Rodrigo Faour
e a história gay da música brasileira
Por Rodrigo de Araujo
Fotos: Divulgação
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O autor do livro História Sexual da MPB fala sobre a evolução da temática e do comportamento gay na nossa música e entre nossos cantores e cantoras no último século |
Apaixonado por música popular brasileira desde criança, o jornalista, crítico, escritor e produtor musical Rodrigo Faour, 34, dedicou quatro anos de sua vida à obra História Sexual da MPB – A evolução do amor e do sexo na canção brasileira (Ed. Record, 586 págs.).
No livro, lançado no final do ano passado e que chega agora a sua segunda edição, após vender cerca de 5 mil exemplares, o autor faz uma deliciosa viagem no tempo, relatando a evolução comportamental brasileira através da história da música, no que diz respeito aos temas amor e sexo. O trabalho contempla a produção musical nacional dos últimos dois séculos e meio.
Nos sete capítulos da obra, que já nasceu antológica, são analisados praticamente todos os gêneros da nossa música, trazendo de tudo um pouco: o amor mal resolvido, a evolução da mulher na música popular, as músicas de duplo sentido e de sacanagem... E nós, felizmente, não ficamos de fora: o autor dedica um capítulo inteiro à história gay na MPB.
Rodrigo Faour conversou conosco sobre essa faceta gay da nossa música, até hoje conhecida por poucos, revelando, entre outras coisas, como os compositores encararam a temática ao longo do último século e quais letristas e intérpretes foram verdadeiramente revolucionários em relação ao tema. Mais que uma simples entrevista, trata-se de um verdadeiro compêndio sobre a nossa história na música. De quebra, o jornalista e escritor elaborou para a G uma lista com os principais artistas da chamada “MPB gay”.
Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre a evolução sexual dentro da MPB?
A idéia nasceu da minha amizade com a sexóloga Regina Navarro Lins. Ela me convidou pra escrever um artigo sobre o amor na MPB na revista Muito Prazer, comparando visões de épocas distintas envolvendo amor e sexo. Pareceu-me viável contar a história do comportamento afetivo e sexual do brasileiro através de suas músicas.
Quando surgiu pela primeira vez a temática gay na música brasileira?
Até 1902 só há registros de músicas através de partituras, pois foi nesse ano que começou a nossa indústria fonográfica. Mas em 1903 já existe a menção a um personagem gay numa cançoneta. Chamava-se O Bonequinho. A cançoneta é de autor desconhecido e foi gravada pelo ator Lino e, em seguida, pelo Bahiano, nosso principal cantor no início do século passado. Falava de uma criança que, quando nasceu, chamou a atenção de todos por ter uma bundinha bem-feita e que, quando cresceu, imitava a mãe. Essa foi a primeira de uma série de músicas que ridicularizavam o homossexual, algo que só vai começar a arrefecer na década de 70.
Mas durante esse tempo não houve músicas que tratassem os gays de uma forma mais natural, sem ridicularizações?
Uma honrosa exceção ocorreu em 1931, quando Noel Rosa fez uma menção à homossexualidade de Madame Satã, histórico malandro brigão da Lapa que se travestia, em sua Moleque Bamba. Milagrosamente, foi num tom bacana, sem preconceitos:
“O mulato é de fato
e sabe fazer frente
a qualquer valente
Mas não quer saber de fita
nem com mulher bonita
Sei que ele anda agora aborrecido
porque vive perseguido
Sempre, a toda hora”.
Mas o meio do samba tradicional é tão conservador nesse aspecto que, até hoje, só há um samba simpatizante da causa gay, cunhado por Martinho da Vila em 1975, chamado Cordas e Correntes, em que um filho reivindica o direito de se assumir para os pais:
“Viu! Mamãe?
Por que não posso assumir
meu descaminho?
Viu! Papai?
Por que não posso reencontrar
o meu caminho, ai
Pra que as cordas e correntes
Se eu já sei aonde tenho
meu nariz?
Tantos amigos e parentes
E eu assim tão infeliz
Vocês só pensam em
noivado, casamento
Que tormento...
Vivem sonhando com aliança
no meu dedo
Tenho medo, ai
Se bem lá dentro do meu ser
Há uma vontade muito grande
de viver”.
Compositores héteros e homossexuais contam que, quando tentam fazer uma música de amor mais escancarada sobre o tema, ninguém quer gravar. Há um bloqueio por parte dos produtores e dos próprios artistas. Há um medo excessivo que os artistas gays ainda têm de se expor na mídia. No entanto, temos muitas canções com mensagens cifradas nas entrelinhas, outras em tom de deboche e outras, ainda, de puro humor, brincando com a própria cultura gay. Tudo isso só vem espelhar a importância desse segmento da população no imaginário coletivo do brasileiro.
Na obra, você destaca artistas como Vanusa, Cauby Peixoto... Pode-se dizer que no livro existe uma ótica gay para essa história sexual da MPB?
Cada autor traz um código de valores morais e afetivos dentro de si. Se este livro fosse escrito por um cara mais velho, casado, com filhos e netos, teria uma abordagem. No meu caso, creio que a minha vivência propiciou a minha admiração pelas grandes cantoras brasileiras, bregas ou chiques, e um olhar mais carinhoso a artistas que transgrediram – a seu modo – certos padrões de comportamento em relação ao masculino e ao feminino e a preconceitos em geral sobre questões de amor e sexo. Em meu trabalho, gosto de lançar um novo olhar sobre a obra de artistas sempre esquecidos nas análises de MPB – por preconceito geral ou mesmo por pura falta de informação. Carmen Miranda, sempre minimizada por historiadores xiitas, foi uma mulher à frente do tempo. Cantoras como Gal Costa, Fafá de Belém, Simone, Bethânia, As Frenéticas, Vanusa e Rita Lee foram fundamentais na liberação feminina dos anos 70. O mesmo posso dizer de Ney Matogrosso, primeiro artista a expressar sua sexualidade neste país, algo que até então era visto como atributo apenas feminino. No segmento mais popular, Odair José, Wando, Erasmo Carlos e parte da obra de Roberto dividem com a mulher seus altos e baixos na vida amorosa. Ângela Rô Rô ousou falar como ninguém dos romances gays e lésbicos e de inúmeras inquietações afetivas do ser humano. E Fátima Guedes botou suas fantasias sexuais femininas no ventilador. As novas funkeiras atuais são escrachadas, mas tratam o sexo de uma forma mais aberta e quente, como, aliás, os gays sempre o viram. Se isso é um olhar gay, fica a seu critério (risos).
Por que os gays brasileiros são tão ligados nas cantoras?
Grande parte dos gays tem uma admiração pela figura feminina forte e glamourosa. E como a nossa música é a mais forte expressão de cultura popular do Brasil, nossos gays passaram a se projetar nas vozes dessas divas, desde a época de Carmen Miranda (anos 30). Em outros países, o cinema, por exemplo, é tão ou mais forte que a música. Em nosso país, as divas da canção levaram a melhor. Sendo assim, nos anos 40, os gays idolatraram Linda e Dircinha Batista. Nos 50, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Marlene, Nora Ney, Emilinha Borba e Maysa, entre outras. A partir dos anos 60, foram Wanderléa, Vanusa, Rita Lee, Elis Regina, Maria Bethânia e Gal Costa. A partir dos 70, entraram nesse grupo Simone, Fafá de Belém, Alcione, Perla, Ângela Rô Rô, Zizi Possi, seguindo pelos 80 e 90 com novas divas como Cássia Eller e Adriana Calcanhotto. Nosso país é pródigo em cantoras, e, não por acaso, elas são veneradas por todos os nossos gays.
Você conta no livro que muitos cantores gays se apropriaram de letras de compositores heterossexuais...
Há músicas com temáticas gays compostas por autores que tiveram uma vivência hétero, e há outras que podem não ter sido feitas com essa intenção, mas, em suas letras, havia alguma coisa que as identificava com o universo gay. Por isso, foram “apropriadas” pela comunidade, como Preconceito (Antonio Maria/Fernando Lobo), gravada por Nora Ney em 1953 (e regravada por Cazuza em 89), Haja o que Houver, canção sadomasoquista de Fernando César, gravada por Lana Bittencourt em 57, Fim de Caso, gravada por Dolores Duran em 59, e, mais recentemente, Teu Caso Sou Eu, por Maurício Duboc e Carlos Colla, sucesso de Joanna em 1986.
Você acha que a atual MPB ainda é conservadora?
Muita coisa mudou no que diz respeito aos relacionamentos, sejam homo ou héteros, mas a nossa música anda documentando muito pouco essa evolução. Os artistas poderiam se assumir sem alardes, sem que com isso virasse uma invasão de privacidade. Ninguém fica fiscalizando, por exemplo, com quem Ney Matogrosso, Edson Cordeiro ou até mesmo Ângela Rô Rô vão para a cama. Assumir é uma coisa, fazer de sua vida um ‘Big Brother’ é questão de opção. É normal ouvir cantoras que, enquanto beijaram na boca só dois homens a vida inteira, mas transaram com muitas mulheres, se dizem bissexuais. E vice-versa: o mesmo vale para os cantores. Os artistas pensam que o público é mais conservador do que é na verdade. Esquecem que, sendo artistas, tudo é muito mais permitido e tolerado. O público coloca os verdadeiros artistas acima do bem e do mal. Ney Matogrosso e Cássia Eller são a maior prova disso. Sempre foram queridos por pessoas de todas as classes sociais e orientações sexuais, e nunca tiveram sua vida sexual invadida. Outro exemplo de que o cantor paira acima do bem e do mal é o fato de Wando – sem deixar dúvidas sobre ser hétero – poder compor e cantar a primeira música de amor gay bem resolvido: Emoções, em 1978, uma cena de cama entre dois meninos, sem qualquer neurose:
“Nos fizemos tão meninos
Livres, tão vadios de tanto prazer
(...) Me entregaste teus segredos
Eu falei do medo do meu coração
Assim pisamos noite adentro
Como dois perdidos,
cheios de emoção
Nas almofadas tão macias
Nos aconchegamos,
sufocando a paz
(...) Até que a morte nos separe
Ou até o dia amanhecer
Nós faremos nosso mundo
Nós seremos tudo que
devemos ser”.
Os principais artistas da MPB gay, segundo Faour
A pedido da G, Faour fez uma lista dos cantores e cantoras mais gays da Música Popular Brasileira. Confira quem são e por que o jornalista os elegeu:
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Cauby Peixoto – Começou como cantor-galã e aos poucos foi adotando uma estética mais kitsch-gay, mas nunca quis assumir publicamente sua homossexualidade por medo de não ser perdoado por suas velhas fãs. Ainda assim, gravou canções com mensagens gays subliminares, como Ambiente Diferente e Escândalo. Recentemente cantou na boate gls Le Boy, no Rio de Janeiro, e foi ovacionado ao dizer: “Somos gente. Uma gente muito especial”.
O raro compacto Maria Alcina,
Capa do disco Cazuza (1985)
Doces Bárbaros (Gal, Maria Bethânia, Gil e Caetano) – Foram grandes transgressores. Exploraram seus corpos, a ambigüidade sexual de suas figuras, levaram a sensualidade – especialmente Gal – a níveis nunca antes vistos. Caetano e Gil compuseram diversas canções libertárias, sem preconceitos em relação ao amor livre e aos gays.

de 1973

Maria Alcina – Por sua figura andrógina e sua voz masculina, muita gente pensa até hoje que ela é um travesti. Chegou a ser censurada e tirada de circulação nos anos 70 justamente por causa disso.
Cazuza e Renato Russo – Quase não há menções explícitas à homossexualidade de ambos em suas letras. Eles falaram do assunto perto do fim da vida, mais em entrevistas do que na própria obra.
Aracy de Almeida – Foi, de certa forma, a Ângela Rô Rô de sua época, por conta do gênio explosivo e do humor hilariante. Em contrapartida, nunca se assumiu. Freqüentava o ambiente masculino da música brasileira dos anos 30 e 40, e tinha um lado sofisticado pouco conhecido – era muito culta e adorava obras de arte. Por outro lado, gostava de andar de cuecas e tinha uma sexualidade misteriosa.
Assis Valente – Usou o eu-lírico feminino e falou de muitas situações caras ao universo gay pelas vozes de divas como Carmen Mirada e Aracy de Almeida, em músicas como E o Mundo Não se Acabou, Camisa Listrada, Uva de Caminhão e Fez Bobagem.

Capa do disco Escândalo (1981),
de Ângela Rô Rô
Dora Lopes – Compositora homossexual que viveu o auge da carreira nos anos 50 e 60. Fez algumas canções homoeróticas muito sutis, gravadas por ela mesma, por Cauby Peixoto e Agnaldo Timóteo.
Ângela Rô Rô – Grande transgressora. Primeira cantora e compositora a assumir sua homossexualidade e a mostrá-la em suas letras deliciosamente confessionais – seja para o lado mais romântico ou do humor.
Chico Buarque – Gravou e compôs com Ruy Guerra a primeira música falando de amor entre duas mulheres de forma poética, sem preconceitos: Bárbara, em 1972.
Cássia Eller – Ao contrário de Ângela Rô Rô, que era mais irreverente e viveu sempre uma vida conturbada, Cássia mostrou que era possível ter um relacionamento estável e até um filho, sendo lésbica. Mas não existiria uma Cássia sem o caminho aberto por Rô Rô.
Marina e Antonio Cícero – Compuseram várias canções libertárias em geral e simpatizantes da causa gay a partir do primeiro LP solo de Marina, em 1979.



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