Tetine
O duo brasileiro que arrebatou a Europa
Por Gustavo Ranieri
Foto: Gustavo Ranieri
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Radicados em Londres há sete anos, a dupla Bruno Verner e Eliete Mejorado vivem o melhor período da carreira com turnês pela Europa e Estados Unidos |
A entrevista começou no horário marcado, às 18h, em uma casa no simpático e familiar bairro paulistano da Vila Mariana, em São Paulo. O duo Tetine de electro-rock, electro-funk carioca, spoken word e muito experimentalismo, já estava a minha espera.
Sem maquiagem, penteados ou roupas performáticas, o Tetine, ou melhor, os brasileiros Bruno Verner e Eliete Mejorado, estavam à vontade para falar sobre a carreira de 11 anos - o mesmo tempo em que estão casados –, a vida em Londres, onde estão radicados há 7 anos, e a relação da banda com a cena gay.
Com 10 álbuns lançados e algumas compilações, como Olha Ela De Novo, Slum Dunk Presents Funk Carioca Mixed by Tetine, Bonde do Tetão e L.I.C.K. My Favela, o Tetine é, sem dúvida, uma das maiores referências modernas de artistas que sabem unir música, performance, poesia e fazer dessa linguagem um universo muito além do convencional.
Vocês começaram o Tetine há 11 anos e estão casados durante o mesmo período. O que veio primeiro, a música ou o namoro?
Bruno – A dupla musicalmente existe desde que a gente se casou.
Eliete – Na verdade a gente não sabe o que começou primeiro. Se a relação começou por causa da banda ou se a banda começou por causa da relação
Mas essa relação afetiva e musical começou como?
Eliete – Eu estava vindo do Rio de Janeiro para voltar a morar em São Paulo e foi quando eu conheci o Bruno. Certa vez a gente tava brincando com o piano... eu comecei a fazer umas brincadeiras com a voz e ele falou “que incrível. Vamos montar uma banda”.
Aliás, como surgiu o nome Tetine?
Bruno – Quando a gente começou queria um nome que fosse orgânico, sensual. A gente abriu o dicionário e nos deparamos com a palavra francessa Tetine, que siginifica chupeta e em italiano peitinho. Em português é Tetine, que tem a ver com tudo que nós somos.
E como era a linha musical do Tetine no início?
Eliete – A parada antes era super diferente, muito experimental, brincava, por exemplo, com o som obtido com a vibração da unha.
Bruno – Era muito punk, bem gritado, a gente tocava num tecladinho e tinha as programações. A música era muito densa, muito pesadona, cheia de performances e vimos que tinha um público para isso.
Mas vocês tinham pretensão de fazer sucesso?
Eliete – Não, no início a gente fez uma coisa que era de brincadeira e as pessoas enlouqueceram, achavam que era muito legal. Não dava pra acreditar, porque em 1995, no Brasil, não tinha esse tipo de música, esse tipo de atitude. Era algo muito honesto, tudo o que a gente falava. Então fomos levando a carreira e fizemos um trilha sonora de um espetáculo de dança. Depois fizemos uma música de amor. E coincidentemente ou não, depois da música de amor, fomos convidados em 1999 para ir para a Inglaterra, para aplicar um método de vocalização para um grupo teatral da Queen Mary University.
Bruno – Na época a gente então fazia residência e criava um trabalho novo. Depois montamos um espetáculo com os estudantes e após nove meses em Londres recebemos um convite da gravadora Sulphur Records, e o convite da rádio Resonance FM.
Foi aí que a carreira alavancou?
Eliete – Sim, o convite para trabalhar na rádio foi super bacana para a gente. A idéia era tocar músicas diferentes, porque quando a gente falava na Inglaterra que tinha uma banda, as pessoas achavam que a gente tocava samba e bossa-nova. Fizemos então quatro programas sobre funk carioca, porque estávamos apaixonados pelo funk, porque na minha opinião era uma música brasileira original, tudo o que o país ainda não tinha mostrado. E as pessoas adoraram os programas e convidaram a gente para ficar mais tempo e já estamos então há quatro anos fazendo.
Bruno – O nosso programa [intitulado Slum Dunk] é mais focado para artistas e grupos que o público não conhece. A rádio que nós estamos é uma rádio arte, sem propaganda, que está fora do circuito industrial.
Quando foi que o Tetine estourou mesmo nas paradas?
Eliete – Eu acho que a gente tá, pelo menos na Inglaterra e Estados Unidos, no momento mais importante da nossa carreira. Também porque depois do funk começamos a tocar todos os tipo de músicas que sempre amamos na nossa vida. Em 2006 a gente ficou, por exemplo, dois meses em turnê nos Estados Unidos.
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Foto: Divulgação |
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O duo em show londrino |
Mas não teve ninguém que torceu o nariz por causa do funk?
Eliete – No começo achavam que a gente tava louco, principalmente as pessoas que foram acostumadas com o Tetine experimetal e devem ter pensado: “que diabo que é esse?”. Mas o jeito que fazíamos funk carioca tinha muito a ver com a nossa base, mas a gente não fazia o funk carioca igual ao da favela. O funk da favela a gente quase reverencia como uma entidade. O que nós temos para oferecer ao funk é o nosso background e não tentar fazer igual.
Bruno – O Brasil agora que tá começando a aceitar o funk. Eu acho que melhorou bastante, no começo era odiado.
Eliete – Eu tenho minha teoria: eu tenho minha buceta e eu não vou me sentir bem gozando com a buceta da Tati (se referindo a funkeira Tati Quebra-Barraco). Eu queria gozar com a minha própria. Se eu não tiver minha buceta ali colocada no sentido mais freudiano não tem graça pra mim.
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Fotos: Divulgação |
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Apresentação no Barbican Centre, Londres, em fevereiro do ano passado |
E como é a relação do Tetine com a cena gay?
Eliete – A gente sempre foi gay. Em alguns lugares héteros que a gente toca na Europa eles acham que eu sou travesti e eu adoro parecer travesti. Eu fui criada para ser travesti. Essa referência gay é uma coisa nossa, a gente já trocou de papel no show, eu fui ele e ele fui eu.
As letras de vocês têm também muita referência gay. Isso é de raiz?
Eliete – Isso tem a ver com os personagens que a gente faz, tem muita ficção e muito realidade na nossa letra. E acho que temos isso muito forte na nossa raiz de fazer narrativas. Eu adoro peruca, barba, bigode, sempre adorei, por isso que gosto dessa coisa de personagens.
Esse lado sexual sempre foi bem explorado por vocês, né?
Bruno – A gente sempre foi muito sexual. Eu acho que basicamente a gente fala sobre sexo desde o primeiro disco. É um assunto que é recorrente. A gente fez um clipe agora que foi em um pub gay, o clipe foi feito todo lá dentro e tem muito a ver com as coisas que a gente já falou, sobre sexo, sobre trocas de papéis.
Eliete – Por isso que eu falo da buceta. Porque pra mim a buceta é uma coisa muito séria, porque se eu não tiver a sexualidade encaixada no que eu tô querendo, no que eu acredito, eu não consigo achar aquilo incrível. Eu preciso achar as coisas instigantes, sensuais.
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Eliete Mejorado durante show parisiense |
E falando em instigante e sensual, todas as apresentações de vocês são bem performáticas, né?
Eliete – Eu sempre me transformo no palco. Para mim é muito importante. Se eu não fizer a brincadeira de transformar não sou eu mesma. Nesse show L.I.C.K My Favela eu sou uma mulher cavala e para mim é super bom essa coisa de misturar.
Vocês declararam certa vez que já tiveram affairs com pessoas do mesmo sexo. O casamento de vocês é aberto para essas experiências?
Bruno – O relacionamento nosso nunca foi uma coisa institucionalizada, não foi assim que a gente se conheceu, nunca foi uma questão de precisar dizer que formávamos um casal hétero, porque a gente nunca se encaixou como um casal hétero. Eu já tive relacionamento com outras homens e a Eliete com outras mulheres e isso nunca foi um problema. E isso está explícito no trabalho, nas letras, no palco.
Eliete – Eu acho que a gente tem uma intimidade muito louca, a gente vive 24h por dia juntos, conhece muito um ao outro, é muito louco quando estamos performando porque a gente sabe até o que o outro está pensando. E essa intimidade nos abre um leque de possibilidades de confiança.
E como você vê a diferença da cena gay brasileira com a cena gay inglesa?
Eliete – Eu acho que a cena gay brasileira é uma cena com vontade de enlouquecer, na Inglaterra eu acho que é uma cena mais de pose, é muito fetichista. O brasileiro, mesmo o hétero, ele pode se permitir ser um pouco gay.
Bruno – A diferença está no temperamento também, na Inglaterra é mais setorizada a cena gay, bem dividido em gays, lésbicas e os héteros não costumam se misturar. No Brasil é todo mundo junto, é legal.
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Fotos: Divulgação |
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Show no Palais de Tokyo, em Paris, |
Qual é a visão do Tetine sobre o Brasil?
Eliete – O Brasil espera muito. Eu acho que a gente tem poder aqui dentro pra resolver nossas coisas, não precisa esperar que ninguém de fora venha para resolver nossos problemas. Eu acho que falta orgulho para o brasileiro, falta valorizar o que a gente tem.
Mas vocês acham que se o Tetine tivesse continuado apenas no Brasil vocês teriam o mesmo sucesso hoje?
Eliete – Não. Se a gente tivesse continuado aqui a gente já teria acabado. Assim, a Inglaterra foi boa para gente porque nos valorizou como artistas em outros sentidos. A gente não precisava organizar mil festivais para poder tocar. Nós tocamos em lugares muito legais, como em Tóquio, em Chicago, em Amsterdã.
Bruno – A gente tá falando de uma maneira geral, mas eu acho muito interessante que o Brasil tem coisas incríveis, milhares de microcenas que são interessantíssimas. Mas o que acontece, existem microcenas, mas em relação a Rede Globo e a todo o sistema capitalista, isso é engolido de uma maneira que você tem que ser muito louco para gritar pro resto da sua vida, que é o que a gente fazia aqui. Nós lançamos três discos no Brasil, todos independentes, a gente é uma banda bem conhecida no Brasil, eu acho, mas por insistência, porque a gente é passional, porque quando não tinha distribuição a gente levava o disco pra loja.
Então vocês não têm nenhuma pretensão de voltar a morar no Brasil?
Eliete – Eu adoro o Brasil. Mas nesse momento eu tô adorando tanto a Inglaterra como eu nunca gostei antes. Eu vou pra Nova York, eu gosto de lá, mas eu acho que ninguém entende uma piada como um inglês, ninguém faz piadas tão boas. Eu adoro piada e eu acho que estou no lugar certo.
Qual foi o melhor show do Tetine?
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Tetine levando público ao delírio na Áustria |
Eliete – Eu acho que foi em Amsterdã, tinham 5 mil pessoas, a gente estava no 13ª andar de um museu, todo de vidro, dava para ver a cidade inteira. Foi muito legal. Mas cada show é muito particular, porque cada lugar tem seu charme.
Bruno – Às vezes o show é legal em lugares super pequenos, muito mais do que em lugares grandes.
E como vocês definem o Tetine?
Bruno – Pra mim o Tetine não é uma banda, Tetine é cinema.
Eliete – Tetine é sensual, esse pinto que eu tenho em mim, eu sou ele, eu sou Tetine, eu sou ela e é minha vida.
E quais são os próximos projetos da dupla?
Bruno – A gente tá agora com o disco novo, pela Sum Records.
Eliete – Ele é um pouco diferente do L.I.C.K My Favela. Vão ter alguns elementos do funk carioca, mas na verdade a gente tá misturando com o rock punk, indo para frente com toda a bagagem que temos, também revendo coisas de nossos trabalhos anteriores, sonoridades.
Mande uma mensagem então para os brasileiros que são fãs de vocês.
Eliete – É um prazer vir pra cá e eu acho que o Brasil é um país muito especial e a gente precisa olhar mais pro ouro que a gente tem. Toda a vez que eu falo que sou brasileira para qualquer pessoa de outros países, todos abrem um sorriso por causa desse carma lindo que a gente tem. Eu acho que é isso que o Brasil deveria pensar.







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