Laura Finocchiaro
Não faço música pela moda. Nunca fiz!
Faço música para a eternidade
Por Rodrigo de Araujo
Foto: Ivan Abujamra
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A cantora Laura Finocchiaro já foi diva underground dos anos 80, quando fez parcerias com ícones gays como o escritor Caio Fernando Abreu e Cazuza. Na década seguinte se tornou cult entre a comunidade GLS ao trazer os beats da música eletrônica para o pop nacional, participar de festivais como o Mix Music e o Mercado Mundo Mix e, também, militar a favor da causa gay.
Agora, aos 46 anos, em uma fase mais madura, mas sem perder a atitude que sempre a consagrou, a cantora lança Lauras, o quinto álbum de sua carreira que troca o rock e o eletrônico por uma roupagem mais acústica.
Nesta entrevista, Laura - diretora e produtora musical do SBT - conta um pouco sobre seu novo trabalho, fala das famosas parcerias artísticas e de suas polêmicas declarações sobre como observa o atual movimento LGBT.
Como surgiu a idéia de um trabalho mais acústico?
Surgiu no início de 2007, quando o jornalista João Luiz Vieira me entregou a letra da música-título Lauras. Depois de quase um ano, Pixinga, o mestre do contrabaixo, com quem venho desenvolvendo um som desde 2004, me deu de presente um violão branco, lindo. Voltei para casa emocionada, de madrugada, e lembrei da letra de Lauras. Percebi que havia chegado a hora de gravar e mostrar as minhas novas composições e de forma acústica. Decidi focar mais em músicas para a alma do que para pista.
Aliás, esse é o trabalho mais diferente de sua carreira, não? Você flerta mais com ritmos como MPB, samba...
Considero esse novo trabalho um dos meus CDs mais "rock", no sentido de feeling e peso. Lauras é pura alma, puro sentimento. Tem um espaço para a improvisação e para o momento. Não abandonei a música eletrônica: utilizei todas as minhas habilidades eletrônicas na pós-produção deste CD. Encontro-me na fase da sofisticação e do refinamento de minha obra musical. Além disso, acho que a música eletrônica caiu numa banalização total. Sendo assim, quis desenvolver um trabalho com muito sentimento, muita alma, muita profundidade. Nosso planeta está precisando disso: menos artificialidade, mais honestidade!
O que significa o título Lauras?
Filosoficamente falando, simboliza a pluralidade. Não dá para seguir dividindo as coisas de uma forma simplista, entre o "Bem" e o "Mal". Desta forma, me sinto livre para ser tudo o que posso ser! Já na visão do autor da letra, Lauras simboliza um encontro entre duas mulheres amantes e livres!
Por que decidiu regravar algumas músicas de outros trabalhos, por exemplo?
O primeiro motivo é que sigo tocando elas em meus shows. Como desenvolvi novos arranjos, achei interessante regravá-las e apresentar ao público novas versões para minhas próprias composições.Também acredito que música é como vinho. Quanto mais velha, melhor! Por isso, posso cantar e tocar sempre minha obra, pois quando algo é verdadeiro e consistente com certeza permanece! O segundo motivo foi por ter consciência de que meus CDs anteriores nunca foram devidamente distribuídos e divulgados.
Uma das regravações de Lauras, aliás, chama-se Tudo é Amor, uma parceria com Cazuza e que também foi gravada pelo Ney Matogrosso. Como tudo isso aconteceu?
Como podem notar, minha história é sempre ao lado dos "abençoados malditos". Cazuza foi ao clube Madame Satã, numa madrugada dos anos 80, e lá me viu cantando e tocando guitarra. Comentou que tinha adorado para uma amiga em comum e ela fez a ponte. E foi assim: ele escreveu a letra, me enviou e nasceu o nosso "filhote". Havia uma outra, que estava no forno. Ele disse que estava escrevendo, mas esta letra não deu tempo dele me entregar. Quando vi, ele gravou Tudo é Amor em seu LP Burguesia e, pelo visto, Ney Matogrosso gostou, pois regravou logo em seguida, num LP que chamava Quem não vive tem medo da morte. Com este trabalho, tive o prazer de encontrar Cazuza em algumas de suas visitas a São Paulo. Ele era com um vulcão! Sua imaginação e sua poesia jorravam a cada idéia que desenvolvia. Foi uma grande honra ter estado perto desta figura ímpar, 100% exagerado! Por isso, pela pessoa de quem se trata, achei que deveria apresentar e fazer as pessoas escutarem novamente o que ele escreveu nesta canção. Para mim, esta letra é uma "obra-prima", ainda necessária para os dias de hoje.
A música Jacira Vira é uma de suas parcerias com o escritor Caio Fernando Abreu? Conte-nos sobre sua relação de amizade com ele.
Esta composição é minha e me inspirei em sua personagem Jacira. É uma música sobre uma drag queen. Caio era calmo e sarcástico ao mesmo tempo. Tinha um humor picante e com isso desenvolveu seus personagens. Ele me acolheu nos anos 80 quando cheguei em São Paulo, vinda de Porto Alegre. Ele sempre brincava quando via uma "bichinha" reprimida, dizendo "Jacira", num tom agudo. Quando Caio chegou em estado terminal [por conseqüência do vírus da aids, que o matou em 1996], fui visitá-lo no hospital e lá ele me disse – num tom profético – que as coisas estavam muito superficiais e que precisávamos colocar mais profundidade e sinceridade em nossas relações. Ou seja, ele já havia virado um anjo!
Mas você concorda que a liberdade para a comunidade LGBT é muito maior hoje, né?
Os tempos mudaram, mas isso não quer dizer que não existam mais "Jaciras" por aí. Estão travadas, reprimidas, porém loucas para se libertarem, se assumirem e, como diz a letra da música, virarem uma "flor". Acho, inclusive, que o tema da aids e da repressão é 100% pertinente nos dias de hoje e esta canção tem a intenção de mexer com estes valores. O nome original de Jacira era Jacira Num Selvagem Verão, querendo mostrar que a gente brinca, mas estamos em tempos difíceis, em tempos de aids e muito preconceito. Além disso, não faço música pela moda. Nunca fiz! Faço música para a eternidade. Com relação ao mundo GLS e as drags, acho que, por termos conquistado espaço e visibilidade, o movimento hoje é outro. Não precisamos mais nem da Parada, pois conseguimos o respeito, apesar do preconceito e das repressões. Além disso, o pink money apareceu fortemente e acho que ele afastou a alegria e o espírito de irreverência com esta "estruturada" financeira que o movimento alcançou. Ele deixou de ser espontâneo e passou a ser comercial nas mãos de pessoas que só pensam em lucro e esquecem de que nada é possível sem a verdadeira motivação: o amor!
Você, aliás, foi uma das primeiras artistas a abraçar publicamente a luta pelos direitos gays, desde as primeiras Paradas do Orgulho de São Paulo...
Quando dispus minha música e minha arte, de corpo e alma, ao movimento LGBT, minha motivação era uma: abrir o coração das pessoas para o respeito ao amor livre. De lá para cá, meu orgulho só cresce, pois vejo que colaborei de fato para este resultado que está aí. O espaço está conquistado e as gerações atuais já não precisam mais lutar como nós. Basta seguir levando o barco, batalhando pela aprovação de leis, pois o respeito da sociedade, de uma certa forma, está conquistado. Falando da Parada em si, vejo que ela perdeu a alegria e a modernidade. Ela caiu nas mãos de gente cafona e de políticos que a estão usando para se projetar. Acho que nem precisamos mais dela! Melhor, em minha opinião, deixar quieta, na lembrança. Mas como ela gera muito dinheiro, sei que continuará. Mas sem mim, é claro!
Para finalizar, mande um recado para nossos leitores e diga onde podemos encontrar seus novos trabalhos.
Quero deixar uma palavra de força e de alegria. Precisamos disso no dia-a-dia. Precisamos lembrar que a vida é um dom, uma arte. Sobre Lauras, curtam muito. O CD não tem um estilo definido, a não ser a minha marca como compositora, cantora, guitarrista, produtora e arranjadora. O som é corajoso! Achei necessário colocar canções inéditas, pois atualmente as pessoas só vivem de regravações, sem coragem de propor algo novo. O CD é distribuído pela Velas e pode ser encontrado em lojas de todo Brasil. As faixas podem ser compradas pela Megastore do UOL e para quem estiver "duro", mas quiser curtir meu som, entre em meu site e se delicie à vontade! Beijos!


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