anos 70?
Não. Eu gravei todos os programas musicais da Globo da época. Não tinham preconceito porque eles estavam acostumados a lidar com gays.
Mas nem da censura?
Ah, isso tinha. Sempre mandavam maneirar em algumas coisas. Roupas que pediam para colocar algo na frente, porque era bem justo e mostrava um volume de pau. Agora, eu gravei dois anos todos os programas de TV. Aí, a Globo me contratou e eu não gravei mais nenhum programa. Eu fui contratado da Globo por três anos como ator para fazer A Praça da Alegria. E não podia me apresentar em outras emissoras. Depois me contaram e fizeram suposições que eu tinha sido contratado para matarem a minha carreira. Claro que não é verdade! Eu não acredito nisso. Mas a Globo sempre sacaneava os artistas, contratava e punha na geladeira. Aí minha carreira foi para as cucuias.
A Leila Diniz., por exemplo, ficou na geladeira por que a emissora em que ela trabalhava foi pressionada pelo governo após uma entrevista que ela deu ao Pasquim. Isso não poderia ter acontecido com você?
Eu conheci a Leila e acredito piamente nessa versão! Claro que se podia ser ou parecer puta ou veado, mas sem assumir ou afrontar a religião, tradição e família. Principalmente na Globo. É coisa arcaica e ridícula, mas que ainda perdura até hoje. E ainda me vem com: "não temos descriminação". Pois, sim... Também dei entrevista ao Pasquim, com capa censurada e tudo mais. Comigo, algumas pessoas ventilaram isso, mas nunca me preocupei em averiguar, pois embora contratado e não atuando, minha vida corria por fora. Igual a Leila.Talvez eu tenha sido vitima do meu próprio desleixo.
Como surgiu o convite de estrelar a primeira montagem do Rock Horror Show no Brasil?
Bom, antes fui fazer musicais. Depois do Number One vim para São Paulo. Fiz shows em São Paulo com Toquinho, Rosa Maria, Paulinho da Viola. Ganhei muito dinheiro e gastei tudo viajando o Brasil inteiro com um garoto num fusca. Voltei para o Rio e o Guilherme Araujo mandou me chamar para fazer o Rock Horror Show. Fui substituir o Eduardo Conde que tinha caído de hepatite vinte dias depois da estreia. Sofri uma reação contraria do Wolf Maia, que era caso de um ator da peça. Ele disse que eu estava acabando com a obra de Rubens Corrêa. Eles vieram para São Paulo, mas não quis fazer mais. Comecei a fazer meus teatros de revista que é uma coisa que adoro fazer. Fiz minhas exposições e em 92, durante as Olimpíadas de Barcelona, fui morar na Espanha.
Foto: Arquivo Pessoal![]() |
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Edy Star durante show da Virada Cultural, em São Paulo, maio de 2009 |
E como foi parar lá?
Estava envelhecendo, as coisas cada vez mais difíceis, sofria com o término de uma relação e resolvi que não queria morrer sem conhecer o país que mais admirava. Cheguei em Madri e uma semana depois já estava trabalhando numa boate como divertissiman e fui ficando...
É verdade que trabalha num cabaret?
Sim, trabalho num cabaret no centro de Madri. Vale ressaltar que fora do Brasil, a palavra cabaret tem outra conotação. É um tipo de espetáculo de variedades. Nas terras tupiniquins é o mesmo que puteiro de baixo nível. Sou o mestre de cerimônias, apresento o show e divirto o público.
É ou já foi casado?
Vivo e moro só. Já fui praticamente casado, com relações duradouras e intensas de ambas as partes. Mas, eram outros tempos. Minhas duas últimas relações foram enganos. Efeitos da modernidade e liberdade atual. Mas saí incólume e mais vivo, pois já começo a relação com o pensamento de que nada é eterno, principalmente nos nossos tempos de internet, saunas e baladas. Pode durar um mês, um êxito, um ano, sorte grande, ou 10 anos, um milagre!
Foto: Reprodução![]() |
| Foto da capa do LP Sweet Edy, de 1974 |
Você já participou de alguma Parada Gay no Brasil?
Nunca participei de uma Parada daqui, mas sempre participo na Europa. Saí na home do site da Parada Gay de Madri, não por ser Edy Star, mas pela roupa que vestia. Lá é diferente. É muito politizado, aqui é mais Carnaval. Mas o clima do Brasil é Carnaval!
O que pensa sobre casamento gay?
Acho que do jeito que é pensado, assim como um tratado entre dois homens que se amam, perfeitamente viável e normal. Vale mais o amor e o companheirismo. Aqui na Espanha existe e está funcionando perfeitamente. Casamentos de astros da TV, de esportistas, de gente conhecida na sociedade, gente do povo e alguns oficializados por prefeitos. Nas ruas é normalíssimo dois homens de mãos dadas, abraçados ou beijandon-se. Tem um bairro gay. Mas é uma outra cultura...
E sobre gays terem ou adotarem filhos?
Embora seja a favor, sou mais severo com isso. Adotar crianças não é brincar de bonecas.Tem que possuir uma experiência e uma dedicação de verdadeiro pai. É uma grande responsabilidade e envolve um futuro do casal e da criança. Tem que estar preparado para os gastos e desgastes. Seria um grande avanço e que terá em contra, como sempre, a família pressionada pela santa e amada Igreja. Mas, pensemos bem: qual foi qualquer avanço social ou da ciência, que só trouxe benefícios a humanidade, em que a Igreja não foi contra? Por ela, ainda viveríamos como na Roma antiga. Mas com o Papa usando Prada.









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