Maria Alcina
Escandalosa por natureza
Por Rodrigo de Araujo
Fotos: Divulgação
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Quem conhece Maria Alcina sabe muito bem que ela é a mesma menina que, montada, maquiada, magrinha e de voz grave, escandalizou o país na década de 70 com performances extravagantes e com uma presença de palco mágica. Tímida e com apenas 17 anos quando deixou, em 1967, sua cidade natal Cataguases (MG), ela mudou-se para o Rio de Janeiro e tornou-se ídolo nacional ao defender a música Fio Maravilha, de Jorge Benjor, no Festival Internacional da Canção da Rede Globo, em 1972, no Maracanãzinho. Depois vieram outros grandes sucessos, como Kid Cavaquinho, Camisa 10 da Gávea, Alô Alô, de Carmen Miranda, de quem é fã confessa.
Ovacionada pelo público, querida pelos modernos, gays e transgressores, e alvo da ditadura militar, Alcina foi vigiada pelos censores e teve de responder processos sobre seu comportamento lascivo no palco. Mas sobre esse assunto ela não gosta de falar mais. "Se você continua falando sobre isso, você acaba não ficando livre dessa história", explica.
Nos anos de 1980, a cantora tornou-se ainda mais popular, quando frequentou as rádios e programas de TV com suas famosas músicas de duplo sentido como Prenda o Tadeu, É Mais Embaixo e Bacurinha. Mal interpretada por alguns, Alcina recebeu rótulos preconceituosos que a colocaram severamente no grupo dos cantores bregas da nossa música. Somada a isso a remanescente censura dos primeiros anos da década de 80, Alcina perdeu o contrato com a gravadora, caindo no ostracismo nas duas décadas seguintes, quando manteve-se na mídia apenas como jurada de programa de calouros do Raul Gil e Bolinha.
Independente, a musa pós-Tropicalista ressurgiu em 2002, quando foi convidada para cantar com a banda eletrônica Bojo durante o festival Fábrica: Com Tradição, em São Paulo. A bem sucedida união rendeu o CD Agora (2002) que lhe abriu portas para outros festivais, shows na Europa e convites para cantar com vários artistas jovens, do samba ao rock. O casamento musical ainda rendeu o convite de um de seus integrantes, o tecladista Maurício Bussab, para produzir o recém-lançado Maria Alcina, Confete e Serpentina (Outros Discos), que traz um mix de novos compositores e expoentes da MPB, com arranjos eletrônicos e experimentais.
Em fase de comemoração do sucesso do novo álbum, elogiado pela crítica especializada, Maria Alcina recebeu o G Online para falar sobre os 37 anos de carreira, sua estreita relação com a comunidade LGBT e para deixar bem claro que a Alcina do novo milênio é, como só poderia ser, escandalosa por natureza.
Você nasceu em Cataguases, no interior de Minas, e tem uma história curiosa que não se ouvia música na sua casa porque seu pai tinha um problema auditivo. Como era isso?
Meu pai foi músico, mas teve um problema que causou a perda de audição e creio que, por isso, na minha casa nunca teve rádio. Mas ele era apaixonado por música, tanto que dos oito filhos – cinco meninos e três meninas – ele colocou todos os garotos para estudarem música. Mesmo sem ter rádio, em mim a música sempre ficou muito forte. Lembro de um tio que passava umas temporadas em casa e levava o rádio. Ele era músico também e tocava baixo acústico. Às vezes, de madrugada, eu acordava só pra ouvi-lo tocar. Era época em que a rádio tocava bossa-nova, músicas francesas, temas de filmes.
Quais foram as suas grandes influências musicais?
Como minha voz sempre foi muito grave, eu ficava ligada nos cantores masculinos, como Orlando Silva, Moacyr Franco, Agnaldo Rayol. Outra voz com a qual me identifiquei foi a da Maria Bethânia. Eu me lembro que uma coisa que me chamou muita atenção no rádio foi aquela música Atrás do trio elétrico, do Caetano Veloso, que o refrão era "Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu". E tinha uma guitarra nessa música que quandou eu ouvi pensei: "meu Deus, que som é esse?". Aquela sonoridade me deixava enlouquecida.
Como você, aos 18 anos, chegou ao Rio de Janeiro para ser cantora?
Com 17 anos eu respirava música em todos os lugares e foi ainda em Cataguases que encontrei um grupo de teatro onde eu dançava, cantava e representava. Com ajuda de um primo meu, que era jornalista e super antenado, passei depois a fazer parte de um grupo que fazia poesia, música, e assim, comecei a participar dos festivais em Cataguases. Paralelo a isso conheci mais um grupo que me convidou para participar da trilha sonora do filme O Anunciador, O Homem das Tormentas. A trilha foi gravada no Rio de Janeiro e foi assim que fui para lá.
Para chegar ao profissionalismo, então, foi um pulo?
Parece uma história planejada, porque nesse dia da gravação da trilha sonora, antes de começarmos as gravações, tinha uma outra pessoa usando o estúdio, que era o músico Antonio Adolfo. Ele já havia me visto num festival de Cataguases e me falou para eu ficar no Rio de Janeiro para começar a carreira artística. E assim eu fui batalhando, procurando espaço para cantar.
E como sua família reagiu a tudo isso?
Meus pais nunca me apoiaram no começo e, por sermos de uma família grande, são os filhos que ajudam em casa. Então eu batalhava para achar espaço para cantar e meu pai só perguntava: "Cadê o dinheiro?".
Pode-se dizer que você começou sua carreira no Rio na boate Number One. Como foi isso?
A boate Number One era um espaço onde os maiores artistas brasileiros e alguns internacionais passavam. Existiam muitas boates na época, mas a Number One era muito fervilhante, um grande point. Na época eu estava sempre tentando fazer parte do elenco que fazia o espetáculo Vem de ré que eu estou de primeira, do Tarso de Castro. Eles se apresentavam na Number One. Eu queria uma chance, mas não conseguia fazer parte porque, na verdade, eles falavam que eu era feia e que minha voz era mais grave do que a dos outros atores. Acontece que, certa noite, a Leila Diniz, que fazia a peça, não pôde se apresentar. Então eles me chamaram para fazer um show para ocupar o espaço. Eu cantei duas músicas: Baby e Asa Branca. Sei que eu causei naquela noite (risos) e todo mundo gostou.
Você continuou cantando na Number One então?
No mesmo dia que eu fiz essa apresentação, o dono da casa me ouviu e, ao descobrir que era uma mulher que cantava com aquele vozeirão grave, ele me contratou na hora.
E você já tinha o visual exótico? Aliás, como você o criou?
Por influência do teatro japonês eu gostava de usar máscaras brancas, inclusive, comecei a usá-las antes do Secos & Molhados. Eu fazia com a maquiagem um bocão, e se eu errava um traço, eu fazia um borraõ e ia assim mesmo para o palco, porque o que vale é você dar o seu recado.
Falando em Secos & Molhados, você chegou a se apresentar com o Ney Matogrosso?
Não, mas sabe que outro dia eu sonhei que tava fazendo um show com o Ney e nós dois estávamos vestidos de Carmem Miranda? (risos) As pessoas sempre me falaram que tinham vontade de me ver cantando com o Ney Matogrosso. E um dia eu o encontrei e ele disse que as pessoas também falavam que gostariam de vê-lo cantando comigo. Ainda dá tempo, pode ser bárbaro. Ele podia se vestir de Maria Alcina, eu de Ney Matogrosso, ou os dois de Carmen Miranda...
Durante a década de 70 você foi uma das vítimas da censura. O que de fato acontecia?
A primeira censura que eu sofri foi em 1974. Tudo acontecia devido ao meu jeito de cantar, tanto que respondi processos que questionavam o porquê de eu cantar daquela maneira. Eles [os censores] me vigiavam. Naquela época não se podia ser alegre e livre, e eu vivia gargalhando. Não tinha discursos, nem nada disso, mas eu fazia farra, era a minha natureza.
Mas você foi parar na delegacia?
Eu passei por algumas situações em que tive de ir à polícia explicar porque eu cantava de tal jeito, ou porque fazia tal tipo de gesto. Era horrível, eu não estava fazendo nada, só cantando do jeito que eu sei cantar. Em 74 eu fui fazer um show durante o Miss Brasil noEstádio Emílio Garrastazzu Médici, em Brasília. Era eu, o Benito Di Paula, Raul Seixas e Gonzagão. Por causa da nossa apresentação quase tiramos a TV Tupi [que transmitia o concurso] do ar.
Você sofreu preconceito dos colegas da MPB por ter um trabalho considerado não muito convencional?
Não. A música era muito plural, tinha Nara leão, Elis Regina, Chico Buarque, Raul Seixas, várias modalidades musicais e todos conviviam com alegria. As pessoas tinham talento e eram bem recebidas.
Você comentou numa entrevista recente para o Pedro Alexandre Sanches, da revista Carta Capital, que ficou sem gravadora depois de cantar músicas de duplo sentido nos anos 1980. Foi prejudicada por elas?
É verdade. Foi na gravadora Copacabana. Na verdade, eu gravei Bacurinha, É mais embaixo e a Espiga, que são músicas do Pastoril do Velho Faceta, do folclore de Pernambuco, e depois gravei Prenda o Tadeu, música da Cremilda. Eu fiquei fascinado com a música e com aquela voz dela. Dei a sorte da música ter estourado com nós duas. Mas depois começaram a chegar músicas que para minha análise eram coisas absurdas! Com rimas sem solução. Uma coisa é você pesquisar e gravar músicas que são do Pastoril. Tem uma razão musical de ser. Mas você fazer qualquer música, qualquer coisa que não tenha sofisticação musical, daí não dá. Por esse motivo eu rescindi o contrato. Depois, com a Odeon, eu gravei o compacto simples com Espiga de um lado e Vamos Dançar Kumbô do outro. As duas estouraram, mas a gravadora não quis continuar o trabalho por causa da censura. E tudo isso junto que foi me tirando...
Nas décadas de 80 e 90 você foi renegada pelas gravadoras e passou então a ser jurada de programas como Raul Gil e Bolinha. É isso mesmo?
Sim. Era a oportunidade que eu tinha de manter minha presença na mídia, porque eu tava totalmente sem gravadora. Então o público ainda tinha Maria Alcina na lembrança porque eu estava ali, do meu jeito, com meu visual extravagente.
Numa entrevista em 1999 você fez o seguinte comentário: "Na verdade, sou uma cantora alternativa, mesmo o meu caminho sendo o convencional. Se eu tivesse escolhido outra forma, minha carreira teria sido outra. Eu preciso me convencer de que eu sou uma cantora alternativa, e por escolha.” Quais foram essas escolhas e que o que levou você a procurar outras formas de manifestações artísticas e maneiras de levar sua carreira?
Eu acho que tem muito a ver com o local e a época de onde eu venho. A minha forma também de ter aprendido música, que foi ouvindo no vizinho, na rua. Eu estou sempre com um frescor musical porque, como eu não tenho formação, toda música para mim é sempre novidade. E é isso que me faz ter esse espírito aberto. Às vezes eu fico pensando que a minha carreira discográfica é pequena, apesar de todo esse tempo de carreira, por causa da minha rebeldia. Porque para uma gravadora investir em você tem de ter certo comprometimento com algumas situações e meu espírito é livre, uma coisa de temperamento. Essa mal criação (risos) me levou para outros caminhos. Eu não era uma moça bem comportada, meu espírito é muito rebelde, mas foi também o que me fez estar nessa trilha maravilhosa.
Você é muito ligada à comunidade LGBT, participando de vários shows e eventos há muitos anos. A sua relação com os gays existe desde sua juventude ou começou depois?
Na minha juventude, com a convivência com a turma de teatro, eu passei a ter uma outra mente, uma outra formação. Depois de cantar Fio Maravilha no Maracanãzinho, muitos transformistas começaram a fazer um número de Maria Alcina. Eu convivi com muitos deles. Tinha o Zuraio, o Aron, com quem eu fazia uma paródia da ópera Carmem de Bizet, a quem chamávamos de Carmem, de Bidê. Valma era um transformista que ia sempre no programa do Bolinha, tinha a Lola Batalhão. E eu convivi em todas as boates gays da época, Medieval, Nostro Mondo.
No que os gays mais se identificam com você?
Acho que tudo o que fiz tem a ver com o universo gay. E eu tenho a sensibilidade feminina, mas meu lado masculino é muito forte, principalmente no sentido de colocar a mão na massa mesmo. Tem momento em que me esqueço que sou mulher.
Você é muito convidada para participar de shows de jovens artistas independentes que te viam na TV quando eram crianças. Como se dá essa troca de experiências com esses novos cantores, bandas e compositores?
Esse meu encontro com a cena independente é uma coisa muito de São Paulo, que favorece e tem uma caldeirão de possibilidades. Aqui você tem toda as músicas, raças, assim é viver São Paulo. Foi aqui que eu conheci o Bojo [banda que mistura música eletrônica e MPB].
Aliás, como começou a parceria com Maurício Bussab, do Bojo?
Eu trabalhei durante quatro anos com o Gasparetto [Luiz Antonio], no Espaço Vida & Consciência, estudando com ele. Um dia, ao chegar em casa depois de mais um encontro, tinha um recado do Maurício na minha caixa postal dizendo que ele era da banda Bojo e queria me convidar para um projeto. Eu retornei depois e aceitei fazer o trabalho, foi um encontro maravilhoso.
Sua parceria com o Bussab lhe rendeu o CD Agora, de 2002, e o recém-lançado Maria Alcina Confete e Serpentina. A crítica vem dizendo que é um dos melhores e o mais bem produzido trabalho de sua carreira. Como ele foi concebido?
Cada música desse CD tem uma particularidade. Foram tardes musicais no estudio do Bojo, bebendo aquele clima na maior felicidade. Gravavamos uma música de um jeito, depois mexíamos de outro. O Mauricio é um homem muito sofisticado, inteligente, me trouxe muitas informações. É um luxo total, a vida me proporcionou isso.
Quem é essa Maria Alcina do novo milênio?
A verdadeira Maria Alcina é essa. Tudo isso que está acontecendo agora me faz voltar e me reencontrar. Eu estou fazendo 60 anos e acho que o problema da censura, de não gravar mais, me entristeceu muito. A gente sobrevive, mas vai dando uma coisa por dentro... Eu deixei minha casa ficar largada, eu me larguei muito, eu não conseguia pegar nas minhas coisas para arrumar, porque eu olhava uma roupa e aquilo me lembrava de um show, daí eu pegava um jornal e lia uma matéria e recordava de alguma coisa, e eu pensava: "Por que não tá acontecendo nada? Eu no fim de semana em casa, sem show, não é possível. Eu devia estar trabalhando". E aquilo começou quase a me enlouquecer. Daí eu pensava que podia ter agido de outra maneira. Comecei a me cobrar, a idade vem chegando. Mas preciso me perdoar desses momentos e lembrar de tantas coisas boas que fiz. Eu recomecei minha carreira. Acho que agora estou sendo de novo a Maria Alcina.










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