Manuela Kay
A poderosa editora da L-Mag, a maior revista lésbica alemã
Por André von Ah
Fotos: Arquivo Pessoal
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Ela é a lésbica mais famosa de Berlim. Nas festas, Manuela Kay está sempre cercada de garotas loucas para descobrir qual será a capa da nova L-Mag, maior revista lésbica alemã, editada por ela. Com mais de 40 anos, ela ainda parece a garota deslumbrada de 20 e poucos anos que viu o muro da capital da Alemanha cair e, junto, desmoronar também seu sonho de boêmia. “Berlim agora é uma cidade chata”, diz Manuela. “Antes Berlim estava cheia de artistas, a vida boêmia florescia, e o que fertilizava o terreno era o muro, agora estão todos em Munique”, explica.
A declaração, entretanto, não a faz menos participativa de toda efervescência cultural da cidade, muito pelo contrário. Manuela iniciou a carreira como jornalista em pequenos jornais de cinema e organizou durante mais de 20 anos o Teddy Awards, braço GLBT do Festival de Cinema de Berlim. Mas, sobre a época do Teddy, ela não gosta de falar: o rompimento não foi amigável e hoje se resume a dizer, taxativamente, que o Teddy está morrendo pela falta de inovação.
Conversamos em Berlim com a antenada Manuela (que tem a fama de ser uma das pessoas mais por dentro da cultura GLBT européia) sobre mídia gay, a diferença entre o público homossexual masculino e feminino, cinema gay e a importância do pornô, já que, paralelamente, Manuela é também diretora de filmes pornôs lésbicos. Aliás, das melhores.
Muitas pessoas me contaram que você é a lésbica mais famosa de Berlim. A que credita sua fama?
Muitas pessoas? (Risos). Para ser honesta, a vida de uma lésbica fora do armário é uma vida muito solitária. Não existem muitas vivendo assim aqui na Alemanha. Por isso, eu prefiro dizer que estou fora do armário e não que sou famosa.
Você editou a Siegessauele, a maior revista de cultura gay alemã por muitos anos e agora edita a L-Mag, a maior revista lésbica do país. O que acha que gays e lésbicas esperam da mídia? E qual é a diferença entre editar uma revista para o publico gay e uma para o público lésbico?
A diferença é que as lésbicas ainda precisam de identificação, saber que não estão sozinhas. Uma lésbica precisa reafirmar sua existência de alguma forma. Os homens são mais modernos. Eles não precisam mais de realidade: eles querem ver corpos gostosos e não ligam se os corpos são de gays ou não. Para as lésbicas é muito importante saber que aquela modelo na capa da revista é lésbica. Os homens não procuram identificação, só sexo, por isso eles são mais modernos.
Isso não faz com que seja mais difícil para uma lésbica editar uma revista para homens gays?
Bom, a Siegssauele é uma revista de cultura geral, tanto para homossexuais quanto para lésbicas. E não, acho que ser um bom jornalista independe da questão de gênero. Uma lésbica pode fazer o mesmo trabalho, e com a mesma qualidade, que um gay. Mas, claro que ajuda se você for lésbica e estiver em uma revista lésbica... Mas, por um lado, você está certo. A Siegssaule costumava ser uma revista realmente gay antes de mim. Eu a abri para outras identidades sexuais, como lésbicas e transexuais. Pensei que seria a melhor direção de mercado para qualquer revista gay, abrir os horizontes e ter mais leitores e anunciantes.
O que é importante para os editores da mídia gay?
O importante é fazer gays e lésbicas sentirem-se bem com eles mesmos, fazê-los rir, educá-los, provocar e, o mais importante, mantê-los pensando. E não apenas com seus paus! Agora, parece que todo mundo está casando. Eu quero mantê-los acordados para o fato de que o mundo é muito mais que vida pessoal e privada. Eu acho que são os gays que ainda precisam de uma mídia gay, não importa o quanto nos pareçamos fisicamente com héteros, aos olhos deles seremos sempre gays, sempre um grupo.
Mas a mídia gay tem muitos leitores?
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Manuela e as pupilas com quem faz a |
Sim, os leitores querem a mídia gay. Então, espero que não viremos todos héteros, no sentido subjetivo e não sexual. Nossa editora tem três revistas – Du & Ich, L-Mag e Siegessauele. Mas, parece, às vezes, que os gays não precisam de uma mídia gay, só de uma lista de festas. Lésbicas não são assim, elas ainda se sentem inferior, elas são a verdadeira minoria hoje. Cheias de ódio por si mesmas e sempre amargas com todos. E por isso que gostam de enlatados americanos como L-Word. Elas absorvem esse tipo de coisa. Isso as faz sentirem-se bem e elas gostam disso. Isso as faz parecerem legais, finalmente. Normalmente, são os gays que são legais e não as lésbicas.
É verdade que planeja realizar agora em 2007 uma festa em oposição ao Teddy Awards, que terá apoio de diversos festivais gays da Europa e Estados Unidos?
É apenas uma festa do cinema gay durante o Festival de Cinema de Berlim, que não está conectada com o Teddy. (Manuela demonstra claramente que sobre esse assunto não responderá mais. Nós respeitamos e prosseguimos.)
Você escreveu um livro sobre cinema GLBT. Você acredita que o cinema colabora nos dando ídolos? Aliás, precisamos de ídolos?
Bem, desde que comecei a trabalhar com cinema tenho acesso as informações sobre isso e pareceu-me natural fazer algo com aquele privilégio. O que surgiu disso foi um léxico de A-Z sobre todos os filmes GLBT que passaram pela Alemanha. Quanto aos ídolos, gays não precisam deles. Seus ídolos são pessoas como Madonna e Britney Spears. Mas em Berlim, nosso prefeito é um ídolo por ser gay. Ele é honesto e saiu do armário. As pessoas podem não gostar dele por sua política, mas gostam dele porque é abertamente gay.
Outra especialidade sua é o pornô lésbico. Por que pornô? O que a levou a essa nova etapa em sua carreira?
Começou como uma piada entre amigos há mais de 12 anos. Foi uma coisa experimental realmente entre amigos. Mas o sucesso foi tanto que viajei o mundo por causa desse filme. E rapidamente todos começaram a pensar que eu era uma especialista em pornô lésbico e sou sempre convidada para falar sobre o assunto. Acho que isso mostra o estado em que o pornô lésbico se encontra atualmente. Tudo o que você precisa fazer é um filme para se tornar um especialista.
Qual a importância do pornô?
Bom, muita gente tem reservas estúpidas quanto a isso. Pornô sempre parece como sujo e indiscreto, mas pode ser libertador mesmo com esse estigma. Talvez, de fato, por causa disso. De qualquer forma, o pornô nunca terá um grande papel na liberalização dos costumes, poderia ter, mas não terá porque está muito fora do sistema.
O que é bom para a liberalização dos costumes?
Estar fora do armário. As pessoas devem ser honestas consigo mesmas e com as outras e começarem a acreditar que privacidade é uma política para a liberalização, elas devem falar sobre sua orientação sexual e serem abertas quanto à sexualidade. Seria realmente ótimo termos muitos famosos saindo do armário ao mesmo tempo, por exemplo. Nós precisamos de modelos – as lésbicas não têm nenhum, os gays têm um pouco.
Brokeback Mountain foi um passo em direção a essa liberalização? Muitos consideram o filme conservador por não ser um amor plenamente realizado...Bom, eu gosto de bons filmes e não penso que todo filme gay tenha que ser alternativo, já tivemos muito disso e a maioria deles são alternativos. Por isso é bom ver um filme como Brokeback Mountain, que está no sistema. Ao menos isso atinge muito mais gente que os alternativos e ter um público amplo é o desejo de qualquer diretor, mas para os diretores de filmes gays normalmente isso é fantasia.
De onde estão vindo hoje os melhores filmes gays?
Espanha. A maior parte dos bons filmes hoje vem da Espanha, gays ou não. Mas, falando de filmes gays, filmes como 20 cm e Electroshock são todos filmes fortes.
E sobre os filmes gays brasileiros?
Bom, realmente não sei, acho que eles precisam de mais promoção.



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