Márcia Castro
Com repertório inteligente e atitude, revelação baiana está no time das
cantoras transgressoras da MPB
Por Rodrigo de Araujo
Fotos: William Aguiar / Divulgação
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Ao lançar o CD Pecadinho em 2007, a cantora baiana Márcia Castro, 30 anos, deixou Salvador e mudou-se para São Paulo para buscar novos vôos profissionais. Irreverente, descolada e bem articulada, está colhendo rápido os frutos. A cantora recebeu elogios da crítica, foi indicada ao Prêmio Tim desse ano como melhor cantora de Pop-rock e comparada a um time de cantoras como Cássia Eller, Ângela Ro Ro e Aracy de Almeida. Além disso, Márcia tem participado de shows, inclusive internacionais, da diva argentina Mercedes Sosa. Fiquem de olho nessa cantora que, sem pressa, está buscando seu espaço.
Como surgiu seu primeiro CD, o projeto Pecadinho?
O Pecadinho surgiu a partir da conquista do Prêmio Braskem Cultura e Arte, em 2006, uma premiação de maior relevância no cenário independente da música baiana, que incentiva a cultura através do patrocínio de obras inéditas. Eu já vinha pesquisando material para a gravação do meu primeiro CD, só que não tinha recursos para executar essas idéias. Com o surgimento desse edital, pude materializar um processo que começou em 2003, com o show no Arco da Lua, no qual eu cantava músicas inéditas de compositores baianos do circuito independente. Esse show conquistou três Troféus Caymmi na Bahia. Comecei com o pé direito!
Pecadinho soa meio "safadinho". Qual é a relação do seu trabalho com temas de conotações sexuais?

Foi um processo intuitivo. Eu não sabia ao certo qual seria o tema do CD. Eu queria que tivesse um discurso no disco que possibilitasse uma unidade ao trabalho. Pensei que se eu me deixasse aberta às escolhas, inevitavelmente surgiria esse link entre as canções, pois o processo artístico está implicado na vida, e eu estava vivendo tudo de um modo muito intenso. Comecei a perceber que nas canções que eu já havia escolhido, coisas de sedução, de erotismo passeavam de um modo muito sutil. O ápice desse processo foi quando eu escolhi o Frevo (Pecadinho), de Tom Zé e Tuzé de Abreu, que acabou intitulando o CD. Aí, ficou muito claro que esses caminhos da borda, da ambigüidade, da sensualidade estavam impregnados no trabalho.
Você recebeu elogios rasgado da crítica de MPB. Como está sendo colher esses frutos?
O Pecadinho foi muito bem recebido pela crítica do Sudeste. Tivemos essa indicação ao Prêmio Tim desse ano como melhor cantora pop-rock, o que foi uma boa surpresa. Além disso, palavras generosas de jornalistas como Lauro Lisboa, Pedro Alexandre Sanches, Tárik de Souza, Mauricio Kubrusly, Mauro Ferreira e o DJ Zé Pedro. O CD chegou bem e cada vez conquistamos uma coisinha ali, outra acolá.
Apesar de nova, você apresenta em seu trabalho referências de artistas veteranos. Quais são suas influências?
A música esteve presente em minha vida de um modo contínuo. Meu pai, trompetista na adolescência, sempre proporcionou a imersão no universo musical, colecionando vinis, depois CDs e fazendo audições desse material praticamente todos os dias em casa. As audições vinham acompanhadas de explicações, de curiosidades, e canções não somente da MPB, mas do jazz, do blues, do erudito, enfim, meu pai foi o meu tutor musical. Depois, por meus próprios passos, fui descobrindo outras sonoridades como o Rock, o eletrônico, o afro, o Reggae. Tudo isso foi compondo a salada musical que me povoa. Ouço de tudo e cada dia me surpreendo com algo novo que escuto. A música é meu cotidiano.
Zélia Duncan participa do seu CD. Como foi que surgiu esse dueto?
Zélia Duncan participa do CD cantando Barulho. Conheci Zélia através de Roque Ferreira, compositor baiano, autor dessa música, que me deu muita força na época de gravação. Zélia admira muito o trabalho de Roque. Através disso, fiz o convite para Zélia e ela, muito generosa, topou o convite. Foi uma experiência primeira com alguém da MPB nacional. Me comoveu...
Você se mudou esse ano para São Paulo. Quais as diferenças que está sentindo ao viver na capital paulista?
São Paulo é um pólo de cultura, um lugar onde se produz muito e, além de tudo, possibilita a circulação do que se produz como em nenhum outro lugar do país. São Paulo me recebe de braços abertos. Essa é uma característica sedutora dessa cidade. Existe curiosidade, vontade do novo e abertura. Culturalmente, o baiano e o paulista são muito diferentes, em alguns aspectos são até antagônicos. Mas é interessante como essa diferença pode criar algo novo. Não me assusta, ao contrário, me excita.
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Márcia Castro e Mercedes Sosa no Teatro |
Mercedes tem uma força incrível, a voz mais poderosa da América Latina e que cantou a libertação de um povo, que não se rendeu. Ela continua essa mulher guerreira, vitoriosa e, mais impressionante, doce, terna, materna. A abertura que ela teve para me convidar para esses shows, me apresentando de um modo tão afetuoso, é comovente. Um encontro precioso, inesquecível.
E sobre a cena musical da Bahia? Como vê sua geração vindo de um histórico tão rico culturalmente desde Dorival Caymmi, passando por Gal, Caetano, Gil... axé?
Na Bahia existe uma produção absurda do que se diz hoje “MPB contemporânea”, além do Samba, do Rock, etc. Mas carecemos de investimento nos artistas, em projetos que divulguem esses trabalhos para que, assim, comecemos a formar público. É triste saber que temos que sair da Bahia para tocar a carreira de um modo mais confortável, menos desesperado. Não que esteja desmerecendo a importância do axé para a divulgação da música e da cultura baiana. Entretanto, o cenário musical poderia ser um pouco mais democrático. Existe uma nova geração, nomes como Claudia Cunha, Mariella Santiago, Manuela Rodrigues, Luciano Salvador Bahia, Ronei Jorge, Paquito, Mariene de Castro, enfim, uma turma muito bacana que produz muito, que se conecta com uma história de musica baiana surpreendente, mas que carece de circulação do trabalho.
Quem você gosta da música atual?
Eu curto muita coisa. Agora mesmo ouço Fela Kuti. Da música brasileira, sempre Elza, Elis, Bethânia, Cida Moreira, Maria Alcina, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Cássia Eller, etc. Sempre Chico, Caetano, Gil, Tom Zé, Belchior, Itamar, Mautner, Sérgio Sampaio, Cartola. É muita coisa e muita descoberta. Há meses, descobri a fundo Marília Medalha. É muito louco você ter essas boas surpresas. De fora, me impressiona o trabalho de Concha Buika, de Esperanza Spalding, do La Chicana.
Você esteve na última Parada do Orgulho de São Paulo. O que achou do evento?
Fiquei impressionada com a dimensão do evento. Acho que esses acontecimentos são marcos importantes para delimitar e revelar as diferentes formas de estar no mundo como algo possível e rico. É preciso cautela para que não se torne algo panfletário.
Panfletário em que sentido?
É preciso cautela para que não se torne algo panfletário, ou seja, fazer publicidade com o mundo gay e comercializá-lo para que não se perca a conexão com o tom político que a festa propõe. Não se trata de ser um evento mais politizado ou mais festivo, mas o encontro do político com a alegria e estar colocando isso para a sociedade. Nesse viés, acho também que podiam ser abraçadas outras formas de manifestações musicais, não apenas o eletrônico. Musicalmente, a festa poderia propor mais.
Se te oferecessem um carro na Parada para você produzir e fazer a curadoria, o que você faria?
Como baiana e filha de trio elétrico, eu colocaria uma banda tocando nesse carro, música produzida ao vivo. Pode ser Samba, Rock, MPB, Jazz, Blues ou tudo junto. A idéia da vibração ao vivo e da mistura de ritmos me agrada muito.
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