Tributo a Lilico
Herói por Opção
Por Marcos Brandão
Foto: Arquivo / G Magazine
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Em homenagem o ex-jogador de vôlei Lilico, que faleceu no 13 de janeiro de 2007, em decorrência de um AVC (acidente vascular celebrar), republicamos aqui, na íntegra, a entrevista publicada em outubro de 1999 na revista G Magazine |
Luís Cláudio Alves da Silva, 30, o Lilico, morreu no dia 13 de janeiro de 2007, em decorrência de um AVC (acidente vascular celebrar) sofrido no dia 30 de dezembro de 2006.
O ex-jogador de vôlei foi protagonista de um papel raro na história do esporte, se assumindo publicamente no início de 1999, tornado-se um dos grandes ícones do movimento homossexual brasileiro. No mesmo ano, no mês de outubro, a revista G Magazine publicou um tributo ao jogador. Com o título “Herói por Opção”, o ex-jogador se despiu em todos os sentidos, na seção Desejo, através de um ensaio fotográfico de nudez e uma entrevista reveladora. Em homenagem a Lilico, reproduzimos aqui a entrevista na íntegra.
UM HERÓI POR OPÇÃO
(Entrevista publicada em outubro de 1999 - G Magazine nº25)
Aos 23 anos, Luís Cláudio Alves Silva, mais amplamente conhecido como Lilico, protagoniza um papel raro na história do esporte no Brasil. Considerado um dos melhores atacantes do voleibol nacional, no início deste ano ele se assumiria publicamente gay perante toda nação. A resposta foi, no mínimo, digna de aplausos. Começou a ser cada vez mais solicitado para entrevistas em programas de TV e jornais, seus fãs proliferam em escala numérica geográfica, e ele se consolidou como verdadeiro ícone gay nacional. Vestindo atualmente a camisa do Report/Suzano, seu desempenho em quadra pode ser checado até o comecinho de novembro nos jogos do Campeonato Paulista. No mesmo mês ele embarca para o Japão, para cumprir contrato milionário em temporada pelo Nippon Stell. Leva junto com a bagagem seu namorado Jorge Pablo Parodi, 23 anos mais velho. Porém, antes de partir para a Terra do Sol Nascente, resolveu despir-se – em inúmeros sentidos – para nós, seus admiradores, pela sua coragem e franqueza.
1º Set - Na Quadra
Quando você começou a jogar vôlei?
Eu fiz natação, ginástica olímpica e basquete quando estava no colégio. No vôlei comecei em 1990, e já neste ano joguei pela primeira vez com a seleção. Mas como era muito novo, tinha 14 anos e o resto do time 17, fui cortado. Só em 1993, quando já jogava profissionalmente pelo Banespa, atingi a idade necessária e pude jogar no Mundial Infanto.
Você se assumiu gay perante toda a nação só no início do ano, mas seus companheiros de quadra e familiares já sabiam, não é isso?
Em 1995, eu chamei todo mundo no vestiário do Banespa e contei tudo. Eles já desconfiavam, mas ninguém tinha me perguntado ainda... Para minha família, aconteceu quando eu levei o meu namorado para eles conhecerem... Depois disso, até um ano e meio atrás eu sempre que chegava a um clube, falava logo: sou gay, tenho um relacionamento e não misturo minha vida particular, sexual com a quadra. Não dou liberdade para ninguém falar da minha vida ou fazer brincadeira.
Existiu um certo burburinho no início do ano, quando seu nome não apareceu na lista dos convocados para a Seleção... Saiu na imprensa que você teria dito que não foi convocado por ter se assumido homossexual...
O que aconteceu foi o seguinte: eu estava vindo tão bem na temporada passada na Liga Nacional, que uma jornalista me procurou para fazer uma reportagem sobre minha boa atuação. Daí ela me perguntou, e a Seleção? Eu disse que não tinha expectativas de ser convocado. Quando ela quis saber o porquê, eu disse que poderia ser pela minha opção ou pela briga com o técnico da Seleção Juvenil (que tem acesso direto na CBV) ou talvez por eu ser muito novo... Ela publicou dessa forma e outros jornais que publicaram a entrevista depois disseram que eu teria acusado o Radamés de preconceito. Eu não acusei ninguém eu apenas levantei hipóteses...
Quais seus planos pós-vôlei?
O vôlei para mim é um trabalho como outro qualquer. Meu intuito é juntar o máximo que puder para fazer minha faculdade de Arqueologia ou Tecnologia e Processamento de Dados.
Duas áreas bastante opostas...
A princípio seria só a Arqueologia, sempre tive interesse por História e Geografia e gosto muito de mexer com coisas antigas. Mas depois que conheci o Jorge, que trabalha com Informática, comecei a mexer bastante com computadores e descobri que tenho talento para a coisa. Além de ser a área com possibilidades de maiores ganhos hoje em dia.
Foto: Arquivo / G Magazine

2º Set - Na Vida
Você e o Jorge namoram há três anos, moram juntos, enfim estão casados...
A gente está firme, dividimos tudo. Não sei se vai durar pra sempre, mas por enquanto está indo muito bem. É sempre difícil conviver com outra pessoa, principalmente no caso de dois homens, ambos tendo opiniões firmes, mas depois de três anos aprendemos a ceder, a conversar. Começamos até a nos preocupar em colocar bens um no nome do outro, para caso aconteça algo com um de nós, evitaria a possibilidade de a família ficar com tudo.
Você é conhecido por insistir em manter uma postura máscula. Alguma coisa contra efeminados?
Eu não tenho preconceito contra ninguém. Nem posso ter, porque sou vítima de preconceito. Mas cada um tem sua postura. Eu sou uma pessoa muito séria, mesmo porque meu ambiente de trabalho requer isso de mim. E eu acho que esse respeito profissional, das pessoas e da mídia vem mais desta postura do que do fato de ter me assumido.
O que faz nas horas de lazer? Sai muito à noite? Vai a bares, boates gays?
Com esse meu primeiro namorado comecei a conhecer lugares, começou o assédio. Eu era novinho, 18 anos... Terminamos e fiquei solteiro nos dois anos seguintes. Tinha namorinhos de dois, três meses, mas eu mesmo terminava. Estava conhecendo gente nova, queria curtir. E também comecei a querer me cuidar mais, via o povo malhado na boate e queria ficar forte. Mas não conseguia, sempre vara-pau, magro, carinha mais ou menos, na época eu usava cabelo mais comprido, que eu alisava... Eu era outra pessoa. Foi só quando conheci o Jorge é que comecei a mudar. Foi ele que me enfiou na academia. Hoje eu estou um pouco cansado da noite, de sair pra dançar, agitar. Quando não estou trabalhando, dentro ou fora das quadras, estou em casa descansando.
É verdade que você foi convidado para ser apresentador de um programa esportivo na TV?
Desde a primeira vez que apareci num programa de TV fui muito elogiado pela desenvoltura. Então recebi essa proposta de ser apresentador de um programa esportivo numa emissora que tem como público-alvo os jovens. A princípio se chamaria Blitz, seria semanal, com reprise me outro dia da semana e teria formato de meia hora. Mas não há nada concreto, foi apenas um convite. Mas como vou passar os próximos meses fora, devo voltar a discutir a possibilidade só no ano que vem. Também tive um convite para ser garoto-propaganda da Levi’s no Japão, mas ficou só no convite.
E essa história de ter sido convidado para interpretar o Madame Satã no cinema?
O pessoal de uma produtora carioca me convidou para participar de um longa-metragem sobre a vida do Madame Satã, que começaria a ser rodado em maio do ano que vem e, realmente, me ofereceram o papel principal. Mas ainda há toda uma fase de negociação e testes, eu não tenho bagagem como ator e o personagem é muito complicado. Mas vou fazer o teste, ler o roteiro e, se de repente não der certo, existem outros papéis em que posso me encaixar. A proposta é que o elenco todo do filme seja negro.
Você se preocupa com as eventuais críticas ao ensaio e a seu corpo? (Sempre tem um que pega no pé)
Eu acho que vai ser supertranqüilo, uma festa para todo mundo. Mas o público gay é muito exigente e crítico. E como sou gay tenho algum medo de sofrer uma crítica maior do que os heteros que posam... Há outra coisa também. De repente pode rolar um interesse por parte de um cara forte e grisalho, não hoje, que tenho namorado, mas no futuro, e como ele já conhece meu corpo, pensar antes de eu ter alguma chance “mas aquele cara não é tudo isso...” Como também pode rolar o contrário...
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Foto: Arquivo / G Magazine |
3º Set - Na Cama
O que dá tesão?
Uma coisa que me dá tesão é cueca. Eu gosto de estar na cama com alguém que fique um tempo de cueca, se chegar e ir logo tirando toda a roupa acaba o tesão. Pouca roupa me excita mais que o nu.
Onde é bom fazer sexo?
Eu não sou de fazer sexo em lugares “diferentes, como no elevador ou até no carro (não se esqueça que ele mede 2m...).” O máximo que já aconteceu foi fazer na pia do banheiro.
Quem te atrai?
Tem que ser uma pessoa mais velha que eu e tem de ter músculos. Se não tiver onde pegar, não me agrada.
Já teve experiências com mulheres?
Minha primeira vez foi com mulher. Eu namorei durante dois anos com uma menina, nunca tinha saído com homem até então e não tinha nenhuma experiência sexual. Nós andávamos de mãos dadas no shopping, cinema, baile no domingo. Mas eu não estava satisfeito, sabia que estava enganando ela para manter uma fachada para os outros. Então resolvi ir a fundo para descobrir de vez se gostava de homens ou de mulheres. E tive com esta namorada minha primeira relação sexual. Eu tinha 18 anos. Bom, achei meio sem graça... mas como nunca tinha tido nada com ninguém, achei que podia ser assim mesmo...
E a primeira vez com homem?
Bom, o plano era ter as duas experiências para ver o que mais gostava. Mas onde achar um homem? Não conhecia nada... então comprei uma revista e comecei a ver anúcios, mas era uma terça-feira e não tinha aonde ir em São Paulo. Peguei um táxi e saí rodando pela cidade. Fui parar no 266 (bar da região central). Era tudo muito escuro, o povo começou a me olhar e encostou um cara do meu lado perguntando se eu queria beber algo e já colocando a mão no meu braço... Saí de lá correndo de medo. Fui para casa, mas não tirava isso da cabeça: tinha que experimentar... No sábado da mesma semana decidi ir na Gent´s (famosa e extinta boate que ficava no bairro de Moema). Lá conheci um cara, mais velho (35 anos), advogado e conversamos a noite toda. Saímos duas ou três vezes e tive minha primeira experiência com homem. E vi que era realmente o que eu queria. Procurei minha namorada e terminei tudo, contando toda a história. Fiquei com esse cara três meses.
O que você olha primeiro em alguém?
Se estiver de short, a primeira coisa que eu olho são as coxas para ver se são grossas. Se tiver de calça comprida, os braços.
Já fez sexo grupal?
Eu tentei uma vez, saí com um casal, mas não me agradou. Não sei também se foi pelo fato das duas pessoas em questão serem mais novas que eu, mas não foi satisfatório. Se à três for sempre daquele jeito, foi a primeira e a última.
Tamanho já foi problema?
Uma vez levei um cara para minha casa e quando ele tirou a roupa, perguntei: “Só isso?” O cara ficou embaraçado, mas eu sou bem cara-de-pau e disse: “Sinto muito, mas menor que o meu, não dá...”
Você é sempre sincero assim?
Uma vez conheci um cara num shopping e fomos para um motel. O cara tirou o terno e a gravata para tomar banho e levou um tombo enorme do box. Acabou ali, não conseguia parar de rir e fui embora. Quando começou o 145 (disque-amizade), eu ligava bastante. Eu liguei umas três vezes e conheci caras maravilhosos. Daí eu liguei uma quarta vez e o cara se descreveu forte, moreno, de olhos verdes... Eu morava sozinho ainda, convidei ele pra vir em casa. Quando abri a porta, apareceu um cara magro, vesgo e eu apenas disse: “Não é por nada não, mas o Cláudio não está em casa”, e fechei a porta...
O assédio depois de você ter se assumido aumentou?
O engraçado que aconteceu uma inversão: enquanto o assédio por parte dos gays diminuiu, acho porque a maioria sabe que mantenho um relacionamento estável, o assédio das mulheres aumentou 100%.



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