Nicola Siri
"O artista não tem sexo"
Por Gustavo Ranieri
Fotos: Andrea Rocha
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Ator interpreta o poeta espanhol homossexual Frederico Garcia Lorca no espetáculo Uma Última Cena Para Lorca |
O italiano Nicola Siri está no auge de sua carreira. Aos 36 anos de idade ele interpreta o poeta espanhol Frederico Garcia Lorca no espetáculo Uma Última Cena Para Lorca, participou de uma minissérie que está sendo exibida em Portugal e do filme nacional Diário de um Novo Mundo que deve chegar aos cinemas esse ano. Quem o olha, não consegue, em primeiro momento, deixar de relacionar sua bela figura ao padre Pedro, seu personagem na novela global Mulheres Apaixonadas. Aliás, foi como o padre que Nicola alavancou sua carreira no Brasil, onde já está há dois anos. Mas aqui, em uma entrevista especial, o ator contou ao G Online sobre o espetáculo que está em cartaz no tablado carioca, sobre suas ideologias e sobre o que acha da homossexualidade.
Como é embarcar no mundo de Frederico Garcia Lorca, que foi e é uma grandiosidade na literatura e um homem que protestava a favor das igualdades sociais?
Está sendo maravilhoso. Eu gosto muito de Lorca. Na verdade conhecia muito bem suas poesias. Eu me sinto um grande apaixonado e conhecia bem sua amizade com Dali (Salvador Dali), todo aquele período que ele viveu em Madri, enquanto estava na faculdade. Eu aceitei o papel exatamente porque eu ia fazer Lorca. Assim como eu também sempre fui na vida polêmico, no sentido de eu gostar de dizer aquilo que penso e é fundamental realmente cada ser ter a possibilidade de se expressar. Concordo plenamente com tudo aquilo que Lorca fez, porque não foi somente um grande gênio da poesia e literatura, também era músico. E cada dia é o momento de aprender mais sobre essa figura extraordinária que foi Lorca.
Com toda essa sua paixão, se torna possível emprestar seus sentimentos para o personagem a ponto de senti-lo vivo, não é?
Ah, tomara que sim, eu quero muito que sim. Eu estou trabalhando muito esse lado, de tentar estar mais perto de Lorca. Por exemplo, eu estudei muito o que Neruda (o poeta chileno Pablo Neruda) e Luis Buñuel (importante diretor espanhol de cinema) falava sobre Lorca e suas obras, mas ainda não quis ver documentário sobre ele, porque acho que é sempre fundamental ter um grau de liberdade, tipo, Lorca morreu em 1936 e então, ninguém daquela época vai assistir a peça.
Então, você não quis ter barreiras para interpretá-lo?
Eu acho fundamental modernizar o teatro, no sentido, se você vai fazer Shakespeare, é inútil que você tente fazer como era na Inglaterra no final de 1500. Eu acho que é muita bobagem. Agora, quem faz Frederico Garcia Lorca é um ator italiano e Lorca era espanhol, então é fundamental também, principalmente ser a metáfora de Lorca.
A sua preparação foi mais com relação a leituras de suas obras e biografias sobre o escritor?
Li as peças, como disse, e tudo que Buñuel, Neruda, Dali e Rafael Alberti falavam dele. Todas essas pessoas que contornaram ele. Fiz isso porque a pessoa em si pode falar sobre ela mesma de maneiras um pouco diferentes.
A homossexualidade de Lorca é demonstrada em algum momento da peça?
Eu acho que não é demonstrada claramente, mas ele era homossexual e era feliz por ser homossexual. Apesar do fato de nunca ter declarado por causa do grande amor que ele tinha pela mãe e por não querer a aborrecer. Mas ele não fazia mistério disso e então é lógico que se percebe que existe uma dúvida no personagem dele. Ele era homossexual e as pessoas com certeza vão ver.
Como você encara a homossexualidade? Qual é a sua opinião sobre o
assunto?

Eu acho que o todo mundo tem que ter a liberdade de amar quem quiser, de 18 anos para cima. Eu acho que a única coisa ruim é o amor da pedofilia. Eu acho que é uma aberração, uma coisa feia que pode vir de uma mulher por um garotinho de 12 anos, assim como de um homem para uma mulher. Mas a homossexualidade, você não pode julgar um homem ou uma mulher porque é homossexual, negro, chinês, etc. Cara, o importante é a pessoa estar bem com o coração, ponto final.
Você concorda que o artista não deve ter sexualidade definida e apenas sentimentos?
Eu concordo. Eu acho que é muito importante pelo fato que infelizmente a gente vive num mundo que, às vezes, é muito classista e acho que é importante também mostrar para as pessoas que a homossexualidade não é uma doença, não é nada de mais. Eu concordo que o artista não tem sexo. No sentido que você tem que fazer uma cena e não é importante a vida pessoal do artista. O Mick Jagger, que é um maravilhoso artista, na vida real, ele pode beijar uma mulher, um homem, uma aranha, um gato e isso não vai afetar as canções dele, ou as produções de música. Vida pessoal é vida pessoal. Mas as pessoas não respeitam e têm que se ter respeito.
Algumas pessoas que o conheceram atribuem a ele um certo magnetismo que era incontrolável. Você sente isso forte ao interpretá-lo?
Eu tranqüilamente sinto. Rafael Alberti que foi um grande poeta e pintor também, ele disse que quando Lorca estava na sua frente, não existia verão, outono, não existia nada, era só Lorca. Eu acho que isso é uma imagem muito linda. No sentido de que ele era uma estação diferente. Sempre me falam que tem um magnetismo legal, espero chegar perto.
E o Nicola Siri, como trabalha com esse magnetismo que o tornou galã?
Olha, eu espero que esse magnetismo seja dado pela minha seriedade com meu trabalho. Por eu ser uma pessoa muito profunda, por nunca gostar de ficar na superfície, nem das pessoas nem das coisas que eu leio, nem das coisas que eu faço. Acho que isso dá mais magnetismo. Mas acho que eu sou muito garoto, tenho que crescer para caramba e cada dia para mim é uma descoberta nova. Então não sei, e se as pessoas falam, fico feliz por isso.
Depois de interpretar o padre Pedro de Mulheres Apaixonadas você fez alguma peça?

Este é o primeiro projeto em teatro e eu estava com muita saudade de teatro porque eu comecei minha carreira no teatro. Fiz outras coisas como um filme que vai estrear em breve que se chama Diário de um Novo Mundo. Fiz uma minissérie portuguesa que se chama Segredos, mas em teatro é o primeiro projeto (no Brasil). Adorei, estou adorando, é a minha grande paixão, mas é lógico que se a Globo me chamar de novo vou aceitar com muito prazer, porque é muito legal.
E como é passar do padre Pedro para um intelectual homossexual perseguido pela ditadura espanhola?
O grande barato na nossa profissão é poder viver todas as almas. E a minha alma agora é o Lorca. Padre Pedro já foi digerido e é lógico que sempre ficam coisas dentro de você pelo resto da vida, mas acho que quem escolhe ser ator é por essa razão de viver muitas vidas e de cada uma absorver uma cultura e conhecer coisas novas. As pessoas têm medo do desconhecido, se você começa a conhecer, você vai se amarrar em todas as coisas que faz..
Você interpreta um outro personagem na peça chamado Pedro também, me conte um pouco sobre ele.
É quase um pedido da minha protagonista, a Maria (que faz um par romântico), mas também é o Lorca. Tem um grande escritor que diz que em cada obra de um autor, todos os personagens, na realidade, são sempre pedaços do autor e a Maria é um pedaço maior do autor. Ela tem um final feliz e tentando procurar esse final feliz, ele acaba criando o Pedro. E sendo Lorca na vida real, um cara muito brincalhão, que tinha um senso muito crítico, que adorava contar piadas, adorava contar histórias como ninguém, então ele faz o Pedro, um cara malandro, super macho, porque, como sempre, atuar é brincar.
Na sua opinião, foi a genialidade de Lorca que causou a sua morte?
Acho que ele foi morto pela atitude de artista. Como sempre os grandes gênios, as pessoas inteligentes incomodam. A primeira coisa que o Khmer Vermelho (facção política de esquerda), liderado por Pol Pot, fez quando assumiu o poder no Camboja, foi destruir todos os livros. Porque a cultura, a genialidade sempre incomoda o ditador, a força bruta. Então, é lógico que Lorca sendo um grande artista incomodava mais do que os outros.
Você cita muitos artistas do início do século XX. Você acha que há alguém no mundo atual que se compare aos artistas como Lorca, Neruda, Dali, entre outros?
Eu sempre falo que nos primeiros anos de 1900 a gente estava começando o surrealismo, o dadaísmo, o futurismo, o cubismo, essas coisas. Agora, nós temos o Big Brother, ponto final. É inacreditável como o mundo está caindo no abismo, mas quando uma pessoa se ajoelha, está caindo, tem sempre alguém que vai tentar ajudar.
Você se formou dentista. Como isso aconteceu e como houve a transição
para a arte de interpretar?

Eu me formei dentista, mas eu sempre tive duas grandes paixões na minha vida: a tara em teatro, que comecei com 7 anos e o futebol. Eu jogava futebol e era quase profissional, ganhamos torneio. Eu acabei entrando na odontologia e acabei me formando, mas nunca deixando de lado essas outras coisas. Mas depois eu entendi, para mim, para minha sorte grande, que é melhor viver uma vida fazendo o que você quiser, o que você gosta, o que você deseja, do que levar uma vida ganhando muito bem como dentista na Itália. Isso porque a felicidade é a primeira coisa. Estou no Brasil há dois anos e definitivamente. Minha carreira profissional começou com 26 anos, já são 10 anos de carreira profissional.
Qual mensagem você deixaria para o público do nosso site e para aqueles que querem conhecer o espetáculo?
A primeira coisa é conhecer um personagem maravilhoso que foi Frederico Garcia Lorca. Ver como infelizmente a intolerância sempre acaba com os grandes gênios. Como é o caso dessa guerra (se refere ao Iraque) que acontece hoje e que acaba com a cultura e arte de qualquer país, de qualquer povo, de qualquer homem e qualquer mulher. Todo mundo gostava de Lorca e ele morreu fuzilado pelo regime franquista. E isso a gente tem que ver.


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