Preta Gil
Todas as cores de Preta
Por Claudia Wonder e Ferdinando Martins
Fotos: Fernando Torquatto
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Preta Gil não pára. Decidida a investir cada vez mais na carreira de cantora, ela agora está dominando o palco com o musical Um Homem Chamado Lee, homenagem a Rita Lee, comadre de sua mãe |
Nome
"Quando meu pai foi me registrar no cartório, não queriam deixar colocar Preta. Ele fez um escândalo. Se existem Brancas, Claras, Rosas, por que não Preta? O tabelião disse: “Deixo se você colocar Maria, um nome católico, depois”. Por isso sou Preta Maria. Quando nasci, meu pai tinha acabado de voltar do exílio em Londres. Ele diz que eu sou símbolo da liberdade, por ter sido a primeira filha que nasceu no Brasil. Simbolicamente, carreguei isso nas minhas atitudes, no meu jeito de pensar, de agir."
Medo
"Eu não encaretei com o tempo. Minha geração foi ficando mais careta por causa do medo. Medo do mundo, da violência, da mídia, da Aids, de ser abandonado, de sentir dor. Hoje em dia é tudo muito efêmero. Daí vêm as doenças: síndrome do pânico, bipolaridade, depressão. Quando eu fiz as fotos com a Vânia Toledo [fotógrafa que fez as imagens para o encarte do primeiro CD, de 2003, em que Preta aparece nua], não esperava a reação negativa. Me chocou a hipocrisia das pessoas, que também é gerada pelo medo."
Nudez
"Quando eu fiz as fotos para o CD foi com intuito absolutamente artístico, com uma mentalidade artística, conceitual e absolutamente com conteúdo. A Vânia Toledo queria expressar um renascimento, eu estava nascendo de novo, assumindo minha veia artística. O disco chamava Prêt-à-Porter, pronta para vestir. Então é exatamente isso: até hoje estou aos poucos vestindo outras caras, outras personagens, essas interpretações que eu tenho feito também foram com esse intuito. E, artisticamente, faria muitas outras fotos nuas se fosse necessário."
Homossexuais
"Meu primeiro contato com gays foi quando eu nasci! Olha a árvore genealógica da minha família, a Tropicália, a efervescência da liberdade sexual ali no auge. Eu só vim a perceber que existia preconceito, essa imposição da sociedade, quando fui estudar em uma escola de classe média do Rio. Para mim, gays, bichas, sapatas é tão normal. Tinha as amigas da minha mãe, os amigos do meu pai..."
Preconceito
"O preconceito, para mim, bate na trave e volta. Se eu for vestir a carapuça de tudo que sai a meu respeito, vou ficar dentro de casa e não vou sair. O importante é saber quem você é. Sei quem eu não sou: não sou a louca, não sou a despirocada, não sou a drogada, a pervertida. Eu sei quem sou: uma mulher digna, que crio o meu filho, que trabalho, que ralo. Tenho minhas mazelas, meus defeitos, mas que busco melhorar. Estou batalhando. Sempre impus um limite para as coisas que faziam mal a mim. Eu acho que sou minha própria droga e tenho de saber a medida dela. A própria Preta Gil em excesso pode me matar de overdose."
Paparazzi
"Tenho muitas revistas da época da minha mãe e do meu pai com eles na capa. Sempre houve essa curiosidade, é normal. A diferença é que hoje em dia querem o flagrante. Não querem mais o posado, autorizado. Querem o proibido. Sou uma pessoa que não tem muito o que esconder, então eles não têm muito o que flagrar em mim."
Rio de Janeiro
"Eu fazia topless na praia. Um dia, um amigo chegou e falou: 'Sabia que você podia ser presa?'. Topless hoje em dia no Rio é proibido, é desacato ao pudor. Eu estou lá na minha praia, mas um delegado ou coisa assim que queira aparecer pode mandar me prender. Eu não sei de onde vem esse pudor da cidade mais despudorada do mundo. "
Exposição
"Acho que me expus demais no começo. Eu via os programas de fofoca à tarde na televisão: 'Preta Gil, filha de ministro, assume homossexualidade', 'Preta Gil diz que já fez suruba'. Dei informações sobre minha vida pessoal absolutamente desnecessárias. Chocou muita gente, me estereotipou como uma louca. Não falei nada que qualquer ser humano normal não teria feito, mas nem todo mundo tem coragem de falar. Fui mais do que sincera, fui ingênua."
Transgressão
"Sou transgressora de mim mesma. Tento transgredir meus sentimentos, minhas dificuldades, para que eu cresça e me torne uma mulher melhor, uma mãe melhor, uma artista melhor. Tento transgredir os meus próprios preconceitos e paradigmas, as colocações impostas pela sociedade. Não engulo hipocrisia, não engulo bobagem."
Amores e ódios
"Quem me ama, me ama. E quem me odeia, me odeia e me fala. Mas acredito que me odeiam porque eu toco em alguma ferida que ainda estou tentando descobrir qual. Agora, têm essas coisas na internet, como a comunidade Puta Que Pariu, Eu Odeio a Preta Gil, que reúne mais de 34 mil pessoas.... Eu fico tentando descobrir de onde vem isso: você entra lá e lê coisas como 'essa gorda escrota' ou 'a gorda quer aparecer'... É muito agressivo e essa agressividade está na juventude de hoje de uma forma muito louca. Eu descobri que amigos do meu irmão, que gostam de mim, estão na comunidade Eu Odeio Preta Gil porque é ‘engraçado’ entre os amigos da escola fazer parte. A Ivete (Sangalo) diz que eu não devia ver essas coisas, nem entrar na comunidade, mas eu virei orkuteira."
Quebrar tabus
"Quebrar tabu tem dor, sofrimento e prazer. Você rompe suas próprias limitações, seus preconceitos. Precisei me conhecer, saber quem eu sou, o que quero, para quebrar os tabus. É tabu transar com mulher? Por quê? Hoje em dia é quase natural as meninas experimentarem. Mas infelizmente a sociedade ainda não está preparada."
Rebeldia
"Não sou nada rebelde, sou uma filha absolutamente carinhosa, sempre ouvi meus pais, sempre fui amiga deles. Mas, na minha adolescência, logo depois que meu irmão morreu, eu morava com a minha mãe, uma mulher absolutamente dilacerada por uma tristeza profunda, e eu muito nova, sem conseguir segurar a onda e ajudá-la, tive um rompante, daqueles que toda a adolescente tem, uma crise de identidade. Resolvi sair de casa, casar e ir morar em São Paulo e arrumar um emprego. Não se trata bem de uma rebeldia, é mais uma atitude rebelde, uma resposta a esse momento que nós todos sentimos às vezes, de estar um pouco perdido, sem rumo."
Arrependimento
"Nesse episódio que saí de casa, por exemplo, eu me arrependo de ter largado os estudos. Na época eu estudava teatro, canto... Eu tenho uma família super unida, super equilibrada, com estrutura que sempre me deu o que eu precisei e, justamente por esse estereótipo do adolescente que tem que buscar sua identidade, tive uma atitude que hoje considero infantil. Se meu pai e minha mãe fossem menos liberais e mais caretas na época, eles não teriam deixado eu sair de casa. Se hoje um filho meu adolescente, por exemplo, falar que vai parar de estudar para trabalhar, eu diria nananina não! Falaria para esperar, terminar a escola e depois... Mas meus pais deixaram justamente porque percebiam que eu não estava feliz dentro daqueles padrões tidos como ‘normais’, como ter que ir à escola, etc."
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Mulher
"Me acho uma mulher bicha, uma travesti, praticamente. As bichas me falam muito isso: você é um viado que deu certo. Por quê? Só porque tenho xereca? Acho que já nasci operada. Eu atraio bichas, eu gosto de falar, eu gosto do truque, gosto de cabeleireiros, de maquiadores, artistas, pessoas criativas, eu amo todos. Eu não diferencio as pessoas pela orientação sexual, mas pela graça, pelo caráter, pelo amor."
G Magazine
"A G é uma revista bacana, que ajuda, e que não é só para o público gay. É para as pessoas curiosas em ver aqueles assuntos tratados na revista. Tenho amigas e amigos héteros que gostam de ver. Eu tenho um pouco de pânico de ver homem pelado. Sempre que folheio a revista, boto a mão."
Festa Junina
"O Caio Blat era galãzinho de novela. Me apaixonei por ele pela televisão e fui atrás. Ele era um super namorado, mas não queria casar. A gente ia fazer uma festa junina. Eu, que não sou boba, disse que tinha de ter um casal de noivos. Só que levei aquilo muito a sério. Mandei fazer o vestido de noiva, como se fosse me casar de verdade. Ele sabia que eu estava animada, pirando, mas foi dando corda para eu me enforcar. Quando chegou o dia da festa, ele fantasiado de caipira e eu de modelão, muito fina. Não importa que nosso namoro não tenha dado certo. Somos grandes amigos e tenho meu álbum de casamento caipira."
Sedução
"Eu já perdi a mão, até porque acho que isso tudo tinha muito a ver com minha não-felicidade pessoal, com o vazio muito grande que sentia em relação a mim. Ultimamente, tenho uma realização pessoal tão forte que não preciso mais disso. Obviamente, se fico muito a fim eu invisto. Armo mesmo. Sou boa estrategista. O Paulinho foi também outra história dessas. Eu vi o Paulo Vilhena na TV, achei um fofucho e fiz uma armação. Convidei para um evento no Rio. Antes dele chegar, entrei na internet e vi tudo o que ele gostava. Quando ele entrou no meu carro, estava tocando a música certa, o cheiro certo. Ele pensou: 'Nossa, que mulher é essa!'”.
Mensagem para os leitores da G
"As coisas do desejo são naturais, e o que é bom a gente deve deixar fluir. Mas tem que ter a medida do próprio veneno. Quando sentimos que vamos fazer mal a nós mesmos, é preciso parar e refletir. Amar a si próprio e amar o outro como amamos a nós mesmos. E tentar entender a si próprio, que somos seres humanos loucos, que a gente pode se permitir ser louco."
Peça
"A peça é um presente. O Rodrigo [Pitta, co-autor e diretor do espetáculo] é meu amigo há muitos anos e sou admiradora do trabalho dele. Um dia, eu dirigia meu carro e recebo um telefonema dele dizendo ‘olha, escrevi uma peça. É sobre um travesti que seqüestra a Rita Lee'. Falei na hora: eu topo. Quando ele me mandou o texto e eu vi o grau de dramaticidade e a quantidade de texto, fiquei com medo. Mas fui me preparando ao longo do tempo. Uma história muito rica, de sentimento, de vivências. Como é musical, me dá mais tranqüilidade."
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Em cena como travesti
Artista Multimídia
"Isso não foi proposital. Minha ambição é crescer como cantora, mas eu gosto de projetos, coisas que vão me dando tesão na vida. Se aparecer um projeto de teatro, não tenho porque não fazer, mas não tenho grandes pretensões. O que eu quero hoje é que Um Homem Chamado Lee tenha uma longa vida, porque as músicas da Rita são interessantíssimas, assim como a história da Lee."
Televisão
"Televisão é uma paixão que eu tenho. Adoro televisão. O grande mal no mundo é a falta de comunicação. E acredito que meu jeito de ser, essa agilidade e energia que tenho, combina com o veículo. Eu gosto da TV e a TV gosta de mim. Mas talvez eu não goste de me sentir limitada ou podada. E meu projeto é a música, estou focada nisso. Mas se tiver proposta bacana, pode acontecer..."




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