Letizia Russo
"Não considero o amor heterossexual e homossexual diferentes"
Por Mariane Zendron
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A dramaturga italiana Letizia Russo tem um histórico impressionante. Aos 28 anos, já conta com 13 peças em seu repertório. Muitas delas, inclusive, atravessaram fronteiras. É o caso de Só, peça adaptada pelo diretor Alvise Camozzi e em cartaz em São Paulo até meados deste mês de maio. O sucesso na capital paulistana é absoluto, tanto que todas as apresentações restantes estão com os ingressos esgotados. A trama conta a história de um jovem que volta para sua terra natal após 25 anos de ausência e, entrando em um bar, reconhece o homem que foi o primeiro amor de sua vida.
Se aos 28 anos o número de peças escritas é vasto, o sucesso para Letizia chegou mais cedo ainda, quando aos 20 anos, com a peça Tomba di cani (Tumba de Cães), a dramaturga ganhou o maior prêmio de teatro da Itália, o Tondelli. A partir daí, Letizia foi para o mundo e já levou sua obras para países como a Alemanha, Portugal, Inglaterra, além do Brasil.
Aliás, de passagem em terras brasileiras, Letizia Russo conversou com o G Online e falou, entre outros assuntos, sobre sua visão a respeito do preconceito contra LGBT, como criou o personagem gay que conquistou a identificação de muitas pessoas e, ainda, como a Itália lida com a homossexualidade.
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É totalmente inventada por mim, mas a história nasceu de uma encomenda para um festival de teatro homossexual que há em Roma, chamado Garofano Verde, em português Cravo Verde. Eles pediram para que eu escrevesse uma peça. Então eu fui tentando perceber uma história possível, mas o fato é que, como não sou homossexual, não queria enfrentar um assunto que não conheço de perto. Preferi falar de uma história de amor, simplesmente, e que pudesse falar para todo mundo. O meu empenho foi o de não criar uma história com um assunto específico, pois eu não considero o amor heterossexual e homossexual diferentes.
Mesmo sendo uma história de amor que fala tanto para o gay como para o hétero, o protagonista passa por uma situação muito comum aos gays, que é a não aceitação da família.
Sim, sendo uma autora, tento vestir a roupa do personagem que vou retratar. Mesmo que não tenha indicações específicas, a história se passa em uma província. Tentei imaginar como seria a vida de um rapaz que ama outro rapaz numa pequena aldeia cheia de preconceitos. Mergulhei na alma desse personagem e tentei manter as duas possíveis reações das pessoas a esse tipo de ambiente. O protagonista é o que sai e vai embora, tenta de alguma maneira ir atrás de sua natureza, enquanto o outro personagem, que é mudo, estraga completamente sua vida, porque não consegue, não quer ou não o deixam ir atrás de sua natureza.
Como foi a reação dos gays em relação à peça?
Na Itália, as reações sempre foram muito positivas. Sempre recebi muito carinho, não só dos gays, mas também dos héteros que assistiram à peça. Pelo lado homossexual, eles se sentem retratados e é como se eles conseguissem encontrar na peça pedaços ou pensamentos de sua vida. A peça evoca sentimentos e comove muito as pessoas. Eu acho isso muito bom, pois detesto guetos e acho importante alcançar o maior número possível de pessoas.
Você acha que no Brasil a reação também foi positiva?
Eu acho que sim, graças também a interpretação de João Miguel e a direção do Alvise. As pessoas aplaudiram de pé, acho que foi positivo.
Você acha que a Itália lida bem com a homossexualidade?
A Itália é o país da Igreja Católica, isso é um ponto de partida um pouco mais complicado que nos outros países. Mas pelo que eu vejo na vida teatral italiana os homossexuais não enfrentam problemas. Há muitos diretores, atores e dramaturgos homossexuais que conseguem lidar muito bem com isso. Existem, no entanto, diferenças entre as grandes e as pequenas cidades. Em cidades como Roma, Milão ou Turim as coisas são diferentes, há mais liberdade para as pessoas se exprimirem. Nas províncias, a homossexualidade ainda é um problema muito grande, até porque as próprias famílias não têm instrumentos e nem a capacidade de enfrentar esse tipo de assunto. Muitas vezes o único refúgio dos homossexuais de aldeias é a cidade grande. Apesar de que nem sempre o homossexual pode falar abertamente de sua sexualidade, nem é muito frequente ver casais homossexuais andar de mãos dadas na rua, por exemplo. São coisas minúsculas, mas que contam muitos sobre o grau de abertura do país, mas eu acho que as coisas estão mudando aos poucos. Espero que seja cada vez mais fácil. Também não conheço os lugares de trabalho mais tradicionais, não artísticos. Por isso não sei dizer direito se nesses lugares é difícil ou não, mas imagino que sim.
Nesse sentido, o Brasil é parecido com a Itália, pois há mais liberdade para os homossexuais nas grandes cidades.
Eu acho é que o individualismo de algumas cidades grandes que ajuda as pessoas de alguma maneira a serem mais livres. Andar pela rua e saber que não vamos encontrar ninguém que conhecemos deixa as coisas mais fáceis. A energia cultural que há na grande cidade também é muito diferente da pequena.
Por que sua relação com o teatro começou tão cedo?
Na verdade, foi um acaso total. Eu frequento teatro desde criança porque minha mãe é apaixonada pela dramaturgia. Mas nunca tinha pensado em escrever para teatro, por isso no último ano de ensino de Roma decidi participar de um concurso de diálogo teatral. Eu não tinha nenhuma ambição, era só por brincadeira. Sem que eu esperasse ganhei um prêmio da crítica. Comecei a escrever e a primeira peça foi apresentada num festival muito importante, no ano 2000. Depois a minha segunda peça ganhou o prêmio de teatro mais importante da Itália, o Tondelli. Daí, as portas se abriram completamente e eu comecei a trabalhar em outros países. Quando eu era criança, as pessoas me perguntavam o que ia ser quando crescer e eu dizia sempre "escritora", mesmo sem saber o que isso queria dizer.
Você tem novos projetos no Brasil?
O encontro com o Alvize (Camozzi) foi muito legal, por isso acho que essa parceria vai continuar, mesmo a Itália e o Brasil não sendo tão perto assim. Tenho muitos projetos na Itália, mas quero voltar ao Brasil.
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Divulgação / Janice D'Avila |
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O ator João Miguel em cena do monólogo Só, em São Paulo |




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