Cida Diogo
Uma grande dama em Brasília
Por Wagner Silva
Fotos: Divulgação
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Dirigente do principal grupo político que luta pela diversidade em âmbito federal, a deputada é hoje vista pelos militantes como a porta-voz dos direitos GLBT |
Ela diz que a experiência como médica a ajudou a lutar por justiça, igualdade e respeito. Hoje, além de deputada federal pelo PT, Maria Aparecida Diogo Braga, conhecida como Cida Diogo, foi eleita este ano presidente da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania GLBT – grupo político composto de parlamentares comprometidos com os direitos humanos que combate a discriminação e todo o tipo de preconceito. Sua atuação como secretária municipal da Saúde de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, em 93, ganhou até reconhecimento internacional, além da implantação de um programa de combate à aids, que se tornou referência para todo o Estado. Seu pai foi vereador em Volta Redonda e seu marido, Ernesto Braga, é secretário estadual de Comunicação do PT do Rio. Os holofotes chegaram a mirar a deputada por um lastimável episódio no plenário: ela foi alvo da já conhecida “metralhadora” Clodovil Hernandez, também deputado federal. Para ela, o fato só a fortificou. Nesta entrevista, ela nos mostra um pouco de sua garra e dedicação no caminho da defesa e dos direitos plenos da diversidade.
A senhora é a atual presidente da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania GLBT. Por que abraçou esta causa?
Sempre lutei contra o preconceito e a discriminação, seja como estudante, médica ou cidadã. Em 1999, quando fui eleita deputada estadual pelo Estado do Rio de Janeiro, percebi a necessidade de mais políticos atuando pela causa GLBT, até porque o movimento pedia essa participação.
Como surgiu a Frente e como ela é constituída hoje?
Ela foi criada em 2003, primeiro com o nome de Frente Parlamentar Mista pela Livre Expressão Sexual e presidida pela minha companheira e ex-deputada Iara Bernardes, do PT de São Paulo. Hoje, ela tem o nome de Frente Parlamentar Mista pela Cidadania GLBT, da qual sou presidente. Começou com 51 parlamentares e hoje conta com 140. São deputados e senadores que apresentam projetos que visam à plena cidadania da comunidade GLBT.
O que pretende fazer em sua gestão na Frente?
Estou articulando para que, ainda em 2007, possamos aprovar a lei que criminaliza a homofobia no Brasil, além de estar acompanhando e cobrando, junto aos Executivos Federal, Estaduais e Municipais, políticas públicas de enfrentamento à violência contra homossexuais.
Fora a aprovação dessa esperada lei, quais seriam as outras prioridades?
Entre os processos estão o que dá direito à mudança de nome para os transexuais, o de parceria civil, o do combate à homofobia, o Dia Nacional do Orgulho GLBT e o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
Onde está o lado mais homofóbico dentro do plenário?
Sem dúvida, a presença de representantes de setores fundamentalistas religiosos cria um ambiente bastante homofóbico.
E quem está do nosso lado?
Poderíamos citar dezenas de nomes, mas vou me ater a três: primeiro, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que, em agosto, regulamentou e concedeu pensão previdenciária a funcionários públicos do Estado que mantêm relação estável com pessoas do mesmo sexo; segundo, a ex-deputada federal e hoje ministra, Marta Suplicy, por seu empenho junto ao legislativo para promover esse debate; e, terceiro, Luiz Mott, pelo reconhecimento de ser um dos precursores do movimento em nosso país. Mas faço questão de lembrar a saudosa cantora Cássia Eller, por sua coragem e determinação. Enfim, pessoas que têm e tiveram coragem de lutar por igualdade de direitos.
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O que falta para sermos uma Nação que respeita o direito das minorias?
Infelizmente falta muito, pois este é um país extremamente machista, misógino e homofóbico. Mas, como mulher brasileira que sou, eu não desisto nunca de lutar.
Em questão de ativismo, o que difere o gay brasileiro do que vive em países da Europa ou nos
Estados Unidos?
A diferença, na verdade, não está no gay, mas sim na sociedade brasileira. Ela é reacionária e, por isso, muito resistente em aceitar e incorporar outras concepções de sexualidade. Nosso país culturalmente sempre foi baseado na heterossexualidade. Isso intimida quem se descobre homossexual no Brasil. É diferente de outros países onde existe uma maior abertura da sociedade. Com isso, os gays não sofrem esse mesmo grau de intimidação e preconceito. Existe o preconceito, sim, porém menor que no Brasil. Por outro lado, o brasileiro tem uma característica positiva: somos mais alegres e, apesar dos nossos problemas, vemos a vida de forma mais leve. E temos ativistas que lutam por uma vida melhor em todos os sentidos e, para eles, temos de tirar o chapéu.
A militância gay no Brasil cresceu?
As Paradas Gays hoje representam o maior movimento de massas do Brasil e, a cada ano, elas têm conseguido reunir a alegria, que é característica da comunidade GLBT, com a luta por direitos e protesto contra o preconceito. As Paradas têm como objetivo também a visibilidade. E a partir dessa visibilidade é que se ocupam espaços. Com isso, cresce o número de ONGs e de lideranças do movimento GLBT que pressionam os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, na garantia por direitos.
Como outras frentes podem contribuir nessa luta, sem necessariamente participar das Paradas?
Por exemplo, a contribuição dos cidadãos seria mobilizar e atuar como multiplicadores e formadores de opinião. Já a imprensa deve desenvolver ações no sentido de mostrar à sociedade os resultados das intolerâncias e das violações dos direitos dos homossexuais. O papel da imprensa é mostrar que o Estado brasileiro é laico.
Como acabou sendo amiga da diversidade?Quando adolescente, tinha um primo gay que morava em São Paulo. Passávamos as férias nos divertindo. Ele sempre se confidenciava comigo. Na faculdade, eu tinha colegas de turmas que eram gays. No trabalho, idem (risos). Enfim, sempre tive relação de cotidiano com pessoas que tinham uma orientação sexual diferente da convencional. E já não via isso como uma coisa do outro mundo. Me relacionava
muito bem e é assim até hoje.
Você tem parentes homo?
Como já disse, tenho primos e sobrinhos gays. Sempre me dei muito bem com eles, a ponto de se sentirem seguros em pedir o meu apoio e de se confidenciarem comigo. Na época, houve resistência da família, mas hoje está tudo bem. Um ou outro problema de relacionamento pode ocorrer, mais por questões de pontos de vista, assim como acontece em qualquer relação, seja hétero ou homo.
Vamos falar sobre Brasília. Como avalia o governo Lula no que concerne a nossa causa?
Sem sombra de dúvida, é o governo que mais tem feito o Brasil crescer economicamente, implementando políticas públicas na área social, reduzindo a miséria, investindo em educação, saúde, cultura, no enfrentamento à discriminação racial e no combate à homofobia. Por isso é importante estar sempre cobrando para que se possa avançar e ter, do governo, cada dia mais respostas, mais e mais.
Hoje como encara as ofensas proferidas pelo deputado Clodovil Hernandez? Voltaram a se falar?
Isso já passou. O que ficou foram a enorme solidariedade que recebi de todos os cantos do Brasil e o debate gerado na sociedade sobre o respeito que nós mulheres merecemos. Qualquer pessoa deve ter por princípio de vida o respeito a todos. Ele passou um bom período de licença médica e, desde que retornou, não nos falamos.





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