Nelson Luiz de Carvalho
Escritor fala sobre seu best seller gay O terceiro travesseiro, que chega a 10ª edição, mercado editorial e a cena gay
Por Gustavo Ranieri
Fotos: Divulgação
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Autor celebra o lançamento da 10ª edição do best seller O terceiro travesseiro e fala sobre as histórias que cercam o livro |
Quando Nelson Luiz de Carvalho lançou há 10 anos a primeira edição de O terceiro travesseiro, ele jamais imaginou que o livro se tornaria um best seller e ícone entre a comunidade GLBT.
Agora, a Edições GLS, do Grupo Summus, lança a 10ª edição de O terceiro travesseiro (clique aqui para saber mais sobre o livro), que já vendeu mais de 200 mil cópias e em breve será lançado no Japão, e a 6ª edição revisada e modificada de Apartamento 41, outro livro de Nelson que aborda questões comuns a muitos gays.
Considerado um marco na literatura gay brasileira, O terceiro travesseiro aborda a história real de um triângulo amoroso formado por três jovens - dois rapazes e uma menina. Marcus é um adolescente que se vê perdidamente apaixonado pelo colega Renato, que logo acaba se entregando também a paixão, a qual é perturbada pela aparição de Beatriz na vida (e na relação) deles. O relacionamento a três ganha intensidade e eles resolvem dividir o mesmo apartamento, a mesma cama e o mesmo amor. Porém, logo no primeiro dia dessa nova vida, Renato falece em um acidente de carro e deixa Marcus em um luto sem igual.
Em entrevista ao G Online Nelson Luiz de Carvalho fala sobre o sucesso dos livros, sobre como ele observa através da literatura as mudanças no movimento GLBT nos últimos anos e algumas histórias que cercam o caminho trilhado pelas duas publicações.
Em entrevista ao G Online o autor fala sobre o sucesso dos livros, sobre como eles acompanharam as mudanças no movimento GLBT nos últimos anos e sobre o caminho trilhado pelos personagens dos lirvos.
O que representa o lançamento da 10ª edição de O terceiro travesseiro?
Eu acho que representa uma conquista, é muito gratificante, porque tudo começou sem pretensão alguma e acabou atingindo a 10ª edição. Eu percebo que o livro consegue estar entre a gente. Sinto-me feliz porque consegui pontuar uma obra que as pessoas se baseiam nela.
Você não gosta de considerar O terceiro travesseiro um best seller, por quê?
Ele é um best seller no segmento gay, mas eu como autor, apesar dos números muito bons, só vou encará-lo como best seller quando atingir a grande população.
Que diferenças você percebe no público gay que comprou a 1ª edição de O terceiro travesseiro e o que compra agora a 10ª edição?
O terceiro travesseiro, quando foi lançado, chocava as pessoas. Elas liam a história e começavam a se perguntar se isso era possível. O livro despertava um interesse, mas chocava porque era livre, porque o rapaz de 16 anos enfrentava o mundo para ficar com quem queria. Hoje acredito que o livro representa o resgate de um namoro e de um amor. Atualmente é tudo meio que fácil, as pessoas vão em uma boate e ficam hoje com um, amanhã com outro. Esse vazio preenche muitos homossexuais e percebo que O terceiro travesseiro continua fazendo sucesso porque ele mostra a importância de resgatar o namoro, mostra que vale à pena amar.
Hoje o livro tem um maior espaço nas livrarias. O que mudou?
A grande diferença é a seguinte: a nova editora, a Edições GLS, está fazendo essa publicidade, mas ela não está direcionando para um público específico. Ela tá destinando ao público em geral que gosta de ler, isso nunca tinha acontecido antes.
Você disse que pretende lançar em breve uma nova versão teatral de O terceiro travesseiro. Como você observa a montagem teatral que o livro ganhou em 2005 e que fracassou em crítica?
Apesar de todo empenho dos atores, eu não gostei da peça. Ela ficou em cartaz durante quatro meses no ano de 2005, agradou muita gente e desagradou em grande parte o meu público. O roteiro não estava completamente alinhado com o livro, mas o grande erro da peça foi a direção. A diretora na ocasião foi a Regiana Antonini, que cuida do Zorra Total, da Globo, o que a faz estar mais para a comédia do que para o drama. Por isso era comum ver que nas partes onde deveria se chorar as pessoas riam e vice-versa. Além da direção que foi péssima alguns atores não tinham muito talento e não se dedicaram totalmente. (Clique aqui e confira o direito de resposta pedido pela diretora da peça, Regiana Antonini.)
Mas você não teme que o público que assistiu a primeira montagem não tenha interesse em ver essa segunda?
Eu acho que as pessoas podem carregar uma coisa desagradável na memória, mas eu estou conversando com os produtores e quero que tudo seja novo, inclusive o roteiro, que eu mesmo escrevi e que está muito próximo do livro. Nós vamos pegar um diretor a altura que realmente saiba trabalhar com drama e outra diferença é que no papel da Beatriz nós vamos ter a atriz Sharon Menezes. Enfim, quem for ao teatro vai ver realmente O terceiro travesseiro.
As pessoas têm muito interesse em saber como é o Marcus hoje. Você pode nos contar?
Ele é um homem de cerca de 33 anos, que ficou parado no tempo e parado psicologicamente. Para quem o vê ele é uma pessoa quase que normal. Ele sai, ele fica com outros caras, mas não aceita namorar. Não diria que o Marcus é uma pessoa livre, porque ele está sempre se policiando e nunca se identifica para as pessoas como sendo o Marcus de O terceiro travesseiro. Acima de tudo ele é uma pessoa que tem o olhar triste.
E a Beatriz, que teve um filho do Marcus?
Beatriz era uma menina pobre, passou a ser uma menina de classe média alta, hoje tem seu belo apartamento e mora com o filho, porém para ela o peso que tem essa historia é praticamente zerado. Ela esqueceu tudo e seguiu sua vida normalmente.
Você tem algum contato com a família do Renato?
Eu os vejo muito pouco. A mãe do Renato tem uma postura estranha, distante. Ela finge que nada aconteceu e quando toca no assunto ela culpa o Marcus por tudo o que aconteceu ao filho dela.
Você pensa em fazer um livro que contasse como foram os anos depois da morte do Renato?
Na verdade esse livro já existe. Quando eu escrevi O Terceiro Travesseiro ele tinha cerca de 400 páginas. Na época, como não tínhamos a garantia de que ia vender e como lançar um livro desse tamanho custa muito caro, fui aconselhado a dividir o livro em duas partes. E foi isso que fiz. Dividi o livro em dois de 200 páginas e lancei como O terceiro travesseiro. A segunda parte está guardada, chama-se O dia seguinte e ainda vou publicar um dia.
Falando agora do livro Apartamento 41, qual a diferença dessa 6ª edição para as demais?
Acho que não dá para comparar. Eu não gostei do primeiro Apartamento 41. Quando o livro foi publicado há seis anos pela Siciliano ele não saiu na íntegra. Como era algo muito recente, os personagens, que são pessoas reais, ficaram com medo de alguém os identificar através da história. Agora, quando mudei de editora, eu conversei com o personagem principal e resolvi contar a historia do jeito que gostaria de ter sido desde a primeira edição. Apartamento 41 é um livro que você ri e chora, se excita, ele não tem compromisso com nada, é a vida da pessoa sem se preocupar com o certo e com errado.
Mas o foco da história continua o mesmo?
Sim, Apartamento 41 é sobre um cara de 32 anos, casado, com vida estável, mas que no fundo sempre teve vontade de sair com outros caras. Em determinado momento ele resolve sair do armário. Mas não é uma histórinha simples de alguém que decide sair do armário. No livro ele começa a pensar a partir do momento atual da vida dele e vai voltando até a infância. Algumas pessoas dizem que ele é um livro mais forte do que O terceiro travesseiro.
Qual a principal mensagem de Apartamento 41?
A principal mensagem que o Apartamento 41 passa é que você deve buscar o que quer na vida, deve fazer o que gosta.


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