João Silvério Trevisan
"Amo amar os homens"
Por Gustavo Ranieri
Fotos: Haroldo Pereira Jr.
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O pioneiro do movimento GLBT brasileiro e hoje dono de uma obra literária que investiga, como ninguém, o universo gay fala de sua vida, suas paixões e suas idéias |
Escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e pioneiro no ativismo GLBT brasileiro. São tantas e tão múltiplas as atuações e intervenções de João Silvério Trevisan no cenário cultural nacional, que tentar sintetizá-las em poucas linhas tange quase a blasfêmia.
Mas se há algo que une todos os Trevisans é o exercício do livre pensamento e a luta incansável pela livre expressão de seu amor. Amor que defende com unhas e dentes desde que se assumiu homossexual, após deixar o seminário e entrar em contato com o movimento gay nos Estados Unidos nos anos 70. Na mesma década, ainda durante a ditadura militar, fundou em São Paulo o grupo Somos, precursor da militância homossexual no Brasil, e o vanguardista jornal Lampião da Esquina, junto com outros nomes que posteriormente também se tornariam célebres como Aguinaldo Silva e Peter Fry. Numa época em que mal se falava de homossexualidade, o jornal, assumidamente gay, influenciou e motivou toda uma geração.
Autor de Ana em Veneza, um livro sobre o exílio, que ficou marcado como sua obra-prima, ele também nos brindou com várias obras sobre a temática gay, incluindo o livro que é considerado uma bíblia da homossexualidade no Brasil, Devassos no Paraíso, que aborda a história gay no Brasil do período colonial aos dias de hoje. “Escrevi o livro para me entender e também o meu país em relação à homossexualidade”, diz, modesto, o escritor, para logo questionar que é muito menos lido do que deveria, tendo em vista sua importância no sentido de conscientizar a população. Assim é o homem Trevisan, que hoje, aos 63 anos e em seu melhor momento, permanece simples e afetuoso, mas briguento e ousado para defender o que acredita e a quem ama. Algo que fica mais que nítido em nossa entrevista.
Você estudou em seminário. Chegou seriamente a pensar em ser padre?
Eu tinha a intenção de ser padre, estudei durante 10 anos. Mas, quando me vi imerso nas contradições da igreja, não tive outra escolha a não ser abandoná-la. No seminário não havia descoberta sexual, mas havia descoberta amorosa. Uma descoberta muito, muito dolorosa e extraordinariamente fascinante. Mas no coração daquela possibilidade havia uma puta contradição que era o pecado e que me estilhaçava. Quando eu dizia, “padre, não agüento mais, meu pinto está doendo, meu saco está doendo, eu fico 24 horas por dia de pau duro pelo Davi e não posso nem me tocar”, ele dizia: “não se preocupe meu filho que isso passa”. Claro, não passava.
Essa paixão platônica teve uma resposta?
No mesmo nível. Nós saímos juntos do seminário apostando quem iria começar a namorar primeiro uma mulher. A inocência chegava a esse ponto. Um dia ele esteve em minha casa, meus irmãos tinham viajado, ele me disse: “estou querendo fazer sexo com você”. E eu, embora fosse muito mais sexualizado do que ele, não tive condições para dar outra resposta a não ser a mesma do padre: “se nós fizermos sexo vai acabar nossa amizade”. A partir daí, fomos nos afastamos. Depois ele engravidou uma menina, fui ao casamento dele, teve vários filhos.
Você saiu do seminário com a intenção de se descobrir?
Um dos motivos que me levaram a sair foi a homossexualidade Estava com a cabeça rodando a mil, mas foi uma sábia decisão. Como eu iria resolver isso sendo padre? Nunca mais me passou pela cabeça voltar. Mas não foi só isso: a idéia de Deus sofreu uma puta revolução na minha cabeça, assim como minha posição perante a igreja. Quando mais tarde, transei duas vezes com um seminarista, perguntei para ele: “não tem medo do que pode acontecer com você?” Ele me respondeu que a igreja não tinha nada a ver com a sua vida pessoal. Um tempo depois, foi posto para fora. Obviamente, deve ter continuado a ser homossexual, até porque era um puta demônio na cama.
Mas a contradição está por toda instituição. Os casos de pedofilia entre padres, por exemplo...
Eu defendo a tese de que os padres não são pedófilos. Para mim, eles são homossexuais realizando seus desejos com quem está mais próximo. Creio que o desejo vai se moldando para o bem e para o mal. No meu livro Seis Balas Num Buraco Só, cito o exemplo de Glauber Rocha, que dizia ter paixões, não sei se consumadas ou, como acredito, paixões platônicas. Ele ficou apaixonadíssimo pelo Paulo Cesar Saraceni, mas o problema, ele próprio dizia: “tenho aversão pelo corpo masculino”. E o que é essa aversão a não ser um resquício do machismo? São sempre imagens que orientam seu desejo. Psicológica e culturalmente, o Glauber não tinha condições de se encantar com um homem.
Se pudesse mudar algo no cristianismo, o quer seria?
Olha, não tem como mudar. Fiz um romance, o Em Nome do Desejo, para mostrar a contradição em termos que é o cristianismo. Se a mensagem principal, a síntese, fosse levada até as últimas conseqüências, o mundo teria sofrido uma revolução, mas é impossível levá-la até as últimas conseqüências. O meu personagem, um garotinho, ao se apaixonar pelo colega, pergunta: “mas a mensagem cristã não era ‘amai-vos uns aos outro’? Então qual é o problema de eu amá-lo? Não é esse o amor de Cristo?” Ele não consegue entender, justamente porque vive a mensagem cristã na sua prática afetiva e inclusive no seu desejo. A igreja não tem futuro. E, se tiver, tem futuro como uma instituição apodrecida.
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Trevisan, em 1986, lançando seu livro Devassos no Paraíso |
Há um masculino exacerbado e um feminino exacerbado, ou seja, um masculino cheio de definições sobre o masculino e um feminino cheio de definições sobre o que seria o feminino. Desde cedo, a criança se vê obrigada a fazer uma opção: se eu não sou do masculino eu tenho necessariamente que ser do feminino. O quadro de efeminação em tantos homossexuais já denota desde o começo uma impossibilidade de se enquadrar nos padrões existentes. E você vai sendo formado nessa contradição que significa sempre que se eu não pertenço a esse, eu pertenço àquele outro padrão. A efeminação é uma manifestação contra o machismo e ao mesmo tempo um fascínio em relação ao macho. Não que a pessoa seja obrigada a desmunhecar, mas isso implica numa insegurança muito grande, do tipo: “desmunheco, então não sou macho”. Há uma suposição primordial de que desmunhecar é coisa de mulher, já de saída um elemento discriminatório e auto-discriminatório. E o machismo é um problema extra com o qual temos que nos confrontar, nos países latinos e na América Latina particularmente. Mas existe ainda todo o desdobrar desse fenômeno. Há novos estilos de ser macho, por exemplo, quando ser macho significa não ser gay – como no caso de homens casados que só se relacionam com outros casados para se afastar do padrão gay. Mas é um afastamento de um problema que está instalado socialmente. Ou seja, socialmente esses homens com prática homossexual pretendem continuar sendo héteros e machos.
Há também os casados que se relacionam com travestis e só no anonimato...
O caso dos nossos travestis é o entroncamento mais significativo: esses homens querem dar o cu para a travesti. Por quê? Porque eles estão metaforicamente transando com mulheres. É um arranjo mais fácil se, quando você estiver dando o cu, tiver um seio roçando você, uma voz feminina no seu ouvido. Mas não vou criticar esses arranjos, são arranjos individuais. O que estou criticando é um problema político quando isso se reflete na questão da homofobia internalizada. E um cara desses é capaz de xingar um viado porque ele próprio não se julga viado. Seria muito mais fácil se as mulheres comprassem consolos e resolvessem o problema de seus maridos com eles. Acredito, inclusive, que se o heterossexual aprendesse a dar o cu, não existiria mais nenhum problema de homofobia e nenhum problema de precisar fazer sexo clandestino. Nós teríamos uma outra elaboração cultural. Você vê então que o problema da efeminição está ligado exclusivamente à questão do sexo anal. É um problema que remete à fantasia de castração. Alguém não é considerado macho porque dá o cu e, na fantasia machista, isso significa que se auto-castrou.
Como os bissexuais se encaixam?
Dentro da comunidade homossexual, me preocupa extremamente a questão da chamada bissexualidade. Não estou falando do mérito da questão da pessoa ser bissexual ou não, isso é uma escolha pessoal, me refiro à utilização do padrão bissexual para você se tornar um gay clandestino, o que continuo achando politicamente gravíssimo, sobretudo num país como o Brasil. Outro dia um amigo me disse "acho que 90% dos brasileiros transam com homem”. Eu não tenho tanta certeza dessa estatística, mas de qualquer modo acho que é um número muito maior do que podemos imaginar. Eu não seria louco de afirmar que essas pessoas não têm atração pelo sexo oposto. Mas afirmo que se trata de soluções enviesadas para realizar o desejo homossexual.
Ou seja, é mais fácil “ser” bissexual do que “ser” gay ou lésbica?
Sim, não tenho nenhuma dúvida sobre isso e é por isso que muitas pessoas fazem essas escolhas. A pessoa se assume bissexual como um acordo para poder engolir a pimenta. Antes de decidir me assumir, meu projeto era ser bissexual, porque era muito difícil para mim aceitar a minha homossexualidade. Ressalto que sou contra as definições fechadas com relação a ser hétero ou homo. Acho que o desejo não é só uma vocação, é algo muito mais sutil e complexo. Já me apaixonei por mulheres, mais de uma. Aliás, me apaixonei loucamente. Mas transava com mulheres em um momento que não encontrava espaço para efetivar o meu desejo pelos homens. Quando esse desejo pôde eclodir, não tive mais nenhuma dúvida. Minha opção pela chamada bissexualidade no começo da minha adolescência foi marcada pela dificuldade de fazer escolha. E é importante dizer isso porque hoje muitas pessoas vivem um estilo, uma fantasia bissexual, que corresponde a um desejo adolescente ainda não resolvido.
Existiu um primeiro passo definitivo para se assumir de inteiro com você?
Não foi de uma só vez, foram vários passos importantes. O primeiro foi tentar dizer para o meu irmão, quando eu tinha uns 23 anos, e foi um desastre absoluto. Depois passei a freqüentar os cinemas de São Paulo, que eram uma loucura. Então conheci o melhor amigo de uma amante minha. A gente começou a trepar - e de porta aberta. Até que um dia ela entrou e a gente tava trepando e eu disse: “olha, eu me apaixonei por ele”. E nessa época aconteceu uma coisa crucial: eu dei o cu pela primeira vez. Esse era meu grande problema, como é para muitos, o medo de perder a masculinidade.
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Em 2001, em Nova York, na fachada do histórico bar Stonewall Inn, que sediou a revolta (em 1969) que desencadeou o movimento pelo Orgulho Gay |
Justamente por isso, acho que o cuidado com os adolescentes homossexuais deveria ser um caso de saúde pública. Nos Estados Unidos já é, porque existem pesquisas que mostram que adolescentes gays têm sete vezes mais possibilidade de tentar suicídio do que os heterossexuais. Porque, óbvio, é um momento em que ele está tentando se articular como ser humano e tem de repensar uma cultura inteirinha. E isso aos 15, 16, 17 anos de idade. Como é que um serzinho com essa fragilidade pode fazer isso? É massacrante. Minha opinião é que homossexuais deveriam passar por terapia sistemática sem nenhum medo. Porque a possibilidade de neurose é brava.
Até quando manteve casos com mulheres?
Até viajar para a Alemanha, para um festival de cinema, em 1969. Uma moça quis então me entrevistar sobre o movimento estudantil contra a ditadura, na época eu era da AP (Ação Popular), cujo líder estudantil era o Luís Travassos. Acabei na cama com essa mulher. Foi a última vez e acho que existe uma possibilidade muito grande de eu ter um filho na Alemanha... Eu estava com 25 anos. Mas eu pintei e bordei nessa viagem, acabei ficando três meses visitando vários países europeus ocidentais, países comunistas e África. “Cacei” no Coliseu, no tempo que era possível caçar no Coliseu, porque hoje é perigosíssimo. Fui pela primeira vez a uma boate gay, em Amsterdã, fiquei decepcionado com Londres, que era uma cidade muito repressiva, apesar das aparências. Foi uma viagem de formação. Visitei os países árabes, me apaixonei por um rapaz na Tunísia. E todo tempo mandava cartas para o meu namorado aqui, contando tudo. Aliás, esse meu namorado amava meu pau, ele chamava meu pau com o nome de uma música famosa na época: Charles Anjo 45 (cantada por Caetano Veloso). Isso para se perceber o nível de relação gostosa que a gente tinha.
Quando retornou ao Brasil, ficaram ainda muito tempo juntos?
Não, foi horroroso, quando voltei ele tinha sido preso pela polícia. Ele era artesão, fazia bolsas de couro e expunha na Praça da República, e eu expunha meus poemas, os dois fumando maconha. Mas ele e amigos eram muito drogados, era ácido lisérgico direto... Enquanto eu estava fora do Brasil, os filhos-da-puta pegaram minha obra do Fernando Pessoa, que era feita de papel bíblia, para enrolar baseados. Quando cheguei, ele estava paranóico, tinha saído tuberculoso da cadeia, e voltou tudo isso contra mim, porque a polícia tinha pego as minhas cartas para ele, e jogado na cara dele. Me tratou muito friamente, chegando a dizer: “Se você devolver a blusa de lã que te emprestei, eu devolvo suas cartas”. Eu falei: “Toma a blusa e enfia as cartas no cu”. Foi uma merda, porque hoje eu queria ter essas cartas.
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Trevisan deitado no colo de amigos em piquenique gay num parque de Berkeley, nos Estados Unidos, em 1974 |
Sim. Entre 73 a 75, eu estive fora do Brasil. Eu queria ir para uma cidade de lutas estudantis, então fui para Berkeley, ao lado de São Francisco. Como Rimbaud foi a Paris para ver a queda da capital francesa, decidi que queria ver a queda do império americano lá de dentro. A viagem para lá já foi uma aventura: seis meses de viagem por terra, eu e o Walcyr Carrasco, desde o Uruguai. Atravessamos a Colômbia, passamos pela Ilha de San Andreas no Caribe, Guatemala, México, Texas, Los Angeles. Daí fomos de avião até São Francisco. Para viajar, juntei uma grana durante um bom tempo, trabalhando como jornalista e tradutor, no começo dos anos 70. Nessa época, eu morava numa comunidade de ex-seminaristas homossexuais. Em Berkeley, me instalei também em uma comunidade e fui estudar inglês. Berkeley era tão avançada na época que tinha escola para estrangeiros de graça. Tenho de dizer que essa fase americana foi crucial na minha vida, uma fase de auto-exílio muito rica. Fazia escola de mímica, trabalhava limpando casas e depois cozinhando em um restaurante anarquista. Berkeley era uma cidade completamente antiamericana, uma cidade socialista, onde tive contato com o que tinha de mais avançado em política. Lá já se coletavam os vidros, por exemplo, para reciclagem. Isso em 1974! E foi lá que entrei em contato com o movimento homossexual. Uma experiência crucial, totalmente diferente da brasileira. Porque ser homossexual nos Estados Unidos é praticamente sinônimo de ser militante Há um abismo de diferença, em relação à maior parte da comunidade homossexual brasileira, para a qual ser homossexual não ter relação com assumir a cultura gay. Lá as duas coisas coincidem da maneira mais natural do mundo. Depois, eu fui viver um tempo no México. Fiquei fora do Brasil por três anos.
Voltou já com a idéia de criar o pioneiro grupo ativista Somos?
Meu retorno ao Brasil, em 1976, foi muito duro, terrível. Não era nem americano, nem mexicano, nem brasileiro. Era um ET. Mas, logo depois de contar que era gay para meus irmãos e meus amigos, já comecei a pensar o movimento homossexual no Brasil. Tinha estado em contato com idéias novíssimas, entre negros, hippies, mulheres e gays nos Estados Unidos. Participei da segunda Parada Gay de São Francisco. E não era brincadeira: a parada acabava com os caras se masturbando em público. A idéia de criar um grupo aqui nasceu justamente porque me sentia descontextualizado. Queria freqüentar lugares onde fosse possível encontrar homossexuais não só para paquerar. Em 77, iniciei um grupo anterior ao Somos, tivemos quatro ou cinco reuniões, mas vocês não têm noção de como era difícil. Eram todos jovens profissionais liberais e, vários deles, além do enrustimento, ainda afirmavam que homossexualidade era uma anormalidade. Um dos caras do grupo tinha até dores de cabeça violentas depois que transava com homens! E também entrava em cena a questão da esquerda brasileira, que era conservadora e cuja ideologia a gente compartilhava. Não deu em nada, fiquei muito triste. Só no ano seguinte, o Somos seria fundado. Isso foi em 1978, depois que estive na Bahia escrevendo um romance infanto-juvenil e onde tive uma vivência epifânica.
Explique melhor isso...
Quando estava em Salvador, fui convidado para ir a uma festa de despedida de um cara que eu não conhecia, pelo qual uma amiga era apaixonada. Na época, eu era muito bocudo e, lá pelas tantas, estava a festa inteirinha de um lado e eu do outro, discutindo política. Para a esquerda, o que propúnhamos - feminismo, luta racial, ecológica, homossexual - era dividir o movimento proletário, porque sua idéia era que o socialismo ia resolver todos os problemas. Mas eu não acreditava nisso. De repente, uma outra pessoa do meu lado começou a secundar minhas opiniões. Era o cara que estava se despedindo, indo morar no Rio, com outro homem. Fomos para cama na mesma noite e nos apaixonamos. Eu, que sempre tive uma atitude tranqüila sobre o ciúme, falei para ele ir para o Rio, ter o seu caso mas, por favor, não me abandonar. Ele fez a proposta para o carioca, que não topou, então ele acabou vindo para São Paulo, para continuar nosso relacionamento amoroso. Foi com ele que eu comecei o movimento homossexual em São Paulo, fundando o Somos. Na verdade ele veio para cá em 77 e fundamos o Somos no ano seguinte. Ele era nove anos mais novo que eu e, além de sermos grandes amantes, tínhamos uma comunicação enorme. Saíamos para paquerar juntos e transávamos por fora, mas era uma prática ideológica. Questionávamos como seria nossa relação e decidimos que se houvesse garantia do nosso amor, então éramos livres para transar com quem quiséssemos sem problemas. Acabei me ferrando, claro. Cinco anos depois, ele arranjou um cara e foi embora do Brasil. O resultado para mim foi um trauma muito feio: fiquei 23 anos sem namorar ninguém.
Quem fazia o Somos?
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Com colegas do grupo Somos, na USP, em 1979 |
E histórico jornal Lampião da Esquina surgiu na mesma época?
No começo de 1978 veio para o Brasil um americano que eu admirava muito, o Winston Leyland, que tinha uma editora gay e um jornalzinho chamado Gay Sunshine, de São Francisco, que toda comunidade lia. Nos encontramos na casa do Darcy Penteado, eu, o Aguinaldo Silva e não me lembro se o Peter Fry também estava. Logo surgiu a questão: por que não fazemos um jornal aqui? O Gay Sunshine foi a inspiração do Lampião, tanto que no número zero fiz uma entrevista com o Leyland, um ícone para mim do que existia de mais deslumbrante nesse período nos Estados Unidos, que era a solidariedade visceral entre os gays. E da esculhambação como idéia para foder com o american way of life. Na época, havia homens que usavam roupa feminina, mas com muito escracho. Um amigo meu vestia-se como Carmen Miranda, com um cinto de cebola de plástico... Lá, nesse período, era comum o chamado genderfucker (ao pé da letra, “fodedor de gênero”), que buscava destruir a fronteira entre os gêneros masculino e feminino. Foi nessa época que surgiram em São Francisco os The Cockettes, usando muita maquiagem com a barba e o peito sem raspar. Mais tarde, apareceu o seu correspondente brasileiro, os Dzi Croquetes, que fizeram sensação por aqui.
Voltando ao Lampião...
Sim, a idéia surgiu em São Paulo, mas o Aguinaldo Silva morava no Rio e tinha a estrutura necessária. O nome foi idéia dele, que quis fazer uma sátira a Lampião, rei do cangaço e símbolo do machão. Éramos 11 homens, visto que nenhuma mulher aceitou participar. Existia uma equipe em São Paulo e outra no Rio e, enquanto havia dinheiro, intercalávamos as reuniões de pauta entre as cidades. Depois, quando não havia mais dinheiro, o Rio tomou conta de tudo. O jornal se mantinha através de assinaturas e vendas em bancas. E era muito vendido, de norte a sul do país. Mas, claro, logo de cara teve censura. No número zero, fiz também uma matéria sobre o Celso Curi que estava sofrendo um inquérito por causa de sua Coluna do Meio (editada no jornal Última Hora, de São Paulo, e considerada a pioneira entre as colunas gays em jornais de grande porte) e o Ministério da Justiça instaurou também um inquérito policial sobre o Lampião. Fomos todos fotografados na polícia, mas eles não tinham a menor idéia do que estava acontecendo. De início, os policiais nos interrogaram como se fôssemos subversivos, perguntando sobre a revolução cubana. Depois nos chamaram de novo, para fazer o interrogatório correto. Fui vestido de terno. Eles estavam meio desnorteados e me perguntaram como deveriam me chamar, enquanto depoente. Falei para me chamar de viado mesmo. Eles não tinham a menor noção do que fazer. Nós não usávamos ainda o termo visibilidade, mas era exatamente por isso e para isso que agíamos assim, para dar visibilidade.
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Capa de um exemplar do Lampião |
Qual o impacto do Lampião e hoje, 30 anos depois, como você o analisa?
Foi um fenômeno! Tenho muito orgulho de ter feito e de ter sido um dos motores daquela equipe. O jornal fez a cabeça de uma geração e muitos começaram no movimento gay graças a ele. Claro, como tudo que é vanguarda, era temido por alguns. Lembro, por exemplo, do marido de uma grande atriz brasileira e que era gay (hoje já falecido), que achava um desproposito fazer um jornal desses, porque o via como um veículo que tinha como objetivo entegar os homossexuais enrustidos, e ele se cagava de medo. Mas as coisas começaram a mudar, para mim, em 81, quando fizemos o número mais político e, em contrapartida, o menos vendido do Lampião, que trazia na capa o Fidel Castro vestido de Carmem Miranda. Conseguimos entrevistar até o importante escritor cubano Reinaldo Arenas, também homossexual e que fugiu de Cuba na época. O filme Antes que Anoiteça conta sua história. Em compensação, houve uma capa de um rapaz seminu com uma chamada sobre masturbação, que vendeu como água. Nesse momento, o pessoal do Rio começou a criar um esquema que a mim não parecia outra coisa senão apelar para vender mais. Comecei a ficar cabreiro: “essa bosta vai virar Notícias Populares para viado”. Logo em seguida, defendi que o jornal fechasse, porque já tinha cumprido sue papel. Ele fechou em 1981.
Como você observa o movimento gay hoje e também o seu envolvimento com o partidarismo político?
Basicamente, acho que o movimento homossexual brasileiro mudou, do ponto de vista de estrutura. Hoje, nós temos, por toda parte, a estrutura das ONGs, que facilitou o financiamento, organização de lutas, etc.. E há uma série de fatos novos importantes, a quantidade de grupos aumentou muito, as atividades são muito mais intensas, a participação é numericamente maior. Mas o movimento continuou com o mesmo problema do começo, que é o fato de não ter conseguido atingir a comunidade homossexual como um todo. Ele só atinge a comunidade por cima, através de leis, mas não consegue fermentar, ser parte dessa comunidade. Ele continua sendo basicamente um movimento de classe média, que não consegue chegar às periferias. Se não fosse pelas paradas, nós estaríamos muito atrasados politicamente. Quando aos partidos políticos, a presença do PT na história do movimento homossexual brasileiro sempre foi uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que era o único que nos aceitava, era um partido que nos cooptava, utilizando essa cooptação para fins partidários, muito mais do que para fins de liberação homossexual. Isso sempre me pareceu um grande problema, porque em várias situações-chave a escolha tinha que ser entre a questão homossexual e o movimento partidário, e quem ganhou foi o movimento partidário.
Qual seu maior orgulho com o movimento gay?
Meu maior orgulho com o movimento é que ele possa ensinar a este país a reivindicar o direito de amar.
Como vê a segmentação dentro do movimento GLBT?
Acho que é inevitável porque isso é parte do mundo moderno numa questão social mais ampla. O que lamento é ausência de debate sobre essas questões. Os ursos são provavelmente, dentro desses grupos, os que mais têm tentado se encontrar e os travestis também. Seria tão bom se, por exemplo, as barbies pudessem discutir o que significa os “travestis masculinos”. Poderíamos discutir sobre o que é realmente a pedofilia. Alguém foi perguntar para os adolescentes o que é pedofilia? Conheço tantos garotos de treze anos que se apaixonaram por homens mais velhos. É muito grave que até hoje no Brasil não exista um veículo de comunicação para ecoar esses debates e permitir que a comunidade homossexual possa se conhecer melhor.
Tem gostado das novas revistas gays que estão surgindo no Brasil?
Novos veículos são sempre bem-vindos. O que acho ruim é que essas revistas visam sempre o mesmo público. Todas visam homossexuais de classe media e têm os mesmos padrões, inclusive os padrões de beleza. Não creio que tenham muito futuro, não. Não há nenhuma inovação.
Mas também há o adendo do preconceito dos anunciantes. Mesmo a G, já consolidada, onde se refugiam na questão da nudez...
Isso é a cultura brasileira. Nós sabemos que uma empresa que fora do Brasil é gay friendly quando chega no Brasil, para corresponder ao gosto médio do brasileiro, tem um retrocesso. Fora do Brasil, ela anuncia em revistas gays, mas aqui se recusa. O que nós vivemos são contradições e, politicamente, nós, que lutamos pelos direitos homossexuais, devemos aproveitar as contradições. Por exemplo, o pink money é ruim? Não, a idéia não é ruim, desde que possamos usar essa idéia visando melhorar a visibilidade homossexual. É muito bom, por exemplo, que a Globo tenha gays em suas novelas, mas sabemos que a Globo usa a presença de homossexuais para aumentar o ibope. A questão do beijo gay explicita bem essa contradição, pois os gays podem aparecer, mas o beijo amoroso entre eles de jeito nenhum.
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Fotos: Zé Amaral/G Magazine |
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O ator Gustavo Haddad como um michê sadomasoquista no monólogo |
Diria que tenho relação com o sagrado, onde ando numa corda bamba. Esse tema foi recorrente na minha peça Hoje é Dia do Amor.
Na qual, aliás, colocou um michê sadomasoquista no lugar de Cristo... Como foi a reação do público?
O público se comovia bastante. Uma outra parcela se incomodou muito, muito, muito. Fiz uma peça de provocação e o fato de não haver unanimidade é mais do que esperado. Mas presenciei pessoas comentando sobre o mau gosto, a grosseria da peça. Isso me preocupa muito porque não sei até que ponto elas estavam criticando a peça ou os temas tratados. Assim como há um problema grande para sair do armário como homossexual, há ainda um problema muito maior para se assumir como sadomasoquista, por ser tratado como um anormal.
E sua experiência individual como SM?
Foi uma conseqüência de um processo terapêutico. Sei que foi como um coroamento da minha vivência, da busca do meu equilíbrio interior. Tenho um olhar muito indagador sobre a experiência SM. Não me é assustador nem estranho, é uma forma de amor; desde que seja consentido entre duas pessoas adultas, é um jogo erótico do mais intensos que pode haver e com resultados extraordinários.
Você se considera um homem apaixonado, viveu grandes amores?
Perdi a conta de quantos. Hoje estou com um namorado há quase três anos, cada dia mais apaixonado e aprendendo a me apaixonar mais. Acho que a ternura e o amor masculino são comoventes, porque vão contra toda a corrente. Dois homens juntos são dois guerrilheiros do amor, é muito subversivo.
Hoje acredita que relações monogâmicas são possíveis?
Acho que mudei, porque só acreditava em relação não monogâmica. Hoje vejo que, para muitas pessoas, a relação monogâmica funciona. O que acho foda na relação monogâmica é a traição. Falo para o meu namorado: “se você trepar com outro, tudo bem, só quero que continue me amando”. Até já transamos a três. Mas se você quer realizar o seu desejo em função da atração por outra pessoa, qual é o problema? É deslumbrante que ele saiba do que faço e vice-versa. É igual casca da cebola: se você tira a casca da monogamia, existem outras coisas mais interessantes. Se você vai até o miolo da questão, então aparece o verdadeiro amor.
O que mais te atrai num homem? E no sexo?
Os olhos. Sou absolutamente fascinado. Posso me apaixonar, por exemplo, pelos olhos tristes de um homem. No sexo, a total sensação de liberdade. Acho que a cama, inclusive como metáfora, é um espaço onde a gente pode ser profundissimamente a gente. A intimidade duplicada entre duas pessoas é uma intimidade muita subversiva. Adoro falar na cama o que se considera besteira, porque é um momento de grande experiência lúdica, onde você coloca entre parênteses tudo o que pode ser considerado de mau gosto. Creio que o sexo realiza um projeto difícil de ser encontrado em outras situações, talvez só no sagrado e na poesia.
Nunca pensou em ter um filho ou adotar uma criança?
Sempre tive muito receio de criar filho, talvez por ter sofrido muito quando criança. A criança me comove muito, adoro criança, acho uma lindeza, fico absolutamente comovido com tudo aquilo que a criança significa. Mas acho a criança um ser completamente desamparado, morro de medo de fazer algo errado e a marcar para sempre.
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Trevisan com seu atual namorado: "Dois homens juntos são dois guerrilheiros do amor" |
Não, não tenho medo. Mas me sinto inseguro com relação às imprevisibilidades físicas, com doenças do tipo reumatismo, essas coisas típicas da velhice. Isso me preocupa, mas não me abala. Gosto da idéia de que cada idade tem suas vantagens e desvantagens. Por exemplo, não teria vontade de voltar a viver minha adolescência. Foi muito sofrida. Por outro lado, na minha velhice é como se uma flor estivesse aberta e estou no auge dessa flor. Nunca me achei um cara tão charmoso como me sinto agora, satisfeito com o que sou. Não sei a que isso se deve, mas foi uma conquista muito grande. Tenho vivido uma velhice muito feliz, afetiva e emocionalmente.
Quer que a sua obra seja eterna? E sua história?
Não penso nisso, mas gostaria que fosse lida por outras gerações. Mas se alguém quiser encontrar a garrafinha que eu joguei no mar do nada, maravilha. É um pouco o desejo de continuar a ser amado.
Como você gostaria de ser lembrado?
Um homem que amou demais.









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