Fernando de Alcântara Figueiredo
Quebrando o silêncio
Por Gustavo Ranieri e Rodrigo de Araujo
Foto: Gustavo Ranieri
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O agora ex-sargento fala do preconceito dentro do Exército, do amor que sente pelo sargento Laci e afirma que as acusações que pairam sobre seu companheiro não passam de uma farsa da corporação para encobrir a hom |
Os sargentos Fernando de Alcântara Figueiredo e Laci Marinho de Araújo são da mesma turma de formação no Exército, a turma de 1992, só que Fernando veio de Juiz de Fora, e Laci, de Três Corações, ambas cidades mineiras. Os dois se conheceram em dezembro de 1995, no Batalhão da Guarda Presidencial, em Brasília. Dois anos depois, já dividiam um apartamento na capital federal. O relacionamento era aprovado pela família de ambos e, embora não fossem assumidos dentro da instituição militar – e apesar das “suspeitas” dos colegas – eram muito respeitados.
A situação, entretanto, mudaria totalmente onze anos depois, em outubro de 2006, quando um tenente teria cometido, repetidas vezes, assédio de cunho moral contra Laci. O ambiente dentro da corporação não era mais o mesmo. Laci e Fernando alegam que eram alvo de chacotas e ameaças por parte dos colegas e superiores. Para agravar a situação, o Exército desqualificou uma patologia identificada em Laci, que, desde 2003, teria passado a sofrer problemas neurológicos depois do diagnóstico de esclerose múltipla. Num ato de desespero e para preservar sua integridade física, os sargentos resolveram ir à mídia e escancarar a situação.
Ao estamparem a capa da revista Época com a chamada “Eles são do Exército. Eles são parceiros. Eles são gays”, o Brasil começou a compartilhar sua história. O que aconteceu, desde então, foi amplamente exposto pelos jornais: uma seqüência de polêmicas que incluem a prisão de Laci, acusado de deserção, as duas prisões de Fernando, sob a alegação de aparecer na mídia sem autorização, com farda modificada e de omitir informações sobre o paradeiro de seu companheiro.
Um mês depois do acontecido Fernando pediu baixa de suas funções. Agora, luta para provar a inocência de seu parceiro (libertado da prisão no final de julho passado), acusa o Exército de discriminação e afirma: “Tudo isso é uma farsa para encobrir essa homofobia estatal”.
Vocês alegam terem sido vítimas de discriminação e violação dos direitos humanos. As Forças Armadas dizem que vocês violaram o código de ética do Exército e os acusam de deserção...
Nós estamos nos baseando em fatos e provas. O Exército só emite notas, mas omite da população o fato de termos relatórios médicos que comprovam incapacidade e debilidade física para o Laci. Inclusive, esse relatório foi feito por um neurologista civil, e ele tem sido descartado pelas autoridades militares. Na verdade, tudo isso é uma farsa, um mascaramento da homofobia estatal. Nosso caso não é isolado, é apenas um que se destacou e que, de repente, pode servir de parâmetro para outras pessoas que lá dentro também são perseguidas. O grande medo do Exército é que haja um levante e que essas pessoas se encorajem para o nosso lado e comecem a mostrar realmente a farsa homofóbica da instituição.
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Foto: Gustavo Ranieri |
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Pelos laudos médicos, o Laci tem exatamente o quê?
Uma investigação neurológica concluiu, em outubro de 2006, que ele tem esclerose múltipla. Além disso, ele começou a desenvolver um quadro de pânico e de transtorno emocional grave. Ele achava que a carreira no Exército e de cantor na banda cover de Cássia Eller que ele possui, já tinha se encerrado. Para o Exército, para você estar comprovadamente doente, tem que estar sangrando. Eles querem uma debilidade física mesmo.
De quem partiu a idéia de se assumir publicamente?
De ambos. Mas, quem tomou a iniciativa fui eu. Conversei bastante com ele sobre o assunto e deixei bem claro que ele ia ser colocado como desertor. Mas, naquela ocasião, achei que a exposição pública ia ser benéfica para nós. Vimos que o público podia nos proteger de toda uma perseguição e buscamos a imprensa num ato de desespero. Tomei a iniciativa de ir até a revista Época, e eles se mostraram solidários à causa. Realmente viram que a primeira exposição de um casal militar homossexual a assumir, ainda na ativa, seria interessante para começar a quebrar os paradigmas.
Até que ponto os militares já sabiam desse relacionamento? Como era o tratamento dado a vocês?
No Exército, existe uma cobrança muito grande para você casar e ter filhos e, assim, ser considerado um bom profissional e ter uma carreira firmada. Por isso, tanta gente se mascara numa realidade que não é a dela. No nosso caso, os comentários existiam, alguns sutis, outros em tom de piadinha. Tinha ainda o fato de o Laci ser um artista e, por isso, já era visto na instituição como homossexual. Mas, para eles, oficialmente, éramos bons amigos e vivíamos juntos. Éramos bastante respeitados, mas tudo mudou a partir do momento que surgiu um certo cidadão lá, um tenente, e acabou cometendo vários assédios de cunho moral contra o Laci. Contudo, esse tenente, que não aceitava ter um sargento músico, começou um processo de desqualificação e descrédito com relação à patologia dele.
O que mais o marcou desde que saíram do armário?
Foi o contra-ataque da instituição. Porque acreditei que iam se resignar e tentar um entendimento político para que, dessa forma, chegássemos a um denominador comum. Ou seja, o Laci sairia tratado, pois, se entrou sadio, tem que sair sadio da instituição. Eu iria pedir pacificamente meu afastamento do exército, e o Laci também pediria baixa. No meu entender, a instituição foi na contramão dos tempos modernos. Foi buscar no passado recente os meios e a conduta para pressionar-nos e expurgar-nos dela.
Os políticos a que recorreram em Brasília estão ajudando?
Temos uma ajuda muito grande no nosso caso do pessoal do Condep (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana), particularmente do Dr. Ariel e do Dr. Lúcio França, que são os nossos heróis nessa história. Não fosse a intervenção deles naquele canal de televisão, não sei se realmente estaria dando essa entrevista aqui. Dos parlamentares, estamos recebendo muito apoio de senadores, através de uma comissão liderada pelo senador Eduardo Suplicy. Eles têm feito um trabalho corpo-a-corpo de acompanhamento político; o Conselho Nacional dos Direitos Humanos também tem trabalhado nesse sentido. Só que, a meu ver, as ações ainda não são suficientes para interromper esse processo, pois já existem provas suficientes de que o Laci não é desertor. Mas, como já fugiu da esfera administrativa e agora está na esfera judicial, temos que esperar a decisão da justiça militar, para só depois recorrer à justiça civil.
Judicialmente, com você, pode acontecer alguma coisa?
Fui acusado de três fatos. O primeiro, por dar entrevista com uniforme irregular sem autorização. Os outros dois, por não dar paradeiro de desertor e por viajar e faltar ao expediente. A primeira acusação eu rebati, pois não estava com uniforme; o que eu usava eram só algumas peças compradas no comércio. Era apenas para parecer um militar. Quanto à outra acusação, o próprio código militar, no artigo 69, fala que a pessoa que vive conjugalmente com o desertor está isenta de pena. Com relação à acusação da falta ao expediente, se o próprio Exército me autorizou a acompanhar o caso de Laci, no hospital, em São Paulo, como depois me acusa de algo que me permitiu?
Recebeu qual tratamento na prisão?
Não fui torturado como o Laci, torturado fisicamente e psiquicamente. [A seguir Fernando descreve o tratamento recebido por Laci enquanto esteve preso:]Não o deixam dormir, cortam refeições, deixam-no sem agasalho no frio, fazem inspeções íntimas constantemente, cortam leitura, batem nas grades pra evitar que ele durma! Já meus constrangimentos eram semelhantes aos de um tratamento dado a uma pessoa que estivesse numa prisão de segurança máxima, como se fosse um preso de alta periculosidade.
Seus recentes comentários sobre tortura, aliás, geraram muita polêmica...
Essa denúncia eu fiz ao Conselho Nacional de Direitos Humanos. O Laci fala que foi torturado, eu falo que ele foi torturado, e o Exército nega tudo. Não tem cabimento isso, se eu mesmo já sofri tortura dentro da instituição. Na nossa formação, existe uma instrução chamada guerrilha e contra-guerrilha, na qual somos torturados para aprender técnicas que podem ser usadas contra o inimigo, em caso de captura. E até mesmo se nós viermos a ser capturados, para termos uma conduta e não dedurar.
Nos EUA existe a política “Don’t Ask, Don’t Tell”, para que militares gays não se assumam publicamente. No Brasil, embora não exista a política explícita, ainda assim ela é aplicada?
Existe uma determinação para que isso fique muito reservado. Mas existem casos de pessoas que afloram sua sexualidade e a conhecem desde muito cedo; e você não pode impedir ou reprimi-las. Quando isso é identificado, a própria instituição faz que essas pessoas sejam expurgadas, normalmente no término do serviço militar obrigatório.
E assédio, sofreu muito?
Já disse que cheguei a ser assediado desde a mais baixa até a mais alta patente da instituição. Isso é fato e é normal, ainda mais num ambiente onde existem muitos homens. É impossível que no meio de dois mil homens nenhum seja homossexual.
Não foram poucos aqueles que os criticaram por exporem detalhes íntimos, como o comentário de que era uma delícia tomar banho no Exército, junto com homens sarados...
Que me perdoem as pessoas que comentaram esse fato, mas considero um ato de extrema hipocrisia. Se você é heterossexual e vai a uma determinada área onde existe um grupo de mulheres, os comentários serão, normalmente, de que aquilo é um tesão. O que o Laci quis expor, e que acabou chocando, é que o homossexual, assim como o heterossexual, dependendo do ambiente, vai sentir atração sexual por aquelas pessoas do conjunto. Como existe uma concentração muito grande de homens e por causa do convívio, da intimidade, entrar no alojamento e ver um monte de homens pelados, segundo ele, seria um paraíso. E não deixa de ser, porque entre tantos homens existem os que te atraem.
Após o caso ser resolvido, pretendem continuar a batalha para ajudar outros militares que podem passar por situação semelhante?
Primeiro, vamos provar que o Laci não é desertor e que o processo de deserção é uma farsa para encobrir essa homofobia. Vamos provar isso, mesmo que não seja na esfera da justiça militar, mas numa instância superior, mesmo internacionalmente falando. E eu vou exigir que o Exército devolva o Laci para a sociedade civil sadio. Depois disso, a intenção realmente é fundar uma organização para que a gente defenda os interesses de pessoas que são perseguidas dentro das Forças Armadas.
Gostaria que a história de vocês se tornasse um livro?
Sim, eu ficaria muito lisonjeado. Eu acredito que um livro ficaria como um registro histórico e beneficiaria outras pessoas que têm passado pelas mesmas aflições que nós dois.



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