Parvez Sharma
e a relação do islã com a homossexualidade
Por Ferdinando Martins
Foto: Yoni Brook
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Cineasta indiano fala sobre filme A Jihad for love, em que tenta desdobrar a relação do islã com a homossexualidade |
Falar de homossexualidade no islamismo é um assunto que ainda causa polêmica e nos mostra um tabu a ser derrubado. Em alguns países como o Irã, por exemplo, a homossexualidade é crime e pode levar uma pessoa a morte.
Frente a essa realidade o assumido cineasta indiano Parvez Sharma, de 34 anos, resolveu contestar as estruturas conservadoras no seu primeiro longa-metragem A Jihad for love (traduzido no Brasil como Jihad do amor).
De passagem pelo Brasil para acompanhar a repercussão do filme no Festival do Rio (que segue com programação até o dia 4 de outubro), Sharma conversou com o G Online e contou sobre A Jihad for love (para saber mais sobre o filme, clique aqui), em que tenta desdobrar a relação do islã com a homossexualidade.
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Fotos: Divulgação |
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Cenas do filme A Jihad for love |
Foi logo após os atentados de 11 de setembro. A necessidade de se fazer um filme que falasse de muçulmanos surgiu naturalmente. Eu sou gay e muçulmano e senti que precisava mostrar minha comunidade e minha religião. A imagem dos muçulmanos foi profundamente arranhada com os ataques às torres gêmeas e eu quis mostrar que há outras facetas da comunidade muçulmana.
As autoridades políticas e religiosas do mundo muçulmano sempre disseram que entre eles não há e não pode haver gays. O filme contraria essa posição. Precisou de coragem para fazê-lo?
Não é verdade que não há gays muçulmanos. Essa é uma grande mentira. Há homossexuais desde a época de Maomé. A coragem surgiu da necessidade de criarmos um ambiente mais tolerante para os gays muçulmanos.
A Jihad for love apresenta semelhanças com o trabalho de Hanif Kureish [autor de O álbum negro e Minha adorável lavanderia, livros que retratam gays muçulmanos em Londres] e do jornalista e fotógrafo Michael Luongo [que acaba de publicar o livro Gay Travel in the Muslin Word – Viagens gays no mundo muçulmano]. Nesse sentido, é possível falar que há, hoje, um movimento que vai na contra-corrente do fundamentalismo ao escancarar a vida gay entre os muçulmanos?
Sem dúvida. Eu apareço no livro do Michael. Somos gays, mas também queremos celebrar a religião. No meu caso, foi uma questão bastante pessoal. Eu entendo muito bem o dilema de ser muçulmano e ser gay. Por isso, posso dizer que no meu caso não foi o cineasta que foi atrás de um assunto para fazer um filme. Foi o filme que encontrou o cineasta. Mas não posso negar que isso provoca reações que vão além do meu particular, o que permite dizer que estou no mesmo movimento do Michael e do Kureish. O conflito entre religião e homossexualidade é uma questão importante agora e A Jihad for love é um avanço nessa direção. Então, por conta da minha identidade, criação, cultura, religião, e, acima de tudo, por conta da minha sexualidade e do sistema de crenças no qual a religião é um campo de batalha para muitas questões, foi muito natural para mim fazer este filme.
Como os muçulmanos têm reagido ao filme?
De uma maneira muito positiva. A Jihad for love foi lançado em Toronto, no Canadá. De lá, fomos para o Brasil. O Rio foi a segunda cidade a assisti-lo. Lá no Rio, encontrei um gay muçulmano e carioca, um rapaz bastante dedicado. Ele disse que o filme mudou sua vida e fez com que ele voltasse a estudar o Islã. Eu não incentivo ninguém a abandonar a religião. O filme também não faz isso. Muito pelo contrário. É um alívio para vários gays que querem continuar sendo muçulmanos e professar sua religião.
E os muçulmanos que não são gays, o que têm achado do filme?
A Jihad for love trata da religião de uma maneira bastante respeitosa. Não é rara ouvir pessoas saírem do cinema dizendo “como esse filme é lindo!”. Por isso, as reações têm sido favoráveis.
Mas isso não contraria os princípios e a cultura muçulmana, que condena a homossexualidade de uma maneira muito forte?
Há muitas opiniões diferentes sobre a homossexualidade no meio muçulmano. Acontece que a mídia e parte do público prefere se concentrar nos aspectos negativos. Por que não nos positivos? É isso que A Jihad for love tenta fazer, mostrar o que há de bom no mundo muçulmano para os gays.
Como você define A Jihad for love?
É uma história adulta e não convencional sobre o Islã. Eu conto e compartilho a história do Islã de uma maneira profunda. Isso é só o início do movimento. Tenho a intenção de criar uma rede de artistas e intelectuais de todo o mundo que queiram pensar sobre religião e sexualidade.
E para terminar eu precisava saber se você gostou do Brasil?
Sim, muito! Tanto que vou voltar em novembro para o Festival Mix Brasil de Cinema. Esta foi minha primeira vez, mas a impressão que tive foi muito boa. Para falar a verdade, eu achei as pessoas daqui mais inteligentes que o público tradicional de cinema. Em todas as sessões de A Jihad for love no Festival do Rio, notei que a platéia reagia de uma maneira mais madura ao filme e, no final, faziam perguntas profundas. A imprensa daqui publicou matérias excelentes sobre o filme.

Em A Jihad for love uma mãe aceita o casamento lésbico de sua filha mais velha na Turquia




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