Luma Andrade
Não importa se a pessoa é pobre, negra ou homossexual, ela pode chegar aonde quiser
Por Mariane Zendron
Fotos: Arquivo Pessoal
|
Luma Andrade é a primeira travesti a ingressar em um curso de doutorado no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). Cearense da cidade de Morada Nova, filha de uma família de trabalhadores rurais, apanhava na escola quando criança pelos colegas por ser considerada “fora dos padrões”. Nada, entretanto, abalou seu desejo de continuar estudando.
Luma já foi professora, atualmente trabalha na Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Credi) e acaba de ingressar na Universidade Federal do Ceará para fazer um doutorado em Educação. Nesta entrevista ela fala da luta para vencer o preconceito e deixa claro que seu maior objetivo é conseguir que as escolas públicas aprendam a trabalhar a diversidade.
Vinda de uma família com tantas carências, de onde você tirou forças para prosseguir com os estudos?
Sou do interior do Ceará e a minha família era trabalhadora rural, que passou por muitas dificuldades. A única alternativa para sair daquela vida era a escola. Eu gostava muito de estudar e sentia a necessidade de ajudá-los de alguma forma. Meus pais também incentivavam os estudos porque era a única maneira de sair daquele sofrimento.
Como seus pais lidavam com o fato de você ser transexual? Eles perceberam desde cedo?
Eles perceberam que eu era diferente e me cobravam uma namorada. Como resposta, eu dizia que não tinha tempo, porque deveria estudar e crescer na vida. Eles acabaram aceitando. O estudo, na verdade, foi uma canalização dessa energia e eu só fui ter um relacionamento homossexual aos 19 anos.
E como era o dia-a-dia na escola?
O preconceito era muito grande e alguns alunos me batiam e me xingavam, mas eu não sabia o que era ser homossexual. Um dia, um colega de sala me bateu e a professora olhou bem para mim e disse: “Bem Feito, quem mandou você ser assim?”. Só mais tarde eu entendi o que ela quis dizer com aquilo.
Você sofria diariamente com as piadas? Tinha amigos?
Tinha pouquíssimos amigos. Quando eu percebi que eu era diferente, eu procurei a religião evangélica. Eu tentei fugir da homossexualidade porque era muito difícil. O mundo estava todo construído para aceitar as pessoas héteros e os homossexuais tinham que ser excluídos, porque eles representam o que é proibido. Relutei para me aceitar, mas não ia ficar fingindo uma coisa que eu não sou.
Existiam professores que contribuíam para que o preconceito diminuísse?
Infelizmente, o curso de formação de professores não trabalha a diversidade, só os conteúdos. Os professores não tinham e não têm esse preparo. Eles acabam passando a compreensão do mundo deles, a de que o mundo é hétero. Por isso, eles acabam, muitas vezes, sendo coniventes com a violência contra os alunos LGBT.
Como professora, também sofreu preconceito?
No começo, os alunos, quando viam que uma travesti daria as aulas de Ciências, achavam que ia ser uma bagunça e desculpa a palavra, uma putaria. Eles tinham a idéia de que travesti é aquele que faz programa, é mal educado e analfabeto. Quando eu chegava na sala de aula, dizia que estava lá para passar conhecimento e não para brincar. Os alunos começavam a ver em mim como vencer na vida. Não importa se a pessoa é pobre, negra, homossexual, ou deficiente físico, ela pode chegar aonde quiser.
O que você acha das travestis que se prostituem?
Assim como eu, minhas amigas sofreram muita discriminação por serem travestis. E se você entra em um local e não é bem tratado, você acaba saindo. A sociedade exclui a travesti do processo, mesmo que a escola diga que é inclusiva.
Qual é a sua função na Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Credi)?
Trabalho com o desenvolvimento pedagógico de 16 escolas. Visitamos todas as escolas e o maior impacto é quando os alunos me conhecem. O caso que me chocou mais foi em Tabuleiro do Norte, quando eu entrei na quadra na escola, os alunos disseram em coro: “Veado, veado”. Eu respirei fundo para não abandonar o barco naquela hora, pois estaria confirmando a ideia de que é correto fazer aquilo. Quando tive a oportunidade, disse que eu era um ser humano que buscava a felicidade e que conseguiu chegar aonde chegou com muita luta. No final, eles se emocionaram e me abraçaram.
Você conseguiu fazer com que pessoas iguais a você continuassem com os estudos?
Com certeza. Como assessora do Credi, eu vi casos de diretores que convocavam pais de alunos para pedir que tomassem providências em relação a seus filhos homossexuais. Um dos primeiros pais chamados veio me procurar. Fui conversar com essa diretora, não como funcionário da Credi, mas como membro da ABGLT. Disse a ela que a escola não está aqui para discriminar os alunos e os pais só devem ser chamados na escola se o aluno tiver baixo rendimento ou estiver infringindo as leis da escola. Ela se desculpou e disse que não tinha conhecimento daquilo. Os professores acabam cometendo atos ilegais por não ter preparo e conhecimento.
Qual o objeto de estudo no seu doutorado?
Estudarei a subjetividade da educação na exclusão de travestis nas escolas. Eu vou estudar o regulamento, o plano político pedagógico da escola, material didático e o fazer da escola em geral para analisar o que tem de exclusão que não está visível.
Explique melhor.
Por exemplo, muitas escolas falam que incluem, mas chega na hora da chamada e o professor não aceita chamar a travesti pelo nome social dela. Existem diversas formas de exclusão que não estão explícitas. Incluir não é ter pena, pois estudar é um direito de todos.
Depois de tanta luta, o que mais te orgulha na vida?
Quando eu entro numa escola e vejo que as pessoas estão lidando uma com as outras com respeito. Se eu chego numa escola e me tratam bem é porque ali estão trabalhando a diversidade.


Assine já a revista 