Fernanda Torres
"Todos têm um potencial libertino"
Por Beto Sato
Fotos: Divulgação
|
Atriz imerge num universo de sexualidade libertina em A Casa dos Budas Ditosos |
Fernanda Torres, 40 anos, acaba de voltar aos palcos paulistanos com o espetáculo A Casa dos Budas Ditosos, monólogo de Domingos de Oliveira inspirado em romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro. No palco, a atriz interpreta uma libertina baiana de 68 anos que narra, em detalhes, as inúmeras experiências sexuais que teve ao longo da vida.
“Para ela tudo é válido. Ela não fica oscilando, uma vez que não existem pólos para sua sexualidade. Ela é um homem-fêmea, ou uma mulher com um pau enorme”, decreta Fernanda sem papas na língua.
A atriz, que encanta em cena pela forma sutil que “envelhece” diante da platéia, indo da juventude à velhice sem jamais perder os ideais de liberdade sexual da personagem, conversou com G Online sobre o espetáculo, libertinagem, sexualidades, luxúria e muito mais. Confira.
A personagem fala que "ousou cumprir sua vocação libertina". Você acredita que libertinagem é vocação? Não seria destino de todos nós, caso não vivêssemos sob várias camadas de repressão sexual?
Todos têm um potencial libertino que podem desenvolver, mas, fala a verdade: não tem gente que nasceu pra coisa? Tem uns bem mais ‘vocacionados’ que outros. Acho que alguns são até mais dotados sexualmente. No caso da personagem, a libertinagem é um norte na vida dela. Ela se libertou da culpa.
A libertinagem da personagem não reflete uma permissividade maior, geralmente atribuída à cultura nordestina?
Eu diria que não é nordestina, e sim baiana. Eu acho que a Bahia tem algo novo a dizer sobre sexo. A libido baiana é muito diferente, e a personagem é muuiiito baiana.
A personagem passou por experiências sexuais, incluindo sexo grupal e com outras mulheres. Qual a origem dessa ambivalência sexual?
Não é ambivalência porque, para ela, tudo é válido. Ela não fica oscilando, uma vez que não existem pólos para sua sexualidade. Ela é um homem-fêmea, ou uma mulher com um pau enorme. Ela pensa como homem.
Uma inversão de papéis?
Algo que está além disso. Por exemplo, eu conheço homens que são mulheres, sem necessariamente serem gays. No caso da personagem, ela se comporta da maneira que, miticamente, um homem se comportaria. Por exemplo, ela toma atitude, não espera ser cortejada. Como os homens, ela tem mais facilidade de separar amor e sexo.
Mas, mesmo com cabeça de homem, ela se jogou em experiências que vão além da definição de papéis.
Sim, ela diz que gostou de ter experimentado. Mas diz também que não gostou de tudo que fez. Diz que não gostou de fazer sexo com animais e que suruba com muita gente também não é legal. Na verdade, o sexo para ela é um ato de bondade. O livro do João Ubaldo foi escrito em uma série que falava sobre os sete pecados capitais e A Casa
dos Budas Ditosos correspondia à luxúria. Mas o João Ubaldo acabou afirmando que a luxúria não é pecado, mas sim uma invenção de Deus, já que foi Ele que criou o sexo. A personagem vive o que a humanidade vai viver daqui a alguns anos.
![]() |
De que forma?
A aids facilitou então a libertinagem?
Oficializou a libertinagem! O mundo, agora, é obrigado a aceitar a homossexualidade, mas de maneira diferente para homens e mulheres. Como se acreditava desde o início da epidemia que as relações entre mulheres eram mais seguras, o sexo entre as lésbicas ganhou um tom de sagrado.
A Casa dos Budas Ditosos está em cartaz no Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196.
Terça e quarta, às 21h. Informações: (11) 3258-3616.



Infopride
Assine já a revista