Antônio Bivar
Todo mundo é meio bissexual hoje
Por Ferdinando Martins
Divulgação
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Bivar é uma personalidade ímpar na cultura brasileira. Basta observá-lo para ver um homem muito bonito, elegante, sereno, de voz firme e máscula. Para quem não o conhece, talvez seja difícil imaginar que ele é um dos maiores expoentes da contra-cultura no Brasil. Dramaturgo central na história do teatro brasileiro, Bivar também foi diretor de shows de Maria Bethânia e Rita Lee, escreveu livros (O que é punk, da Editora Brasiliense, entre outros), viajou muito, trabalhou como jornalista. Cordélia Brasil, peça que escreveu em 1967, ganha agora nova montagem, dirigida por Gilberto Gawronski e com Maria Padilha no papel-título. O texto, segundo o professor e crítico Sábato Magaldi, é "um clássico do moderno repertório teatral brasileiro".
Nesta entrevista, Bivar comenta sobre a peça e sobre a geração de autores que renovou a dramaturgia brasileira no final dos anos 1960, como ele mesmo, Zé Vicente (autor de Santidade) e Leilah Assumpção.
Bivar, quantas Brasis há em Cordélia Brasil?
A peça tem aquela coisa da época, mas tem também sua atualidade. Eu vejo nas ruas, hoje, várias Cordélias falando no celular. Antes, nos anos 1960, muita gente não tinha nem condições de ter telefone em casa, mesmo gente que trabalhava com teatro. Hoje, aqui mesmo perto de casa eu vejo essas Cordélias. Lá na Canuto do Val [região com vários bares e restaurantes, a maioria de propriedade da empresária Lílian Gonçalves, em Santa Cecília, centro de São Paulo], tem muitas dessas moças, meio putas, meio Cordélia. Tem também a questão da celebridade, que hoje é quase uma doença. O Leônidas (personagem de Cadu Fávero na atual montagem) queria se preservar jovem para quando chegasse sua vez de ser famoso. Cordélia diz na peça que, ao menos, ela tem fotografias feitas por um americano que lhe pagou dez dólares para ficar para a eternidade. Tem a Tiazinha [Suzana Alves] e outras dessas que aparecem da noite para o dia...
Pois é, mas a impressão que se tem é que essas pessoas entenderam o recado de Andy Warhol pela metade. Todos terão seus quinze minutos de fama, mas se esquecem que só irá durar quinze minutos...
Eu me lembrei da Tiazinha porque li recentemente que ela está estudando teatro, parece que com o grupo Tapa. Eu me lembro que quando ela surgiu no programa do Luciano Hulk meninos do curso primário faziam fila para comprar a Playboy que ela posou.
De qualquer forma, há alguns personagens que aparecem em suas peças como se fossem arquétipos de tipos que circulavam nos anos 60, 70 e até hoje. Esses tipos realmente perambulavam nessa época?
Era assim. A peça é carioca, eu morava no Rio. Terminei de escrever numa viagem de ônibus. Eu tinha 27 anos, mas me sentia ainda adolescente. Criei a partir de gente que conhecia. A Cordélia mesma eu me baseei em uma amiga que tentou ser pintora, mas não deu certo. Tentou ser atriz, fez espetáculo da Ruth Escobar, mas também não deu certo. Soube outro dia, conversando com o Zé Celso [Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina], que ela havia morrido. Já o Zé Vicente começou a escrever por minha causa. A gente via muito teatro, líamos muito, discutíamos Harold Pinter, Samuel Beckett, Edward Albee. Tínhamos muitos muros, mas a gente se libertava e fazia teatro quase como um panfleto. Havia o espírito da época, mas que continua de algum modo. Hoje, a competição é maior e os talentos estão menos travados.
Entre os personagens Leônidas e Rico há um erotismo que não se concretiza. Isso foi por restrição da época em que foi escrita?
O Leônidas é um assexuado. A direção do Gilberto [Gawronski] puxou para essa associação de erotismo. Mas todo mundo é meio bissexual hoje. Os rapazes sentem isso, que liberou um pouco. É uma energia libidinosa que corre mais que a coisa prática.


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