Bella Guima
Toda pessoa é bípede. Se é negro, se é gordo, se é gay, se é lésbica, o que muda?
Por Gustavo Ranieri
Sentimentos intensos são o combustível da roqueira Bella Guima. Dona de uma voz grave poderosa, ela sempre está disposta para o novo e rejeita rótulos ou obrigações. Cabelos encaracolados, olhar altivo, três filhos, oito gatos, professora de canto, artista plástica e, como diria Cazuza: ela ainda tem tempo para cantar.
Em fase de conclusão de seu segundo álbum solo e aos 42 anos de idade, Bella vive uma fase madura, entra em seu 10º ano de carreira musical, depois de já ter modelado por outros 10 anos e trabalhado como atriz na TV. A relação com a comunidade LGBT começou principalmente em 2002, quando participou do Mix Music 2002 (braço musical do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual). Com covers de Cazuza e Cássia Eller, além das músicas de seu primeiro álbum - como TPM e Ajoelha e Reza -, Bella despontou e já é carta certa em diversos eventos da diversidade.
Aliás, em maio passado a roqueira foi mais longe e durante um show na 8ª Feira Cultural LGBT, na Praça da República, em São Paulo, levou ao palco duas garotas vestidas de noiva para encenar um casamento. O motivo? Cobrar direito plenos.
Bella é assim, forte e direta, ou como ela mesmo se define: basicamente uma humana feliz, emoção pura.
Além de cantora, você é compositora, atriz, modelo... Conte um pouco sobre essa sua característica de artista multifacetada.
É um pé na arte desde que eu nasci, comecei a crescer já percebendo que tinha essa ligação com a arte, desde sempre. Desenho, pinto, toco,canto, daí acabei sendo modelo durante 10 anos, viajei, fui morar na Espanha. Daí quando eu voltei em 1990 o Walter Avancini me chamou para participar de Brasilieros e brasileiras, no SBT. Mas a música sempre foi o mais forte. É o que eu faço, mesmo que eu não esteja fazendo, ela está fazendo em mim.
Mas como a música surgiu durante a sua vida? Em que idade?
Minha mãe me deu um violão aos 11 anos e eu me profissionalizei há nove anos, eu estou indo agora para o 10º ano de carreira.
Você sentiu medo alguma vez de sua carreira não ir para frente e você não poder mais cantar?
Sinto até hoje. Medo faz parte do ser humano, faz parte de todo o processo. O medo é um obstáculo a ser vencido. É um risco do negócio, aquele frio na espinha.
Você já declarou que não gosta de rótulos. Mas você se define dentro de uma orientação sexual?
Eu realmente não gosto de rótulos. Toda pessoa é bípede. Se é negro, se é gordo, se é magro, se é gay, se é lésbica, o que muda? O que muda na minha vida, o que muda na sua vida? Sabe, as pessoas tem direito de existir da forma como querem. Mas para que rotular dizendo aquele é assim, aquele é assado, para quê? Se um cara é gay, por exemplo, e um dia vê uma mina que mexe com ele e ele passa a gostar dela, isso não pode? Eu vejo que esse "ser" alguma coisa é muito sério. Eu acredito que todos "estão" e não "são".
Como que rolou essa sua relação e identificação com o público GLS?
O começo de tudo foi a sinceridade. Eu participei do Festival Mix Music em São Paulo, em 2002. A partir dali começaram os convites. Mas tem também o timbre da voz, eu percebo que o timbre mais grave agrada o público GLS.
Como você observa o movimento LGBT?
Eu observo com muita torcida. Durante a Feira Cultural GLBT desse ano o tema era a luta por um Estado laico de fato e eu fui procurar a respeito e descobri que o Brasil foi o precursor ao colocar no congresso em 1995 um projeto de parceria civil [PL 1551/95, de autoria da então deputada Marta Suplicy (PT-SP)], que até hoje não foi aprovado, enquanto outros países já deram esse passo a frente. Eu acho muito irônico, como é que pode um país que tem a maior parada do mundo ainda não ter um projeto desse aprovado?
Aliás, você simulou uma cerimônia religiosa de um casamento lésbico no show da última Feira Cultural. Por quê?
Eu fiz por que descobri que haveria no mesmo dia uma benção simbólica de um "casamento" gay. Daí eu pensei: bacana, é lindo, mas cadê o direito no papel? Na época em que fui modelo eu trabalhava junto com maquiadores e muitos são homossexuais. Eu cansei de ver casais construírem coisas bacanas, marcas famosas e, de repente, um morre, a família do outro vem e deixa o cara zerado. Hoje tem os contratos de sociedade, mas porque não a união civil mesmo, o casamento?
Você é religiosa?
Eu acredito muito, muito mesmo em Deus, sinto, percebo que ele existe, já figurei em várias religiões, mas acabei por perceber que existe muita hipocrisia. Então fico na minha quietinha, buscando me tornar um ser humano melhor.
Você ficou bastante conhecida dentro da comunidade por fazer shows-tributo a ícones como Cazuza e Cássia Eller. Você está preparando um CD, esses compositores vão entrar nesse novo trabalho?
Agora são musicas próprias, e o Arnaldo Black, de quem eu gravei a música Ajoelha e Reza no meu primeiro disco, está de volta com uma música nova já pensando em Bella Guima e se chama Veneno. Vou gravar uma do Paulinho Moska e outras surpresas. O álbum vai se chamar Na medida.
E sai por qual gravadora?
A gente está no independente, eu não consigo mais acreditar na questão gravadora. Por causa da pirataria, acho que elas já não fazem mais como era antes. O mercado independente está muito forte, você coloca na internet e disponibiliza e todo mundo ouve.
Falando nisso, você é contra a pirataria?
Sou contra essa pirataria que tira de quem faz o disco, que investe. Agora, você gravar o seu disco e disponibilizar na internet para as pessoas ouvirem de graça, isso não.
Você deseja a fama, o reconhecimento do grande público, ou gosta do show mais intimista, reservado?
Eu gosto de trabalhar, de tocar, de cantar, se a fama vai vir por conta disso, é bem-vinda, mas o alvo não é esse, o alvo é trampar, tocar de quinta, sexta e sábado em vários lugares, eu gosto disso. Eu me dou bem cantando para 100 pessoas num barzinho intimista e faço na Praça da República para 50 mil pessoas. Gosto de ver a galera vibrar.
E o que você curte ouvir atualmente, existem ainda cantores com tantos sentimentos como Cazuza e Cássia?
Se você vai no My Space acha muita coisa legal que não está na mídia. A mídia coloca coisas só para a grande massa ouvir, tipo o Créu. Não é julgamento, mas é uma diferença muito grande do Créu para as músicas do Cazuza. Eu penso que o Lenine é muito bom, ele compõe coisas muito profundas, gosto do Arnaldo Antunes, ele tem uma visão bem louca. Dessa galera que invade esse mercado tem o Marcelo D2... eu gosto dele.
Como é a Bella Guima fora dos palcos?
Minha vida cotidiana é confusa. Não tenho muito horário definido, às vezes eu durmo mais tarde porque tive mais inspiração, tem outro dia que durmo mais cedo, mas nos dias básicos eu acordo, me sintonizo, programo o meu dia, adoro dar um rolê de bike. Dou aula de canto no meu estúdio, daí se eu não estou tocando, eu estou ouvindo, se não estou criando, gosto de pintar, e tenho três filhos - gêmeos de 13 anos e uma menina de 12 -, dois deles são músicos também, então tem essa função materna que é uma rotina, não acaba nunca. Ah, e agora tenho oito gatos (risos).
Você é uma defensora do feminismo? Participa de movimentos sociais?Não, feminista não. Mas sou socialmente ativa, sempre com preocupação. Devemos lutar para comunidade LGBT sair toda do gueto. Enquanto houver guetos, não haverá respeito igual.
Você já sofreu algum tipo de discriminação?
Já, já senti por ser tatuada, por exemplo. É incrível, hoje as coisas se abriram, mas teve época que a tatuagem era marginalizada. Já fui discriminada por ser roqueira, mulher madura fazendo rock, por usar piercing. Mas não me importo muito não, porque estamos aqui para aprender. Se alguém quer julgar minha pessoa, que fique lá julgando e achando.
Porque resolveu sair de São Paulo e batalhar a carreira vivendo em Extrema, no sul de Minas Gerais?
Eu nasci em São Paulo, aqui me criei, sou metropolitana, adoro, mas a época que vivi na moda foi muito intensa, foram 10 anos e um pique alucinante de viagem. Eu fazia a mala, desfazia a mala e foi assim. Saí, morei fora e quando voltei uma amiga me chamou para ir à Extrema no fim de semana. Chegamos de noite e não vi nada. Mas de manhã, quando abri os olhos, vi aquilo e fiquei pasma: céu azul, ar puro, sem buzina, porque não tem farol, a casa que estava não tinha nem energia. Daí pensei, vou ficar por aqui alguns dias, e já faz 15 anos (risos). Cheguei a comprar um sítio, tenho uma casa na cidade, é pertinho, é quintal de São Paulo, são 100 Km.
Como você educa os seus filhos com relação a diversidade sexual?
Com informações diversas, mostrando que é assim que é, quanto mais tempo você demorar para aceitar, mais sofrível será sua existência porque a vida é assim. de fato isso "é" e não "estar". Você vai se deparar com desigualdades, questões raciais, sexuais, grana, então você entende isso e vê que não precisa fazer uma escolha para fazer parte de um grupo, mas que você pode transitar por todos se for necessário.
Você acha que é papel do artista homossexual se assumir, ou cada um deveria ficar na sua?É uma escolha, cada um tem uma escolha, se ele tem vontade, necessidade e sente bem com se assumir, tudo bem, mas não por pressão social. A Cássia assumia o lado dela, tinha a mulher dela, tinha um filho, teve namorada, teve amante, teve tudo, mas você precisa ficar falando disso? Pra quê? Pra que ter essa necessidade. Então se hoje o presidente da República se assumisse gay, o que mudaria na nossa vida? Uns ficariam com raiva, outros iam comemorar, mas daí só porque ele se assumiu você ia se assumir também?
Algumas de suas letras falam de sentimentos turbulentos, relações tristes. São essas emoções que impulsionam as boas músicas?
Também, eu não posso negar que tem uma musica que eu fiz que eu tava fechada para balanço, que estava bem down, mas eu gosto muito da ironia também. Eu sei compor se eu estou feliz.
Você se considera sentimental, acredita no amor?
Sentimental sim, pra caramba, eu sou 100% emoção, emoção pura. Mas o amor eu me pergunto, o que é de fato o amor? Eu tenho um pouco de ressalva com relação a palavra, apesar de acreditar e percebê-lo como uma coisa incondicional. Esse amor encanta, esse amor da doação, da existência plena, mas não o amor que escraviza, aquele cheio de imposições, que é castrador e todo mundo sofre. Eu me considero uma pessoa super feliz comigo hoje e tenho plena consciência de que sou um ser mutante. Cada dia é diferente e eu sou feliz.
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Rapidinha com Bella Guima... |


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