Ronald Assumpção
Um assumido publicitário cinco estrelas
Por Redação G Magazine
Fotos: Sérgio Miguez
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Um dos mais importantes publicitários do país fala abertamente sobre como encarou sua homossexualidade na vida pessoal e no trabalho |
Um dos mais importantes publicitários do país finalmente resolveu aceitar nosso insistente convite
e abriu as portas de sua casa e de sua história para um time especial de entrevistadores:
Ana Maria Fadigas, diretora da G Magazine, e Maria Célia Furtado, diretora da Associação Nacional
de Editores de Revistas (ANER). O resultado? Uma conversa reveladora onde ele fala abertamente
sobre como encarou sua homossexualidade na vida pessoal e no trabalho
Ronald Assumpção saiu do Ceará no final dos anos 60 para se tornar um dos publicitários mais importantes do país. Foi ele, por exemplo, que conseguiu que o Banco do Brasil publicasse anúncios na revista G Magazine. Com carreira internacional, foi presidente no Brasil e no México de uma das maiores agências do mundo, a Ogilvy & Mather. Depois, abriu em São Paulo sua própria agência, a Calia & Assumpção, que vendeu em 2004 com o intuito de se aposentar, já que estava há mais de 30 anos no mercado. Mas, em menos de dois anos de “curtição e vagabundagem” – como ele mesmo diz –, foi convidado para assumir a direção da Alazraki na Cidade do México, a mais badalada agência de publicidade daquele país. E lá vai o carismático Ronald se jogar de cabeça no novo trabalho.
Dias antes de viajar, ele recebeu a equipe da G Magazine em um de seus apartamentos no Brasil, o que fica de frente para o mar no Rio de Janeiro. Mais do que uma entrevista, Ronald compartilha importantes lições de vida, que dividimos em blocos temáticos para você não perder nem um pouquinho do que ele tem a nos ensinar.
O nascer de um sonho
“Nasci em Fortaleza, no dia 14 de fevereiro de 1949. Fui batizado com o nome Ronald, que era super incomum, em homenagem ao Ronald de Carvalho, poeta brasileiro que meu pai e meu padrinho gostavam muito. Fortaleza tinha um cinema que passava filmes de arte. Iam as turmas das faculdades, eu ia junto, embora com 14, 15 anos... Era antenado, passava Godard e essas coisas que eu nem entendia nem gostava (risos), mas todo mundo falava. Lembro de uma cena num desses filmes, acho que em Cidadão Kane, onde aparece uma sala enorme com uma mesa de reunião imensa e as janelas mostrando aquele skyline de Nova York. As pessoas sentadas na mesa e um homem muito elegante na cabeceira, um chefão. Achei aquilo tão bonito e pensei: um dia vou estar num lugar desses. Cheguei em casa e contei pra minha mãe. Então pedi pro meu pai me deixar fazer o curso para entrar no intercâmbio cultural e ir para os Estados Unidos aprender inglês. Achei que seria importante, que se falasse bem inglês teria chances melhores, e tinha razão. Tenho certeza que ele deixou porque achava que eu não fosse passar! (risos) E pimba, passei. Passei porque a prova era toda baseada em conhecimentos gerais. Eu lia muito jornal, sabia tudo...”
Família americana
“Foi a primeira vez que saí do Ceará, e fui direto pra Nova York – tinha 17 pra 18 anos. Fui ficar na casa de uma família americana que é minha segunda família até hoje. Fui adotado por eles. Tenho uma relação muito forte com meus ‘irmãos’ americanos, sempre vou visitá-los. Tenho sobrinhos-netos americanos que me chamam de tio. Fiquei um ano lá. Essa família quis vir ao Brasil, foram comigo até Fortaleza conhecer meus pais. E, chegando lá, fizeram o convite para que eu voltasse com eles e fizesse faculdade nos Estados Unidos. Aí meu pai aceitou”.
Ser ou não ser gay?
“Sabia que tinha atração por meninos, mas tinha por meninas também. Nos Estados Unidos eu via caras maravilhosos, me dava um negócio. Me preocupava em não dar pinta e tinha relações sexuais muito sem graça com mulheres. Com uma namorada, cheguei a falar em casamento. Então voltei ao Brasil e foi aí que o bicho pegou: me apaixonei por um cara. Pensei que ia pirar, veio tudo abaixo. Eu já estava com uns 25 anos, já tinha transado diversas vezes com homens, mas ficar apaixonado, isso eu não aceitava de jeito nenhum. Aí é que fodeu! (risos) Fiquei embasbacado, comecei a me questionar. Eu me dizia ‘Como é que pode, sou macho do Ceará!!! Não pode!’. Eu rejeitei completamente aquele cara. Sofri, mas passou. Fiquei um ano e pouco celibatário, comecei a ter uma série de culpas, achando que não tinha feito as coisas direito. Pensava se não deveria ter casado. Acordei um dia e falei: ‘Espera aí! Não é nada disso! Calma, que não tenho culpa de nada! Quem não estiver concordando com o que está acontecendo comigo que vá falar com Deus’. Era minha vida, as pessoas teriam que me aceitar daquele jeito”.
Minha mãe nunca perguntou
“Quando vim morar em São Paulo com meu namorado, minha mãe veio passar uns dias comigo. Era um apartamento bem pequeno de quarto e sala em Santa Cecília, região central de São Paulo. Uma cama de casal no quarto e um sofá-cama na sala que preparei pra ela. Na hora de ir dormir, demos boa-noite e fechamos a porta do quarto sem nenhuma explicação. Não sei o que passou na cabeça dela. No dia seguinte ela não falou nada, talvez até tenha antecipado sua volta por causa disso. Um tempo depois fui a Fortaleza e ela veio feito uma jararaca pra cima de mim, e disse, muito séria: ‘Poooosso lhe fazer uma pergunta?’. Eu disse: ‘Se a senhora estiver preparada para a resposta, pode!’. Ela nunca perguntou! Era um problema dela, não meu”.
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Ronald com seu companheiro Reginato: juntos há quatro anos |
Outing no trabalho
“Se dissesse que não disfarçava no trabalho, seria mentira, e não quero mentir aqui nem por um minuto. Havia uma certa omissão. O pessoal do escritório não convivia com a minha casa. Eu não falava da minha vida pessoal. Mudei para o Rio e meu parceiro veio comigo. Então começou a ficar mais claro, mas nunca ninguém veio falar comigo diretamente. Depois mudamos para o México. Um dia avisei a todos que faria um jantar – ele cozinhava maravilhas. As pessoas sabiam mais ou menos do nosso caso, ou intuíam, mas não o conheciam. Eu o apresentava: ‘Esse é o amigo que mora comigo’. No final as pessoas aplaudiram o jantar, tudo muito civilizado. Então, já estava tudo claro em relação à empresa onde fiz carreira”.
Precisava ser duas vezes melhor que os outros
“Tem uma coisa que percebi muito cedo: eu tinha que ser muito bom. Não existe mais ou menos para fazer uma carreira numa grande empresa. Percebi que se fosse tão bom quanto um companheiro casado e com filhos, ele ganharia a parada. Percebi que se eu fosse 30% melhor que ele, ele ganhava de novo. Então realizei que precisava ser o dobro de bom em relação aos outros. Por isso digo que é muito difícil ter um publicitário melhor do que eu nesse país. Muita gente não vai aceitar isso, até por preconceito, mas afirmo isso por ter precisado mesmo ser muito melhor do que a média para vencer. Tomei uma lambada uma vez por ter sido comparado, e aprendi”.
Do Ceará para o mundo
“Fui presidente da Ogilvy no México e depois no Brasil, uma grande empresa multinacional de comunicação. Eu ia jantar com os Civita, da Abril, com Roberto Marinho, da Globo, era top do top mesmo. Fui convidado para fazer parte do board (conselho) mundial da empresa. Havia um encontro desses executivos em Nova York. Foi aí que aquele meu sonho de adolescente se realizou. Essas reuniões eram numa sala imensa, em Manhattan, com aquele skyline famoso ao fundo, aquele povo sentado em torno da mesa pomposa, e eu era uma daquelas pessoas. Olhei e falei: ‘Porra, consegui! (risos) Saí do Ceará e cheguei aqui nessa merda (risos)!!!’. Éramos 21 pessoas no board, as estrelas da companhia em uma empresa com mais de 10 mil funcionários”.
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Maria Célia Furtado, da ANER, |
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Ana Fadigas, diretora da G, é |
Senhor e senhora, não!
“Na empresa havia eventos com aquelas formalidades de convites nominais e tal. Aí recebo uma ligação da secretária lá em Nova York dizendo que a organizadora queria saber como colocar o nome do Manoel, meu companheiro mexicano, nos convites. Eu disse ‘Coloque Sr. Ronald Assumpção e Sr. Manoel Almeida’. Passou um pouco e ela liga de novo: ‘Temos que achar outro jeito, porque esse o protocolo não permite’. Eu digo: ‘Olha, de protocolo não entendo nada (risos), mas, por favor, não coloque Sr. e Sra. porque vai ficar horrível. Então coloque Sr. e Sr. e tudo de bom’... E ela: ‘Ah, mas isso também não pode’... Aí falei: ‘Então faça como for preciso, isso não é problema meu’... (risos) Depois soube que alguns casais hétero que não eram oficialmente casados receberam convites iguais, ‘Sr. tal e acompanhante’, e algumas mulheres ficaram chateadas por causa disso”.
Dinheiro rosa
“Começaram com essa história de pink money, fiquei com ódio. Eu nunca tirei da carteira um dinheiro cor-de-rosa, nunca! E acho que no dia que fizer isso ninguém vai aceitar. O meu dinheiro é verdinho, e desse todo mundo gosta (risos). Lucros e perdas não conhecem sexo. O negócio é grana, vamos entender e pronto, não me preocupo muito com essa história. Vejo empresários fazendo coisas para os gays e é óbvio que você até pode se sentir mais à vontade para certas coisas. Sempre brinco e digo aos meus amigos que não saí do Ceará à toa. Tô acostumado com praia boa, com coco bom, não gosto de porcaria. Se é um restaurante para gay e tem comida boa, vou. Se é para hétero e a comida for boa, também vou. Gosto de coisa boa! Não misturo essas coisas. Por exemplo, na praia, o pedaço gay deixa todo mundo mais à vontade. Eu prefiro e vou lá”.
O Banco do Brasil na G
“Como publicitário, encaro o cliente, o produto, a marca, tudo, do ponto de vista técnico. Não misturo se é gay ou hétero. Na verdade, o objetivo do cliente é vender. A nossa agência ganhou a conta do Banco do Brasil, e estávamos criando uma nova campanha que era ‘Os seus valores são os nossos valores‘. E dentro desses valores falava-se de respeito e igualdade. Pela força e importância do banco, ele está presente em todas as mídias no Brasil, em tudo que é revista. Mas olhando o plano de mídia, me ocorreu que a gente precisaria estar dentro de algumas mídias em que esse assunto tivesse mais coerência e mais peso – a G Magazine, por exemplo. Eles nunca tinham estado dentro de uma revista gay. Então, fiz uma análise do ponto de vista técnico, e não sentimental ou político. Expliquei e o cliente, como é muito profissional, entendeu e aceitou. Foi onde a G entrou. Eu soube depois que o banco recebeu muitos e-mails e cartas de pessoas elogiando o fato de estarem presentes numa revista como a G, que dava ao banco o peso que merece, como uma das instituições mais sérias que esse país conhece”.
Publicidade x nudez
“Sem dúvida, existe um bloqueio. Sei de algumas empresas que têm diretrizes contra a revista Playboy, por exemplo, por causa do nu explícito feminino, e vão ter obviamente com o nu masculino, ainda mais com ereção. Mas não é só aqui. Nos Estados Unidos as revistas de nu sofrem o mesmo problema de falta de anunciantes. A G hoje é uma revista que tem artigos bons, muita informação, matérias boas, colunas boas e, além disso, as fotos superinteressantes. Adoro quando a G entra no lado sensual. Quanto ao lado sexual, deve ficar por conta de cada um. É gostoso quando parece que estão ‘querendo’ comigo, e não ‘fazendo’ comigo, sabe assim? O ‘estão querendo’, a insinuação é que é o grande lance, e não o ‘estão fazendo’. E outra coisa: o modelo da capa, se for famoso, que seja famoso mesmo, ou coloca alguém muito lindo e bem desconhecido”.
Paradas e movimento gay
“É um processo válido. Mas veja, nas paradas americanas vem a turma segurando cartazes e letreiros e fazem a festa, mas depois cada segmento vai à luta pelos direitos. Vão fazer pressão no Congresso, nas empresas, fazem lobby, etc. Aqui a gente deixa tudo na mão de alguns poucos ativistas. O resto recolhe a fantasia, vai pra casa e lava as mãos. É uma coisa muito brasileira. Não é brasileira gay, é brasileira, ponto. Mesmo assim, as paradas têm ajudado em muitos aspectos. Algumas leis que antes eram impensáveis já passaram em alguns Estados. Lei antidiscriminação sexual no Brasil era impensável porque é uma coisa tipicamente machista ser contra gay, ainda mais as bichas homofóbicas, que são piores, é a pior raça que tem! Conheço algumas. Com o pau na boca, elas juram que não são gays (risos). E tem na política, na economia, em todos os setores. Vai entender”.
Por que eu deveria contar que era gay?
“Nunca tinha feito terapia na vida, até uns anos atrás, quando resolvi parar de trabalhar. Eu, que tinha sido presidente de multinacional, dono de empresa, sabia que precisaria me preparar. As pessoas atuam como suas amigas, mas na verdade elas são amigas do seu cargo e da sua posição, e eu sabia disso. Já tinha tido a experiência quando deixei a multinacional para abrir minha empresa. Houve uma queda substancial. Saí de uma empresa que faturava um bilhão e fui pra uma que faturaria 100 milhões. Então cai tudo, os Civitas da vida, Thomaz Souto Corrêa, os telefonemas, os convites VIP, aquelas coisas... Daí a gente não manda mais nada. Sabendo disso, entrei pra fazer análise com a Vera Furia. Genial, a Vera. Ela chegou pra mim e disse: ‘O que você veio buscar aqui?’. Eu: ‘Aprender a parar de trabalhar e parar de mandar’. Um dia, na terapia, ela me perguntou se eu havia contado para minha mãe que era gay. Eu disse que não, nunca contei. Meu irmão também nunca tinha contado que era hétero. Por que eu teria que contar que era gay?”.(risos)
De volta ao futuro
“Sempre os amigos me fazem mudar minha vida. Agora mesmo estou de mudança para o México por uma questão de amizade. Já morei lá de 84 a 91. Moro no Rio há quase dois anos. Vendi minha empresa em São Paulo, fiz meu pé-de-meia, tenho mais de 30 anos como publicitário, falei: ‘Chega, vou ser vagabundo no Rio, andar de bicicleta no calçadão, fazer curso de cerâmica’. Aí fui para o casamento de uma sobrinha no México e visitei o publicitário Carlos Alazraki (da Alazraki e Associados), um velho amigo. Ele me fez o convite para ajudá-lo a reestruturar sua empresa, pois ele gostaria de voltar para a área de criação. Fiquei surpreso, disse que precisaria pensar, conversar com meu companheiro, o Reginato. A gente nem tinha falado em dinheiro, mas não era essa a questão. Adoro um desafio. O Reginato vai terminar a faculdade este ano e topou ir comigo, então estou indo para o México de novo. Me deixo levar, é assim que as coisas se dão. Já tenho 57 anos e sempre foi assim...”
Relacionamentos
“Estou no meu terceiro casamento: o primeiro de dez anos, o segundo de 14, e esse está indo para quatro. O Reginato é quase 30 anos mais novo do que eu, mas sempre brinco com ele que tenho mais idade, mas ele é mais velho, mais senhorial, mais careta. E eu sou essa coisa, adoro uma fuzarca (risos). Vambora dançar? Bora!!!"
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O “chamado dos anjos” Começou num hotel no México, onde ele se sentiu atraído por um anjo esculpido em madeira antiga. Depois viu outros na beira de uma estrada e, num impulso, parou para comprá-los de um índio. Os amigos notaram aquele monte de anjos decorando sua casa e o presentearam com mais e mais. Assim, formou-se essa coleção, que continua aumentando. Mas Ronald nunca tinha parado para pensar muito sobre sua atração por anjos. Até que, exatamente dez anos depois da morte de um grande amigo, ele acordou com uma sensação estranha, uma angústia no peito. No almoço, comentou com um amigo espírita, que lhe sugeriu uma visita a uma sessão de mesa branca, dizendo que o amigo falecido estava querendo se comunicar com ele. Pois Ronald foi à tal sessão espírita – tudo deu muito certo, desde encontrar vaga para parar o carro na frente do local concorridíssimo até sentar-se na única cadeira vazia e bem em frente à médium – e recebeu mesmo uma mensagem muito significativa para aquele momento de sua vida. Ao voltar para casa e olhar a parede com os anjos, ouviu uma voz que o fez compreender que era o amigo, que se chamava Ângelo, o responsável por colocar tantos anjos em sua vida. Bonito, não? |






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